Os campeões - Entrevista Ivo Lopes

Campeão SBK Espanha e Portugal

Apontado como um dos mais prováveis candidatos a seguir as pegadas de Miguel Oliveira internacionalmente, Ivo Lopes soma sucesso atrás de sucesso, conseguindo esta ano vencer os Campeonatos de SBK de Espanha e Portugal. Falámos em detalhe da sua época e da sua forma de encarar a vida.

andardemoto.pt @ 21-12-2023 19:42:22 - Paulo Araújo

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“Foi uma época muito positiva, eu acho que o ano passado foi um ano de aprendizagem porque as coisas não correram bem, mas este ano conseguimos transmitir o que eu ando à procura, que é velocidade, e que é aquele trabalho de casa também, porque conseguimos entender algumas partes em casa também...“

“O treinar, o físico, e ir para lá como uma mente aberta...”

“Também acho que a energia da equipa era muito positiva, tive uns novos mecânicos, voltei ao meu mecânico de 2021 e a um novo técnico, então foi um ano espetacular, ficou com outro sabor na boca , porque depois ir ao mundial e pontuar, ver que era possível andar mais na frente...”

“Depois, ir ao Europeu de Moto2, foi chato para mim porque não andámos nem na quinta nem na sexta por causa do vento, e mesmo assim ir direito à qualificação e andar um segundo mais lento na corrida foi positivo e agora temos de ver o que nos resta para o futuro...”

A exigência consigo próprio manifesta-se quando o piloto da Amadora descreve o ano passado como não correndo bem, quando acabou também nessa altura com Campeão Nacional e Vice-Campeão de Espanha...



“Sim, mas não foi de todo o que a gente procurava, porque eu fui muito rápido e houve pistas em que fui mais rápido no ano passado que este ano, só que faltava sempre algo nas corridas, não éramos nós, andávamos sempre a lutar contra tudo e íamos sempre frustrados para a corrida, nunca tínhamos uma base certa sobre a moto, tentávamos trabalhar demasiado e depois isso prejudicava-nos.”

“Este ano as coisas correram bastante melhor, íamos para a corrida e sabíamos o que íamos fazer, íamos decididos, tanto que se viu em Barcelona na última corrida, na primeira manga dei doze segundos ao segundo classificado porque realmente sabíamos o que estávamos a fazer, o trabalho foi muito bom e isso é que conta!”

“Em Espanha, fiz, se não me engano, 9 vitórias em 14 mangas possíveis e 13 pódios, porque numa fiquei sem shifter, foi nessa, que fiquei sem shifter e downshift e não conseguia... também foi um bocado erro meu, porque precipitei-me nessa corrida, e é por esses erros que eu digo, que ainda há muito a aprender.”

“Podia ter segurado e tudo o mais, e fiz um erro inteiramente por mim e fui nono, podia ter feito quarto, por exemplo, mas é isso estamos sempre a aprender, acho que todos os anos aprendemos e com a ida ao Mundial, percebi que ainda tenho muito mais para evoluir...”



“A moto também mudou, a aerodinâmica foi uma coisa que a gente já tinha testado no final do passado, até no final de 2021 testámos, e eu sabia que ia haver mudanças, mas a moto em si não mudou tudo...”

“Mudou a aerodinâmica que eu acho melhor e acho mais positivo, mas não acho que seja um segundo e tal por volta, não... se for são 03, 04s... “

“Fisicamente será mais fácil, adequava-se mais ao meu estilo de condução, mas eu acho que a minha ideia era concentrar numa coisa só, não inventar, fazer o melhor “setting” e a base era muito igual... “

“Por exemplos, chegávamos ao Estoril e a moto não se mudava muito comparado com Barcelona, e com outras pistas, essa foi a base...”

“Conseguimos encontrar algo que é sempre difícil e que nem em todas as pistas funciona, mas as médias, da suspensão e tudo o mais daquilo que vai ser o certo, sei aonde quero andar, sei aonde tenho de pôr a moto para estar no ponto certo que eu gosto, se estiver ali fora já consigo sentir, então esse foi um bocado o objectivo do ano e foi por isso também que as coisas melhoraram...”

“Claro que a moto era diferente a nível de aerodinâmica, mas a nível de chassis, a nível de suspensões era basicamente tudo igual... Mudámos muito o setting no início do  ano, o que fez com que também me ajudasse mais...”

“Não foi uma questão de adaptar a pilotagem, eu digo ao contrário, a nova moto trouxe aquilo de que eu necessitava, que era um bocado mais de apoio sobre a frente, uma moto um pouco menos física, e nós tínhamos muitos problemas, quando comparado com outras marcas...”


“Por exemplo, nas entradas em curva, a nossa moto, como é um chassis mais duro, tínhamos - e temos sempre ainda – um pouco de dificuldade na entrada, então temos de fazer as curvas mais em bico, porque é impossível fazer uma curva mais redonda.”

