Pedro "A”Ventura

Pedro "A”Ventura

Trabalha em Lx mas é Beirão e Off Rodista

OPINIÃO

O Nosso Dakar 2019

A maralha do Off Road foi no fim-de-semana de 19 e 20 de janeiro de 2019 para o Algarve participar no Nosso Dakar, um evento onde os participantes percorrem os troços utilizados pelo Paris Dakar quando começava no nosso país.
É um evento organizado pela Longitude 009 para o segmento das big trails e que este ano teve cerca de 350 participantes.

andardemoto.pt @ 29-1-2019 18:36:43 - Pedro "A”Ventura

Na semana anterior andei em dúvida que mota levar: a CRF 2.5, ou a A.T. Por um lado, tinha leveza e manobrabilidade acrescida; por outro, tinha muito peso mas um grande depósito de gasolina, o que me deixava à vontade com a autonomia. Optei, e aí fui eu para o Algarve com a Big Tank.

Ficámos instalados num hotel impecável em Vilamoura, que tinha todas as condições necessárias e o secretariado da prova, com um serviço dedicado e profissional que a todos agradou.

Havia motos para todos os gostos, reboques, carrinhas de concessionários (que dão apoio aos seus clientes)... era o circo das motas! Somos todos amadores, mas com a dedicação de profissionais.

O meu grupo: Rad, David, Jorge, Sérgio, Miguel, João Mata, João Carvalho, Diogo, Filipe, Pedro Carvalho, e o macaco velho do Elias, BMW-2,  CRf 2.5-2, Tenere-1, Africa Twin-7.


Sábado - 1.ª Etapa com 143 Km, cerca de 105 Off-Road.

Decidimos partir no fim do pelotão para não ir no meio da “confusão” inicial e assim meio sem saber bem como, vejo-me na linha de partida nº 146 com a minha Big Tank entre as pernas, com uma dor de estômago brutal devido aos nervos e ansiedade. Meto a 1.ª e aí vai disto!….

Uma poeirada brutal, impossível descrever, estradão aberto, 3.ª, 4.ª, 5.ª, é gajos e motas por todo o lado, "gazadas", uma barulheira infernal, olho para o painel e entre o pó vejo 95 km de velocidade…,  f&$#%=!, vou morrer hoje!

Decidi baixar o ritmo e perdi o contacto com o meu grupo. Ainda tornámos a reagrupar umas duas vezes, mas eu decidi ir “sozinho” ao meu ritmo, com o meu companheiro Wikiloc.

Dentro do meu capacete iam as vozes conselheiras do Carrilho, Luís Ferreira, Sérgio, Filipe, Rad, Armando, Elias, João “Agulhetas” e mais uma porrada de gajos que me deram lições e dicas. O meu muito obrigado a todos.

Os quilómetros foram passando, eu fui relaxando e fiquei confiante, a AT e os pneus Motoz Desert cumpriam com determinação. A paisagem é bela, mas muito árida. No entanto, via que nestes confins do mundo vivem pessoas e são felizes (encontrei um alemão que, com o seu largo sorriso, logo percebi o quanto era feliz por ali viver). À passagem por um riacho estavam lavadeiras a cuidar da sua roupa na água corrente, uma delícia.

Muitos dos participantes pararam para conversar, para tirar fotos, beber um copo, apreciar a paisagem. Eu estava noutra onda: rola punho, pois tinha receio que a noite me apanhasse ainda no trilho. Sobe, desce, trava, acelera, por vezes parar, para ajudar um companheiro em dificuldades (um gajo numa GS 1200 caiu à minha frente, a mota ficou numa posição lixada, nós os dois não a conseguimos levantar e teve de vir mais um ajudar).

A organização, presente nos sítios mais difíceis, faz sinal para desenrolar punho, serviços médicos sempre presentes, os quilómetros ficam para trás e começo a acreditar que vou conseguir chegar ao fim sem quedas, passo as ribeiras sem problemas (as ribeiras são o local de concentração de participantes e população local, é sempre divertido ver um gajo cair à água).

