23º Portugal de Lés-a-Lés – 2ª etapa São Pedro do Sul a Abrantes
Num dia diversificado, com subidas a miradouros e descidas a praias fluviais, com palácios centenários e fortalezas milenares. Assim foi a 2ª etapa do 23º Portugal de Lés-a-Lés, com 299 quilómetros na ligação de São Pedro do Sul a Abrantes para os mais de dois mil motociclistas que participam nesta aventura de mototurismo.
andardemoto.pt @ 5-6-2021 11:00:00
Depois
da chegada a São Pedro do Sul numa primeira etapa em cenários serranos, a
enorme caravana do 23º Portugal de Lés-a-Lés partiu precisamente de São Pedro
do Sul tendo como destino final nesta 2ª etapa a cidade de Abrantes.
Retomada a aventura onde havia ficado na véspera, saiu a caravana da Capital do
Termalismo fazendo a devida vénia à passagem pelo nobre Palácio do Marquês de
Reriz, onde a Rainha D. Amélia e o Rei D. Carlos I mais os Príncipes Reais,
Luís Filipe de Bragança, Maria Ana de Bragança e Manuel II de Portugal,
pernoitavam quando vinham a banhos, em finais do século XIX. A arquitetura
barroca deste palácio de longa fachada e linhas sóbrias passou quase
despercebida ao rapidíssimo grupo das cinquentinhas de Benavente e St.o
Estevão.
É que as Famel XF-17, Sachs V5, Sachs Fuego e Sachs Motozax de Telmo Costa,
Carlos Cachulo, Tiago Francisco e Vítor Ferreira passaram por ali ainda a noite
estava, parcimoniosamente, a ceder o seu lugar ao dia.
Dealbar de uma etapa que haveria de prosseguir por Viseu, com tempo para
espreitar a imponência dos muros de terra batida da cava do Viriato ou a
majestosidade da Sé Catedral, paragem em estreia absoluta na aventura organizada
pela Federação de Motociclismo de Portugal.
E que, desde logo, deixou em muitos participantes a vontade de voltar, quanto
mais não fosse para descobrir essa fortaleza com 2 quilómetros de taludes em
terra batida, rodeados de um fosso defensivo, com uma forma de octógono
perfeito – dos quais seis lados continuam em condições de ser visitados – e que
terá sido criado como acampamento militar na época romana, nos Séculos II ou I
A.C.
Deixando para trás as muitas rotundas viseenses, passagem dos carvalhais para o
reino do eucalipto, entre Tondela e Vila de Rei, onde as divertidas curvas da
N2 ajudam a disfarçar tão desinteressante paisagem, minimizada pelo bem tratado
centro de Santa Comba Dão.
Onde o grande ajuntamento de motos levou grande parte da caravana a seguir o
conselho para degustar o reforço alimentar ali oferecido, mais adiante, na
Barragem da Aguieira, a comemorar os 40 anos de entrada ao serviço. Obra
imponente inserida numa localização privilegiada, com cerca de 90 metros de
altura, retendo as águas do Mondego para criar uma albufeira que se estende por
mais de 2000 hectares abrangendo os concelhos de Carregal do Sal, Mortágua,
Penacova, Santa Comba Dão, Tábua e Tondela.
E se, inicialmente, a água aqui travada de destinava essencialmente ao
abastecimento das populações, à irrigação agrícola, à regulação do próprio
caudal do rio e, claro, também à produção de energia elétrica, hoje oferece
ainda condições de eleição para as mais diversas atividades aquáticas, de lazer
ou desporto.
Da grandeza do Mondego ao paraíso do Alva
Dimensão imponente do maior rio de curso inteiramente em Portugal em contraste
absoluto com o pequeno e bucólico paraíso encontrado na praia fluvial do
Vimieiro, nas margens do rio Alva que, nascido na Serra da Estrela, atravessa
paraísos como a carismática Ponte das Três Entradas ou as belíssimas aldeias de
xisto, antes de desaguar no Mondego.
Ali, num cenário ímpar, tempo para uma água (de Penacova, pois claro) e um
delicioso pastel de Lorvão, doce conventual à base de amêndoa e ovos, nascido
pelas mãos das freiras do Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, e que deliciou os
2500 participantes neste 23º Portugal de Lés-a-Lés como outrora conquistou o General
Wellington que por aqui andou aquando da sua defesa dos interesses portugueses
na Guerra Peninsular.
Seguindo ao longo do Mondego, tempo para apreciar a monumental Livraria do
Mondego, obra que foi esculpida pela natureza desde há mais 400 milhões de
anos, cientificamente falando assentadas de quartzíticos do Ordovícico
dispostos quase verticalmente, como se de livros numa estante se tratasse.
