Porque é que os pneus de competição são lisos?
Embora a resposta a esta pergunta seja lógica para alguns, existem muitos fãs de corridas de motos que não sabem porque é que os pneus de competição são lisos.
andardemoto.pt @ 22-10-2021 12:48:13
Os pneus de uma moto são o único (pelo menos assim
esperamos que seja!) ponto de contacto entre a moto e o asfalto. Numa moto de
competição, desenhada para percorrer uma volta a um circuito no mínimo tempo
possível, os pneus acabam por ser um dos pontos fundamentais no desenvolvimento
de uma moto deste tipo. São os pneus que condicionam grande parte da afinação
do chassis e eletrónica de uma moto de competição.
Os
pneus de competição são fabricados de forma bastante diferente dos pneus que podemos
comprar e usar nas nossas motos de estrada. Aliás, uma das regras de segurança
que somos constantemente lembrados pelas autoridades, aponta para a utilização
de pneus de estrada com rasgos com uma boa profundidade, de forma a garantir a
nossa segurança.
Mas,
se os pneus de estrada são melhores e mais seguros tendo rasgos, porque é que
os pneus de competição são lisos, ou, como se diz na gíria da competição,
“slick”?
Em
primeiro lugar, é preciso entender que quanto maior for a superfície de
contacto de borracha com o asfalto, maior será a aderência do pneu. É por isso
que os pneus de competição são totalmente lisos. Assim, as rodas de uma moto
para uso em circuito têm maior área de contacto com o asfalto e garantem mais
aderência de forma a passar para o asfalto a grande potência desenvolvida por
estas motos.
A construção da carcaça dos pneus de competição é diferente. É mais rija. E os
compostos de borracha usados são estudados ao detalhe por parte do fabricante
dos pneus, de forma a resistirem às exigências de motos que aceleram para
velocidades superiores a 340 km/h, e que por isso têm de travar e ter aderência
extrema.
Se
estes pneus lisos / slick têm maior aderência ao asfalto, porque é que não os
usamos na estrada em vez de pneus com rasgos? Esta é uma pergunta que quem está
menos ligado à competição de motos poderá fazer.
De uma forma simples, a explicação para isso deve-se ao facto dos pneus de
competição serem usados apenas em condições muito específicas: piso seco e
circuito com asfalto perfeito, ou perto disso. Um pneu de estrada tem de ser
mais polivalente, podendo ser usado em piso seco ou molhado, e por isso
necessita de rasgos que permitem escoar a água do asfalto para maximizar a
aderência em dias de chuva.
É por
isso que quando uma corrida se realiza em dias de chuva, os pilotos têm à sua
disposição pneus específicos para essas condições. Estes pneus de competição
para chuva apresentam rasgos como os pneus de estrada mas de maiores dimensões,
permitindo escoar grandes quantidades de água da superfície de asfalto e evitar
assim o temido “aquaplaning”, situação em que o pneu deixa de conseguir tocar
no asfalto devido à quantidade de água e perde a aderência.
Nestas situações parece que as rodas ficam a “flutuar” sobre o asfalto. Para
além disso, os pneus de competição para chuva contam com um tipo de borracha
bastante mais macia e que, no caso do asfalto secar, se desgasta bastante
rapidamente.
HISTÓRIA DOS PNEUS SLICK NA COMPETIÇÃO
Agora
que já vimos qual a razão das motos de corrida usarem pneus lisos / slick,
talvez seja bom ficar a conhecer um pouco melhor a história deste tipo de
pneus. Até aos anos 70 do século passado, os pneus usados em competição tinham
rasgos. Nessa altura, os pneus não eram tão específicos como são atualmente, e
tinham de ser bastante resistentes.
As equipas oficiais ou de fábrica, com maior poderio financeiro, trocavam de
par de pneus a cada Grande Prémio. Porém, as equipas e pilotos privados, com
menos argumentos financeiros, tinham de usar um par de pneus durante mais do
que um GP.
Em
matéria de pneus, assistimos a uma grande revolução quando os fabricantes de
pneus começaram a usar o nylon, um material mais ligeiro, mais flexível, mas ao
mesmo tempo também mais resistente do que o algodão que era usado até então na construção
da carcaça dos pneus. Com o algodão, eram obrigados a usar mais camadas de
lona, e por isso os pneus eram mais pesados.