“Esta nova aerodinâmica trouxe-nos um bocado isso, o que é o giro da moto, o que  mais tarde var mais tarde e poder levar o traverodin - um s, por exemplo, nas entradas em curva, a nossa moto como uco menso  pé entrar a travar mais tarde e poder levar o travão até mais tarde.”

Ao pontuar na estreia no Mundial de SBK, foi estranho não ter havido continuidade, haveria razões políticas?

“Não sei, acho que na vida tenho que estar grato, porque se fossemos falar de há cinco anos atrás, se calhar nunca se pensaria que conseguisse ser Campeão Espanhol porque estávamos aqui nesta mesma pergunta , quando é que vais para Espanha, estás a perder tempo em Portugal...”

“Então acho que a vida está-me a dar coisas muito boas, claro que o Mundial é o meu sonho e eu quero ir, mas ele que chegue quando for oportuno e quando eu esteja preparado a 100% para o aproveitar, porque também ir para lá e ser mais um, acho que não é positivo, nem para mim, nem para ninguém...”




“Porque, realmente, eu cada vez penso mais assim: quando somos felizes, isso é que é importante... Se for para o Mundial e não conseguir ganhar, ou andar na frente, não vou ser feliz... Portanto, há que batalhar, há que entender...”

“Às vezes, quando o choque é muito grande, também não nos encontramos, muito bem...”

“Se for tomando choques, e o ano de 2002 foi para mim um bocado chocante, saber lidar com o que aconteceu, porque vinha de ganhar um Campeonato e depois não consegui...”

“Então, a vida tem-me ensinado muito, até por exemplo, o ano passado, tive um colega de equipa, o Ilya (Mikalchick, n. do a.) que esteve ao meu nível e ficou à minha frente no Campeonato, isso fez-me crescer, fez-me entender muitas coisas: que às vezes não temos de olhar para dentro da boxe, tempos de olhar fora, porque senão é uma guerra!”

“Por isso eu digo sempre e cada vez mais, no futuro, que me dêem o Campeonato do Mundo quando tiver que ser... Acho que todos sabem, todos viram o meu valor, e não foi fácil...”

“Eu posso dizer que a equipa técnica queria que eu estivesse lá, muito, muito mesmo, mas é claro, há outras coisas por detrás...”

“Acredito muito que seja possível e que no futuro seja possível ir para um Mundial, nem sei qual, nem para aonde, porque senão a minha vida também não me dava o que tem dado e a aprendizagem que tenho de tomar, porque este ano realmente, sou muito melhor que em 2028, que em 1029 e que em 2020, então isso que eu procuro, que quando chegar ao Mundial tenha algo mais para ser competitivo e não ser só mais um!”

Nesse aspeto, como encarou ele o Campeonato português, era um dado adquirido que tinha de ganhar?

“Não, eu não vou por aí, sou assim muito na vida--- eu ando de bicicleta com amigos , alguns dos quais são profissionais e eu tento ganhar sempre, sou assim, vivo muito disso, sou competitivo, mas em Portugal eu não considero... “ (hesita)

“É um bocado como em Espanha, tenho feito o meu trabalho e não quero saber muito de quem é o adversário... porque eu tenho de chegar ao fim da corrida e sentir-me bem...”

“Assim como em Barcelona, que foram duas corridas que eu ganhei, uma fiquei super feliz e emocionado e a outra não ... e ganhei as duas, mas...”

“Uma correu perfeita, fiz a corrida mais rápida de sempre, fui 8 segundos mais rápido que a melhor corrida da classe em Espanha, e no Domingo já não consegui, mudámos um pneu e não me senti bem...”

“Vir a Portugal é como um treino, gosto muito de dar isto à marca porque a BMW tem feito tanta coisa por mim, porque sem eles não era possível, porque o Rogério tem trabalhado muito e tem-se chegado muito à frente no âmbito pessoal para isto acontecer...”

“Posso dizer que ele quer isto mais do que eu, e então vir a Portugal é um bocado por isso, e o meu método nas corridas é tentar sacar o melhor de mim, para quê?”

“Se eu conseguir ser muito rápido numa corrida em Portugal, ou aonde seja, até num treino, sei com que posso contar em Espanha, porque é tudo igual, corrida é corrida, seja Portugal, Espanha, ou campeonato do Mundo!”

“Se eu sei que em Portugal fizer uma corrida toda em 39 ou 38, sei que vou chegar a Espanha e vou liderar a corrida... se me contentar com fazer 40, 41, sei que vou chegar a Espanha e não vou liderar e não vou ganhar!”

“É uma questão dos obstáculos que a gente tem pela frente, porque se souber que consigo fazer uma corrida toda em 39, OK, e o físico aguenta, vejo que estou a preparar-me bem em casa...”

