Até Sempre Speedy Gonçalves

A partida prematura deste grande atleta, desportista, pai homem e motard deixa um grande vazio, talvez nunca passível de ser recuperado. Ficaram, a modalidade, o país e a família, mais pobres. Aliás, ficámos, todos os portugueses, mais pobres!

andardemoto.pt @ 24-1-2020 19:00:29 - Pedro Pereira

“Um desafio para os que vão e um sonho para os que ficam” é a lógica subjacente ao Dakar, desde a sua primeira edição, no já longínquo ano de 1978/79. 

Por questões de natureza política, económica, de segurança, de patrocínios… a prova foi mudando a sua localização ao longo dos anos, tendo chegado a passar por Portugal em várias edições.
Desde a sua primeira edição, o Rally Dakar levou a vida de 30 pilotos, sobretudo os das motos. Acrescem elementos da organização, jornalistas e espectadores num total demais de 70 pessoas!

Entre elas, conta-se o piloto português Paulo Gonçalves. Façamos uma viagem no tempo para melhor perceber o atleta e o homem que partiu fisicamente, mas cujo espírito continua entre nós, e assim vai permanecer.


O Speedy Gonçalves (não González, como na banda desenhada, mas melhor) despertou cedo para as motos, sendo que parte do mérito também foi do seu Pai e da sua oficina de motas, em Gemeses, concelho de Esposende, que fez nascer no piloto minhoto um gosto e uma habilidade inatos pelas motos, destacando-se em especial no motocross, no supercross e, mais tarde, no enduro.

Apesar da pequena estatura do Paulo (abaixo de 1,70 m), a sua capacidade física, determinação, resistência, preparação e agilidade impunham-se, fazendo dele um adversário temível. Altruísta e leal, mas sempre muito competitivo, conquistou ao longo da sua carreira um palmarés invejável cujos destaques mais importantes são enunciados abaixo


1991: Iniciação na competição, com cerca de 12 anos;

1993: Campeão Nacional de Motocross 80 cc;

1997: Campeão Nacional de Motocross 125cc Sub-18; Campeão Nacional de Motocross 125cc

Open; Campeão Nacional de Supercross; Vice-Campeão Nacional de Motocross 250cc;

1998: Campeão Nacional de Motocross 250cc; Campeão Nacional de Supercross; 3.º

Classificado no Campeonato da Europa de Motocross;

1999: Campeão Nacional de Motocross 250cc;

2000: Campeão Nacional de Motocross 250cc; de Motocross Absoluto; Vice-Campeão da

Europa de Motocross 250cc; 3.º classificado no Campeonato Nacional de Supercross;

2001: Campeão Nacional de Motocross 250cc e Campeão Nacional de Motocross Absoluto;

2002: (começa a dedicar-se também ao enduro): Campeão Nacional de Motocross 250cc;

Campeão Nacional de Motocross Absoluto; Campeão Nacional de Supercross; Campeão

Nacional de Enduro 4 Tempos; Vice-Campeão do Mundo de Enduro Juniores; Medalha de Ouro

nos “Six Days of Enduro”; Vice-Campeão Nacional de Enduro Absoluto;

2003: Campeão Nacional de Enduro + 250cc 4 Tempos;

2004: Campeão Nacional de Enduro 250cc 2 Tempos; Vice-Campeão Nacional de Enduro

Absoluto; nova Medalha de Ouro nos “Six Days of Enduro”;

2005: Campeão Nacional de Enduro 450cc; Vice-Campeão Nacional de Enduro Absoluto;

terceira medalha de Ouro nos “Six Days of Enduro”;

2006: Primeira participação no Dakar, terminando como 25.º classificado no Rali Lisboa Dakar;

Vice-Campeão Nacional de Supercross SX2; Campeão Nacional de Motocross MX2;

2007: Campeão Nacional de Supercross SX1; Campeão Nacional de Supercross Elite; 23.º

classificado no Rali Lisboa Dakar;

2008: Campeão Nacional de Motocross Elite; Campeão Nacional de Supercross 450cc; edição

do Dakar anulada por questões de segurança;

2009: 10.º classificado na geral do Rali Argentina Chile; 2.º classificado na classe 450cc do Rali

Argentina Chile; 1.º classificado na classe Super Produção do Rali Argentina Chile;

2010: Campeão Nacional Todo-Terreno TT3; Vice-Campeão Nacional de Cross-Country;

desistência no Dakar apos queda (fratura de clavícula);

2011: Campeão de Cross-Country na Alemanha; ganha uma etapa do Dakar, pára ajudar outro

concorrente por considerar que é prioritário (marca pessoal) e acaba por abandonar por

queda;

2012: 3.º classificado Campeonato do Mundo de Ralis Todo-o-Terreno; 26.º classificado Rali

Dakar Argentina Chile Peru. Prova de má memória em que ajudou a tirar a mota de Cyril

Després de um lamaçal, ficando com a sua enterrada de seguida e entregue à própria sorte.