No
início dos anos 50, e devido ao desenvolvimento em materiais para a II Guerra
Mundial, técnicas de fabrico militares passaram a ter aplicação civil, sendo
então que o nylon começou a ser usado no fabrico de pneus de motos, entre
muitas outras coisas.
Até ao início dos anos 60, o fabricante inglês Avon era o principal fornecedor
de pneus de competição, mas em 1963 a Dunlop apresentou o seu pneu
“triangular”, de perfil menos redondo, e que permitia aumentar a superfície de
contacto com o asfalto em inclinação. Passou então a ser este o tipo de pneu
dominante na competição.
OS PRIMEIROS PNEUS SLICK
Já nos
anos 60 os fabricantes de pneus de competição consideravam que, face ao aumento
da potência e capacidades dinâmicas das motos de corrida, seria necessário
desenvolver um novo tipo de pneus com maior capacidade de aderência. Como é que
o conseguiram?
Basicamente, optaram por aumentar a superfície de contacto com o asfalto
eliminando os rasgos, um espaço vazio que nunca estava em contacto com o
asfalto. Enchendo esse espaço vazio de borracha aumentavam a superfície de
contacto, e isso resultava numa melhoria da aderência perante o aumento da
potência das motos de corrida.
Em
1975, um dos maiores (se não o maior) piloto de sempre do motociclismo, Giacomo
Agostini, conquistou o seu último título na categoria 500 cc usando,
habitualmente, uma combinação de pneu slick atrás e pneu de rasgos na
dianteira. Esta era uma combinação estranha, mas que tinha uma explicação.
Os
então novos pneus slick tinham tanta aderência que provocavam vibrações e
ressonância na moto. A ressonância vinha de trás para a frente, e resultava em
movimentos exagerados da dianteira da moto e vibrações excessivas. Atualmente
chamamos a este efeito de “chattering”. Agostini e a sua equipa perceberam que
a única forma de combater este problema era usar uma combinação de pneu slick
na traseira e pneu de rasgos na dianteira. Problema resolvido!
Um ano
mais tarde, em 1976, a utilização de pneus slick era já uma situação bem vista
pelos pilotos e equipas. Porém, os regulamentos técnicos, que nesta altura eram
definidos em exclusivo pela Federação Internacional de Motociclismo (FIM), não
tinham qualquer menção específica a respeito dos pneus lisos para uso em
competição. Foi aceite a utilização deste tipo de pneus nas categorias maiores
de 500 e 350 cc. Porém, nas mais pequenas 125 e 250 cc, os pneus slick foram
proibidos.
Se na
categoria 125 cc não houve grande problema, pois tanto a Michelin como a
Dunlop, que eram então os principais fornecedores de pneus nesta categoria, não
disponibilizavam pneus slick para estas motos mais pequenas, o mesmo não
acontecia nas 250 cc. Os pilotos desta categoria conseguiam competir com pneus
lisos, mesmo indo contra as indicações da FIM. A justificação usada pelos
fabricantes apresentava a maior segurança conseguida pelo aumento da aderência
com estes pneus.
No
Grande Prémio da Suécia a FIM encontrou-se num “beco sem saída”. Uma parte dos
pilotos das 250 cc protestou contra a utilização destes pneus, exigindo que o
regulamento fosse cumprido. Queriam que a FIM proibisse os pilotos com motos
equipadas com pneus slick de participar nesse GP.
O conflito nunca chegou a um ponto sem retorno, e a FIM, logicamente, acabou
por entender a melhoria, a todos os níveis, que era a utilização de pneus lisos
de competição em vez dos pneus de rasgos.
A partir desse momento, os pneus passaram a ser slick, tal como os conhecemos
hoje. A estrutura, construção, tecnologia utilizada, os tipos de compostos, e
outros elementos podem vir a ser diferentes ao longo do tempo. Mas um pneu de
competição será sempre sem rasgos. Desde que não seja uma corrida à chuva!
andardemoto.pt @ 22-10-2021 12:48:13
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