“Portanto, venho a Portugal lutar comigo próprio, tentar lidar com situações, às vezes aí no Estoril uma vez, e em Portimão, trouxe o meu técnico e conseguimos testar algumas coisas mais positivas, e às vezes faz-nos entender também Portugal.”

“Quer dizer, eu vim a Portugal e fui mais rápido do que quando corria cá no Campeonato espanhol com pneus melhores, o que quer dizer que às vezes, andar mais tranquilo e mais calmo é melhor do que com tanta pressão... e às vezes eu tiro isso de Portugal para Espanha, coisas boas...”

“Eu sei que há gente que não gosta, não gostam que eu venha a Portugal, porque, pronto, perdem os seus lugares, mas eu venho cá trabalhar e tem de haver esse respeito!”

“Para o futuro, as coisas estão-se a decidir e é como eu digo, hoje em dia as coisas estão difíceis, é cada vez mais difícil estar numa equipa do Mundial porque há muitos interesses por detrás, toda a gente sabe disso, nem preciso estar a mencionar isso...”

“O meu futuro vai passar sempre, num plano inicial, outra vez pelo Campeonato Espanhol e depois tentarmos trabalhar até Março quando os Campeonatos começarem, tentar adicionar mais alguma coisa.”

“Eu tenho em mente  muitas coisas mas neste momento não se sabe nada, há que lutar e há que esperar pela nossa oportunidade, e eu acho que o que é meu está lá se tiver que ser!”

“Um dia as portas vão-se abrir, para um Campeonato do Mundo, para o que seja, assim como em 2018 nunca se esperava que eu estivesse numa equipa Espanhola, na BMW, a ganhar o Campeonato, e este ano ganhar nove corridas num Campeonato de 14...”

Lembrámos as Moto2, onde uma vez, Ivo venceu uma corrida no Estoril... com uma Supersport. Seria uma possibilidade?

“Neste momento, era possível fazer o Campeonato Espanhol de BMW e as Moto2, por exemplo, acho que as equipas todas aceitam isso e não era um entrave...” “Agora, são Campeonatos muito caros, há muitas pessoas que querem entrar, há muitas pessoas com algum dinheiro, com sponsors, apoios por  trás e se eu fosse uma equipa a quem aparece um piloto que me desse 200 ou 300 mil euros, eu não iria estar a pagar a outro piloto, é normal!”

“Isto, todos temos de saber, todos temos de olhar para dentro das nossas casas e as pessoas não entendem isso.”

“Não gosto de dizer mal, mas acho que Portugal, se quer ter mais pilotos de topo, devia pôr mais os olhos nisso, e ajudar porque realmente tem de haver uma ajuda, porque todos sabemos que há ajudas por detrás para os outros pilotos e não devia haver essa pressão, mas quem sou eu?”

“Eu quero é estar feliz, fazer as minhas voltinhas de bicicleta, andar a cavalo, estar com quem eu gosto e ser feliz!”

“A base das pessoas é entender a vida, poucas pessoas sabem o que é entender a vida, ser feliz e estar gratos, porque às vezes a gente pede um carro, mas quando tem o carro já quer uma moto e nunca sabemos o que queremos e nunca agradecemos por nada!”

“Seja o que Deus quiser, eu vou trabalhar, como eu digo se há dois ou três anos me aparecesse uma proposta de Campeonato do Mundo eu tinha ido, mas tinha sido a minha derrota, porque não sabia bem como trabalhar, não sabia com treinar, como gerir os meus dias, era só mais um, e agora estou a chegar a um nível de atleta profissional no âmbito do desporto, de como saber treinar, de como me preparar...”

“Chegar ao final de uma época e saber o que tenho de fazer para o ano, preparar desta maneira, ver se isto resulta, e e tenho até um plano base de perder alguns quilos, que não é necessário, mas eu quero experimentar...”

“Quero testar isso, perder uns quilos, até porque se surgir uma oportunidade nas Moto2 é necessário, porque são motos em que o peso conta muito!”

“Então o foco é esse, porque a gente quer muitas coisas, mas estamos preparados? Se calhar, não, então é um bocado por aí...”

“Toda a gente sabe quem está a trabalhar comigo, a BMW é o apoio base, a Federação tem ajudado também, claro que a gente quer sempre mais, isso é notório.”

“Depois, a Nexx, a marca de capacetes que eu uso, também demos um passo gigante, eles estão a apostar e eu tenho de agradecer, os fatos, um marca espanhola que é a DanRow, a Rayner, uma marca espanhola de botas, e basicamente é os sponsors que eu tenho.”

“Por vezes, acho que quanto mesmo pessoas, melhor, porque se um dia chegarmos ao topo, a um Mundial, temos de dar pouca importância ao que ficou por detrás!”



andardemoto.pt @ 21-12-2023 19:42:22 - Paulo Araújo


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