Sem tempo ou vontade para grandes leituras, seguiu a caravana rio abaixo, rumo
a Vila Nova de Poiares e passagem pelo alto da Sr.a da Candosa antes da paragem
em Góis. Claro que era impensável passar por terra tão acolhedora, simpática
vila com mais de 800 anos de história, sem visitar a sede o Moto Clube de Góis
e o relaxante Parque do Cerejal.
Onde, aproveitando a frescura do rio Ceira, se podia piquenicar (e que
deliciosas estavam as Gamelinhas de Góis, com equilibrada mescla de paladares
entre o mel, castanha, noz e canela!) ao mesmo que era possível descobrir as novidades
da coleção 2021 dos capacetes Nexx.
Para aqueles que não estavam ainda com apetite suficiente, surgia a
possibilidade de paragem mais adiante, nas praias fluviais em Tulhas da
Cabreira, no Colmeal ou em Alvares, onde às águas cristalinas se juntam a uma
paisagem única e a curiosidades arquitetónicas como lagares de azeite, moinhos
de água, pontes seculares (caso da do Soito, onde outrora passava a N2) ou as
tulhas, pequenas construções em xisto, onde antigamente se guardavam as
azeitonas.
Rumo ao Tejo... mas sem o atravessar
Seguia assim, rumo a sul, o internacional pelotão, onde os motociclistas
portugueses eram acompanhados por matrículas de todo o Mundo, da vizinha
Espanha às mais afastadas ilhas britânicas, mas também do Luxemburgo, França,
Suíça, Alemanha ou Itália.
Além de amigos de Cuba, Brasil ou Angola numa das mais internacionais caravanas
de sempre, deleitada com paisagens como as oferecidas no miradouro da Sr.a dos Milagres,
por onde passava a N2 antes de descer pelos ganchos em calçada escorregadia até
à Ponte Filipina. Ancestral travessia do Zêzere – inesquecível para os
participantes do 18.o Lés-a-Lés! – antes da construção da Barragem do Cabril,
iniciada em 1950, agora utilizada na viagem com a Sertã como destino.
Nome nascido de uma lenda com toques gastronómicos já que tal se deveria ao
utensílio que a jovem princesa Celinda defendeu o castelo do assalto das tropas
romanas, primeiro com o azeite que fervia para cozinhas os ovos e depois com a
própria sertã quase brasa. Estória que parece ter aberto o apetite para o
lanche desfrutado nas margens da Ribeira da Sertã, com direito a travessia da ponte
da Carvalha, construída no Séc. XVII em plena Dinastia Filipina.
Com o tempo a aquecer, a passagem por Vila de Rei e a obrigatória subida ao
Centro Geodésico de Portugal, marco inesquecível das duas primeiras edições do
Portugal de Lés-a-Lés que por aqui passaram à meia-noite, exatamente a meio das
24 horas gastas na ligação entre os dois extremos do mapa Continental.
Um ponto determinado há mais de dois séculos (em 1802), com equipamentos
escassos e de precisão infinitamente menor que atualmente mas que, só muito
recentemente, levantou alguma dúvida com um estudo matemático a determinar o
centro geométrico do País ligeiramente ao lado, no concelho de Mação.
Polémicas à parte sobre o umbigo de Portugal, a verdade é que no alto do Picoto
da Milriça, mesmo ao lado do Museu da Geodesia, está a coordenada zero em
termos cartográficos, sendo a partir daquele ponto que são feitas as medições da
cartografia nacional.
Está, pois, localizado no concelho de Vila de Rei, o mesmo que ofereceu não só um
apetitoso lanche como locais espetaculares para o degustar. Da aldeia de xisto
de Água Formosa, aos miradouros das Fragas do Rabadão, com vistas sobre o
Zêzere, ou no miradouro e praia do Penedo Furado, verdadeiros ex-libris do
concelho.
Já com o dia longo, teve a caravana direito a brinde especial à passagem do
Sardoal, com inesquecível festa da população à passagem da heterogénea e
colorida caravana, com indicações em todas as viragens dentro da pequena e
lindíssima povoação.
Ficaram assim os motociclistas mais à vontade para retribuir aos acenos e
aplausos da população, com destaque para as muitas crianças que, em alegre algazarra,
acolhiam os aventureiros da maior maratona mototurística da Europa.
Uma última paragem para a fotografia no oásis com vista só montados, antes do
final em Abrantes, na margem direita (ou norte..) do Tejo, preparando a mudança
na paisagem e na viagem, guardada para a última tirada deste 23º Portugal de
Lés, com destino a Faro.
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Galeria de fotos 23º Portugal de Lés-a-Lés
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