Apanho umas colinas íngremes com curvas muito apertadas e aí o peso e envergadura da Big Tank sente-se, é difícil curvar, enfio-lhe uma 1.ª, a mota do c@#$%=&, começa a esgravatar por ali acima, a roda traseira a dançar a “zumba”, é uma sensação brutal! Os companheiros que têm e nunca meteram uma Big Tank nestas situações nem imaginam a mota que está na vossa garagem.

Assim vou indo eu, quando à saída de uma curva dou com as bandeirolas da meta…

Terminei sem quedas! O meu capacete, que suportou muito pó e suor, também absorveu duas lágrimas de alegria.

Fim de tarde e jantar bem, bem, bem regado com cerveja e vinho e muita risota, um abraço de solidariedade para o João e o Jorge, que devido a quedas, terminaram a sua participação neste evento.


Domingo - 2ª Etapa com 143 Km, cerca de 130 Off-Road.

Comecei mal, pois ainda no parque de motas parti a ficha de ligação ao isqueiro e fiquei sem poder dar carga ao iPhone que uso como GPS.

A ligação para o troço foi um bocado assustadora. O alcatrão na serra tinha humidade, algum gelo, e os pneus de tacos não gostam disso, mas não houve problema.

Decidi ir sozinho, pois queria ir ao meu ritmo. O Filipe Guerra insistiu para ir com ele e em boa hora o fez. Assim fui, ainda que contrariado.

Estradões abertos, sempre a bombar, após uma hora e meia de percurso fiquei “cego”, sem carga no telefone (o Wikiloc chupa uma bateria num instante). O Filipe passou a ser o meu GPS e fomos rolando sem incidentes.

Do nada aparece uma colina, muito, muito íngreme com alguma lama. Assumi a postura que o Luis Ferreira me ensinou e aí vai disto. Com o coração a 300 à hora, já perto do fim da colina, sem saber como, dou por mim a voar por cima da mota e a rebolar na lama. Com a ajuda do Michael (o meu muito obrigado), lá me levanto e vejo a minha AT deitada no chão. Vai de a levantar e seguir para a ribeira que está logo ali, onde deixo cair a mota na travessia, por falta de tracção (na queda a mota desligou e ao ligá-la não me lembrei de desligar o controle de tracção). A Honda devia rever esta situação, o modo Gravel devia assumir tracção e ABS sempre desligados.

Aqui estou eu, numa ribeira todo molhado, com a mota totalmente submersa em água, mas logo chegou ajuda. Já na margem, aquela ansiedade da mota não pegar, mas à quarta tentativa o motor lá acordou, expelindo a água pelo tubo de escape. Fui assistido pela equipa médica a um pequeno corte que fiz na mão.

Confesso que fiquei mentalmente quebrado, tinha vontade de desistir, mas f&$#%=!, ali não há reboques, não está lá a Mãezinha para dar abracinhos, e o Filipe com a sua calma disse: “deixa-te de merdas e anda embora”! …e eu fui.

Recomeçou logo com uma p#t@ de uma colina, 1.ª a fundo para subir aquilo e, depois de superada, começámos a rolar e reparo que tenho o guiador todo empenado. O Filipe, logo ali, agarra-se a ele, puxa, puxa e lá o endireitou (está impecável) e foi continuar a rolar. Já mais animado até concluir a prova perto de Serpa, onde um prato de rancho, um copo de tinto e risota com os companheiros me levantou novamente o ânimo.

Parabéns à organização, foi magnífica, puseram o seu conhecimento ao serviço dos motociclistas e um abraço especial de agradecimento ao Diogo “Cenoura”.

Os motociclistas neste evento deram uma lição de civismo em todo o lado por onde passaram, sempre com um comportamento notável. Tenho orgulho em pertencer a este grupo.

De regresso, já na Ponte 25 de Abril a furar entre os carros, tive de parar e um condutor vê este “pinta” em cima de uma mota, todo sujo, perguntou-me de onde vinha, ao qual, eu respondi: venho do Paraíso!

Um abraço a todos os motociclistas.

andardemoto.pt @ 29-1-2019 18:36:43 - Pedro "A”Ventura