Després seguiu sem retribuir o auxílio ao piloto português, ganhando-lhe 15 minutos nessa

etapa;

2013: Campeão do Mundo de Ralis Todo-o-Terreno (fantástico título mundial); 10.º

classificado no Rali Dakar Peru Argentina Chile;

2014; Vice-Campeão do Mundo de Ralis Todo-o-Terreno; novo abandono à 5.ª etapa do Rali

Dakar Argentina Bolívia Chile. A tristemente célebre cena em que vemos a moto a arder e o

Paulo sem nada poder fazer ficou para os anais da modalidade;

2015: 3.º classificado Campeonato do Mundo de Ralis Todo-o-Terreno; 2.º classificado no Rali

Dakar Argentina Bolívia Chile (que não venceu por uma nesga);

2016: Abandono à 11.ª etapa do Rali Dakar Argentina Bolívia, mas foi-lhe atribuído, pelo

Instituto Português do Desporto e da Juventude, o Prémio de “Ética no Desporto” por ter

parado durante uma das etapas do Dakar 2016, quando liderava a corrida, para ajudar o

austríaco Mathias Walkner que tinha caído;

2017: 6.º classificado no Rali Dakar Paraguai Bolívia Argentina;

2018: Triunfos no Desafío Ruta 40 e Desafío Inca, mas falhou a edição do Dakar devido a uma  queda em Reguengos de Monsaraz, pna disputa da derradeira jornada da primeira edição do Campeonato Nacional de Rally Raid.

2019: Abandona o Rali Dakar na quinta etapa por queda;

2020: Foi a sua 13.ª participação na mítica prova. Deu uma mostra da sua determinação quando, sozinho e em pleno deserto, com temperaturas de 35 graus à sombra, trocou o motor da sua moto, e ainda assim consegue terminar a etapa e permanecer em prova. Feito que deixa meio mundo boquiaberto com a tenacidade do Português.


Foi na 7ª etapa da 42ª edição da prova, depois do dia de descanso, que Paulo Gonçalves sofreu um acidente fatal, consequência de um conjunto de circunstâncias entre as quais a alta velocidade, uma pequena duna, e muito pouca sorte.

No dia seguinte a prova não se realizou, nem para as motos nem para os quads, e a sua equipa, a Hero Motorsports, onde este ano Paulo Gonçalves corria ao lado do seu cunhado Joaquim Rodrigues Jr, decidiu abandonar a prova. Não fazia sentido continuar nesta edição. A perda tinha sido grande demais!

Depois da tragédia, as mais altas individualidades da nação, o Presidente da República,Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro Ministro, António Costa, o Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, fizeram-lhe os mais rasgados (e merecidos) elogios. O Speedy teve direito a extensas reportagens televisivas, aberturas de noticiários, testemunhos de colegas, amigos, família…

Os participantes na prova, como Juan Barreda (seu antigo colega de equipa), Matthias Walkner (concorrente e amigo, por ele ajudado na edição de 2016), Kevin Benavides… e tantos outros, prestaram-lhe sentida homenagem. E vai ser difícil esquecer as imagens do choro inconsolável do seu amigo e cunhado Joaquim Rodrigues Junior.

Até o diretor do rali Dakar 2020, o francês David Castera e o “Senhor Dakar” (aka Stéphane Peterhansel) fizeram questão de mostrar a sua dor e sofrimento, sendo bem elucidativo o testemunho deste último:
De cada vez [que morre alguém], surge a mesma questão. O que é que estamos a fazer aqui? Para quê? É realmente necessário competir? Não é a vida algo mais importante? Paulo Gonçalves era alguém que conhecia os riscos, era a sua paixão. Isso pode atenuar um pouco o que sentimos. Ele partiu a fazer o que o apaixonava, o que é um pequeno consolo. Mas é difícil de “;engolir”; de cada vez que acontece…

O Presidente da Federação Motociclismo de Portugal (FMP), Manuel Marinheiro, enalteceu o atleta e resumiu, em poucas palavras, quem era Paulo Gonçalves: “o piloto com mais títulos de campeão nacional mas, acima de tudo, um excelente homem “.

O próprio presidente da FIM (Federação Internacional de Motociclismo), que é o portuguêsJorge Viegas, sintetiza tudo afirmando: “Não posso estar mais triste. Era um piloto que eu adorava e que conhecia desde pequenino. Era um exemplo como piloto e como pessoa!”

O desporto em Portugal está (muito) mais pobre. O motociclismo perdeu umas das suasgrandes glórias.

Aparte as nossas sentidas condolências, aproveitamos o momento para deixar uma (nova)mensagem de alerta: as motos representam liberdade, alegria, superação, sacrifício, prazer e tantas outras coisas. Façamos todos o máximo possível para que não seja sinónimo de tragédia!

Adeus Speedy! Vais continuar sempre nos nossos corações!

andardemoto.pt @ 24-1-2020 19:00:29 - Pedro Pereira


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