Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Olivença é Nossa, dizem…

Desta vez a nossa aventura é um passeio pela História de Portugal. E quando falamos da nossa História, uma manhã de nevoeiro vem a calhar. Aliás, não podia faltar!

andardemoto.pt @ 25-2-2019 17:31:49 - Henrique Saraiva

Era assim que se nos deparava a passagem para a outra margem.

Já reunido o agrupamento de briosos cavaleiros cujo fito era a reconquista de Olivença ou, no mínimo, banquetearem-se com lauto almoço nas terras Portuguesas de Castela, a primeira paragem foi no Couço. Ficou registado para a história que as empadas continuam soberbas.

Entretanto, o nevoeiro cerrado mantinha-se. Nalguns momentos juraria mesmo ter visto o vulto de D. Sebastião. Afinal…era só a viseira do capacete embaciada! Falso alarme…

Prosseguimos por Mora e só alguns quilómetros após, o nevoeiro nos libertou da sua incómoda (húmida e fria) presença. Pudemos então começar a desfrutar da magnífica paisagem do Alto Alentejo, ainda coberta por um manto de geada mas com um céu limpo e um sol radioso. Antevia-se um dia excelente que se confirmou. De tal forma, que resolvemos celebrar com uma paragem no Vimieiro para uma foto.

Evoramonte

Prosseguimos para aquela que era a primeira paragem histórica da viagem: Evoramonte.

Pequena vila situada na encosta de um monte com uma vista magnífica para a extensa planície alentejana a quase toda a volta excepto para a Serra d’Ossa, a nordeste. Essa mesma vista que motivou certamente a construção da original fortaleza pois, no antigamente, dificilmente um qualquer exército invasor conseguiria passar despercebido a muitas dezenas de quilómetros.

Sendo um bastião bélico, é todavia célebre pois foi aqui que se celebrou, em 26 de Maio de 1834, a Convenção de Evoramonte que pôs fim à fratricida guerra civil (há quem diga que estas são as piores das guerras) entre Absolutistas partidários do Rei D. Miguel e os Liberais liderados pelo Regente D. Pedro IV em representação de sua filha D. Maria II.


Redondo e Alandroal

Continuámos viagem em direcção à segunda paragem histórica da jornada. No caminho, passámos ainda pelo Redondo e Alandroal. Sem visita mas ainda com a oportunidade de registar a curiosidade de nesta última vila, a torre sineira da igreja ter sido construida por cima da torre de menagem do castelo.

Juromenha

Atravessámos transversalmente todo o Alentejo e estávamos agora junto às margens do Guadiana. Mais largas do que era habitual antigamente, cortesia da albufeira do Alqueva que faz sentir o seu efeito ainda mais a jusante do ponto onde estávamos, junto à Sentinela do Guadiana: a fortaleza de Juromenha.

A imponência, a beleza da localização e amplitude das vistas rivalizam com o estado de degradação e de ruína em que se encontra. Testemunho claro da incúria a que devotamos a nossa História!

No seu interior, é possível ainda perceber a dimensão do edificado com destaque para a igreja com torre sineira e interior com o tecto suportado por colunas.

O recinto apresenta diversas zonas em risco de ruína eminente (quem é responsável pela fortaleza teve o cuidado de espalhar umas fitas para impedir o acesso às zonas piores…talvez se justificasse um esforço maior…na conservação).





Recordando que do outro lado do rio, é Espanha sendo Portugal, a vista que se tem é deslumbrante.

A Fortaleza de Juromenha deixou-nos marca profunda. Pela extraordinária riqueza de tão imponente estrutura e pelo avançado estado de degradação em que se encontra.

Mas era tempo de partir...


Olivença

Já estávamos perto do nosso objectivo: Olivença!  E a expectativa era grande. Será que afinal a presença portuguesa era assim tão forte?

Convém recordar que Olivença é, há quase 200 anos, reclamada por Portugal como fazendo parte integrante do nosso território. Esta vila é para alguns a mais portuguesa de Espanha e para outros a mais espanhola de Portugal.

A origem de Olivença remonta ao Séc XIII, aquando da reconquista cristã, no caso pelos Cavaleiros Templários ao serviço de Portugal. Teve foral de vila concedido por D. Dinis, na sequência do Tratado de Alcanices (1297) que definiu que aqueles territórios eram pertença da Coroa Portuguesa. D. Manuel confirmou o foral e promoveu o desenvolvimento da povoação: são dessa época a construção da Ponte da Ajuda ou da Igreja da Madalena (estilo manuelino) entre outros edificíos. Esta ponte viria a ser destruída já no Séc. XVIII, no decurso da Guerra da Sucessão em Espanha, obrigando a que as comunicações entre as portuguesas Elvas e Olivença se fizesse por território espanhol. 

No início do Séc.XIX e no contexto das Guerras Napoleónicas, a praça de Olivença é tomada por forças franco-espanholas, sendo Portugal obrigado a cedê-la a Espanha. Com o fim do poderio Napoleónico e a sua derrota militar na Europa, o Congresso de Viena de 1815, consagrou a legitimidade dos direitos de Portugal aquele território. Espanha assinou o Tratado, reconhecendo os direitos de Portugal... sem qualquer efeito até hoje.


A herança portuguesa é mais do que evidente. Quer na omnipresente calçada portuguesa, quer na toponímia da cidade (a maioria das suas ruas tem o seu nome actual, espanhol, mas por baixo sempre a anterior designação portuguesa) quer também na possibilidade que os nascidos e baptizados em Olivença têm de obter a cidadania portuguesa (sem custos!).



E talvez seja essa mesmo, a principal característica de Olivença, deixando de lado reivindicações territoriais. Ser uma terra com dupla nacionalidade, onde portugueses e espanhóis se sentem em casa (é verdade, sente-se!) e de onde pode emanar um espírito de sã convivência no espaço ibérico entre duas nações e dois povos que ao longo da sua História andaram de costas voltadas, quando não aos tropeções!

Duvido que os habitantes quisessem ser exclusivamente portugueses. Afinal, a gasolina até é muito mais barata, a electricidade e o gás também e o IVA anda nos 19%….  Mas não renegam a sua herança.

Pela nossa parte, afinal foi Olivença que nos conquistou!

A partir daqui, foi o regresso (com as motos devidamente atestadas… é curioso, meter gasolina espanhola, a preços de Espanha, em Portugal!) pois a viagem ainda era longa. Aguardava-nos a última paragem: o reabastecimento em Vendas Novas! A meca das bifanas (esta frase soou a estranho…).

Mais uma jornada concluída. 500km de paisagens, História, confraternização, amizade e espírito motard. Como deve ser…

A próxima? Quem sabe….mas uma coisa é certa: vamos ANDAR DE MOTO, com Viagens ao Virar da Esquina!


andardemoto.pt @ 25-2-2019 17:31:49 - Henrique Saraiva