Honda V3R 900 E‑Compressor - Atsushi Kusuda explica

O relato de uma mudança de atitude do gigante japonês perante o mercado,com uma ambição clara de que as motos de grandes cilindradas da Honda voltem a ser vistas como referência em inovação, caráter e prazer de condução, muito para lá do que os clientes estavam habituados a pedir.

andardemoto.pt @ 10-6-2026 02:50:37.2026340 - Texto: Rogério Carmo

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Numa recente entrevista dada ao site japonès Webike, Atsushi Kusuda, o “mastermind” da Honda por detrás do protótipo V3R 900 E‑Compressor, explica que este projeto nasceu de uma ideia muito simples e, ao mesmo tempo, ambiciosa: criar uma moto que seja como uma “montanha‑russa sem carris”, capaz de oferecer uma aceleração inédita, mas acessível a qualquer motociclista, sem o filtro de exigência extrema típico das supersport de circuito.

Em vez de partir do motor, a equipa começou pelo “corpo” da moto e pela experiência desejada: era necessário um conjunto compacto, leve, fácil de controlar, mas que permitisse explorar o binário brutal de um compressor elétrico com segurança e confiança. A partir desse objetivo, o V3 com o E‑Compressor surgem como meios ao serviço de um conceito e não como fim em si mesmo.


Kusuda contextualiza ainda o momento em que o projeto ganhou luz verde. Pouco antes, a Honda era criticada por ter perdido ousadia e espírito de desafio, ao mesmo tempo que as vendas de grandes cilindradas caíam. Com o sucesso de modelos como a Hornet e a Transalp, a marca recuperara o primeiro lugar de vendas na Europa e, com isso, a margem para voltar a afirmar a sua identidade de forma mais radical.

O V3R foi pensado como uma espécie de “pico” tecnológico e emocional da gama Honda de grande cilindrada: até aqui, os modelos foram desenhados para superar as expectativas dos clientes dentro do que eles pediam, mas com o V3R, a intenção é ir muito além do que o cliente sequer imagina, mostrando algo tão radical e inovador que só a Honda se atreveria a fazer.


Daí a escolha do V3. Kusuda sublinha que não se tratou de decidir primeiro “vamos fazer um V3” e depois ver onde encaixar o motor. Foram ponderados motores V4 e de outras arquiteturas, mas a solução de três cilindros em V revelou‑se a melhor síntese entre dois mundos: mais cilindros do que um V2, para permitir rotações elevadas e um carácter excitante, mas menos massa e volume do que um V4, o que ajuda a manter o conjunto estreito, leve e com melhor distribuição de carga na roda dianteira, um fator crítico numa moto de elevado binário, no qual a frente tende a aliviar.

Além disso, os V4 costumam obrigar a corpos maiores e mais pesados para gerir o calor que chega ao assento e assim aumentar e o conforto dos ocupantes, o que iria contra o objetivo de compacidade. No V3R, o motor e o compressor elétrico formam um “casal” inseparável: o E‑Compressor é alimentado por um sistema elétrico de alta tensão com uma bateria dedicada, alojada na discreta saliência sob o assento.

Kusuda admite o paradoxo: um sistema semi‑híbrido acrescenta peso, mas a resposta é engenharia pura: compensar esse acréscimo com redução de massa em todo o resto, incluindo a própria arquitetura V3 e o quadro que usa o motor como elemento estruturante.


A ciclística segue a mesma lógica de compromisso entre originalidade, funcionalidade e peso. A adoção do sistema Unit Pro‑Link atrás, o mesmo que desenvolvido para a RC211V da Repsol Honda deu a Valentino Rossi a vantagem suficiente para conquistar o título de campeão de MotoGP em 2002, não é apenas uma assinatura técnica: liberta espaço para o conjunto de bateria e evita sobrecarregar o motor com esforços de suspensão, já que o quadro se fixa às cabeças dos cilindros e não tem pivô de braço oscilante tradicional.

Visualmente, isso limpa a zona atrás do cilindro traseiro, reforça a sensação de leveza e deixa mais expostos o monobraço e a linha de escape. Quanto ao posicionamento, Kusuda assume claramente o V3R como uma streetfighter: uma naked potente, mas menos intimidante que uma supersport carenada, mais fácil de montar e de dominar, para um leque alargado de utilizadores. E deixa escapar, com cuidado, que “começar” com uma naked não fecha a porta a outras derivações.


É neste ponto que a conversa ganhou um tom quase de teaser. Kusuda confirma que existem desenvolvimentos planeados a partir desta base e admite que já guiou uma versão sem compressor, um V3 atmosférico que, segundo ele, é divertido por direito próprio, graças ao pulsar muito particular desta arquitetura. Reconhece que a versão sobrealimentada deverá posicionar‑se num patamar de preço mais elevado, mas não descarta a ideia de um modelo mais acessível que permita a mais pessoas experimentar o pacote V3 leve, estreito e trabalhado ao detalhe.

Ao mesmo tempo, sublinha que projetos deste tipo servem também para formar novas lideranças e engenheiros dentro da Honda, porque obrigam a resolver problemas inéditos, a descobrir soluções e a abrir novos caminhos tecnológicos.

No final, Kusuda reforça duas mensagens: por um lado, a intenção da Honda de continuar a lançar conceitos desafiantes e a evoluir o V3R com uma versão mais desenvolvida, prometida para próximos salões, como o EICMA; por outro, a ambição clara de que as grandes cilindradas da Honda voltem a ser vistas como referência em inovação, caráter e prazer de condução, muito para lá do que os clientes estavam habituados a pedir.

Veja o vídeo abaixo:

andardemoto.pt @ 10-6-2026 02:50:37.2026340 - Texto: Rogério Carmo


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