Pedro "A”Ventura

Pedro "A”Ventura

Trabalha em Lx mas é Beirão e Off Rodista

OPINIÃO

ACT Portugal

Rapaziada aqui vai disto: o ACT é um percurso que atravessa Portugal de Bragança a Cacela Velha, no Algarve, por trilhos de off road. Não sei se já houve muitos Portugueses a fazê-lo, mas deslocam-se muitos estrangeiros a Portugal, exclusivamente, para fazer este trajecto de 5 etapas, com o total de 1250 Kms.

andardemoto.pt @ 14-4-2019 18:51:00 - Pedro "A”Ventura

A ideia de viver esta aventura foi do Rad Raven (quem havia de ser), e depressa se formou o nosso grupo de 11 gajos, quase todos membros do grupo CRF 1000L Africa Twin PT, pois 9 de nós temos Africa Twin.

No WhatsApp criou-se um grupo onde se trocaram milhares de mensagens a preparar esta viagem. Foi difícil marcar uma data em que todos estivessem de acordo, ficou decidido de 1 a 6 Março, para apanhar o carnaval.

Juntamente com a dificuldade que a viagem iria ter, o Rad Raven lançou um desafio adicional: usarmos motas pequenas 2.5 (para muitos a mota das meninas) para saber qual seria o seu comportamento nesta exigente aventura de off road.

Eu aceitei logo, pois sou inexperiente em off road e tenho tido dificuldades com a minha AT Bing Tank. Tinha adquirido há pouco tempo uma Honda crf 2.5 e a partir desse momento no fora de estrada, passei de momentos de tensão e sofrimento com a Africa Twin para verdadeira curtição com a crf 2.5. Isto passou-se também com alguns companheiros, tendo formado um grupo para “cabritar” aos domingos.

Cada um preparou a sua máquina como achou melhor (queixas de todos acerca do preço do equipamento). Eu meti um depósito maior com 12.5L para resolver o problema da autonomia. Alguns dias antes da partida tivemos uma reunião, onde o Elias (foi ele que marcou e definiu a rota que se utiliza e quem mais vezes fez o trajeto) nos deu todo o tipo de conselhos e cuidados a ter. O Diogo também ajudou nesta explicação. O meu muito obrigado por toda a ajuda que deram.

Assim, prontos para partir, 11 cidadãos, alguns velhas raposas do off road, outros com nível médio e os pixotes, onde eu me incluía com o meu “vasto” curriculum: cerca de 2000 km de fora de estrada, um Nosso Dakar 2019 e um Traveller Days 2018 (onde me iniciei) que não concluí devido a queda.

Rad Raven (líder), Armando lonia,  David”Klim”Valentim, Diogo”Lord”Mendonça, “KT”Elias,  Francisco “Salta Corrente”Pulawski, Manuel “Navegador” Costa Duarte, Paulo “Reboque”Murteira, João “Pequeno”Mata,  Carlos”Dor de Costas”Santos, e cá o rapaz Pedro “A”Ventura,  Honda crf 2.5- 4 unidades,  Kawasaki 2.5 – 1unidade, BMW GS – 1unidade, Teneré 1 unidade, Suzuky Dr -1 unidade, Africa Twin 3 Unidades.

Por motivos diversos não fomos todos juntos, de Lisboa fomos 6 elementos, Autoestrada até Coimbra e depois Nacionais até Bragança. De realçar o almoço, umas sandes de leitão no Bar 21 em Penacova (muito boas sandes, mas carotas) e o facto de termos sido sobrevoados por 2 caças F16 que devem ter escape akrapovic, pois mandam umas gazadas infernais, e deparámo-nos com o Rio Douro, o Rei destas paragens. Chegámos a Bragança sem problemas, eu tinha uma valente dor de cú, pois o banco da minha Honda crf 2,5, tem o conforto de um tabua de passar a ferro. Jantar na localidade Gimonde no restaurante Abel, posta mirandesa é a especialidade destas paragens.

2 de Março – Bragança -Torre Moncorvo cerca de 180 Km.

O primeiro dia a sério, fotos no Castelo de Bragança, e aí vai disso: no inicio do trilho estava o Jorge Casais, um companheiro do Porto, que veio fazer a 1ª etapa connosco, começa logo com uma subida de uma colina, para gajos de barba rija, deu para aquecer os motores e o corpinho, entramos no ritmo e foi sempre a bombar, muita colina para subir e descer e muita pedra solta, levei com uma dessas pedras no peito do pé esquerdo, e fiquei cheio de dores, (lembrei-me logo das botas de MX, que ficaram em casa), na Albufeira do Baixo Sabor, suei um bocado, quem tem vertigens (o meu caso), passa mal aqui, pois tem muita curva apertada e o precipício para a água fica logo ali.

Todo o grupo cumpriu, houve uma queda, sem problemas físicos ou mecânicos.

Jantar, bem regado e Porto Benfica na televisão.

3 de Março - Torre de Moncorvo - Vale do Rossim (Serra da Estrela), cerca de 255 km.

Para quem gosta de subidas e descidas esta etapa é o paraíso, muita pedra solta e de novo o encontro com o Majestoso Rio Douro e os seus socalcos, as amendoeiras em flor, paisagem sublime, precipícios assustadores, um gajo que falhe um curva aqui, a mota vai parar ao fundo de uma ravina ou ao Rio Douro e a alma vai directamente bater á porta do São Pedro ou do mafarrico.

Devido ao grupo ser grande ( 11 macacos), acontece que o grupo está constantemente a ser fracionado e o reagrupamento é difícil. Neste final de etapa acompanhava o Manuel “Navegador”, que vinha nos últimos vapores de gasolina, eu tinha gasolina suficiente para a trasfega mas não tínhamos a mangueira, estava com outro companheiro que se calhar já estava no hotel, mas lá chegámos ao hotel em Gouveia, já de noite mas sem problemas.


4 de Março - Vale do Rossim (Serra de Estrela) -Alamal, cerca de 235 km.

Neste dia tivemos a visita do famoso Luís “Moutain Rider” Carvalho que ia acompanhar-nos nesta etapa. E que etapa viria a ser, arrancámos e fazia um frio do caraças, eu que ando sempre com a viseira aberta, fechei-a, deixando uma fisguinha aberta para os óculos não embaciarem (os gajos que usam óculos sabem bem do que estou a falar, um verdadeiro martírio). Não sei quem foi a criatura que inventou os punhos aquecidos, mas se por um acto de magia o gajo ou gaja que os criou tivesse aparecido ali à saída de uma curva, eu parava a mota e dava-lhe um par de beijos e um xi coração, para agradecer, por essa maravilhosa invenção, só é pena serem tão grossos, um gajo parece que vai agarrado a um tronco de uma arvore.

A paisagem em plena Serra da Estrela é luxuriante, canais e ribeiras de água límpida por todo o lado e assim vamos indo, quando um dos camaradas tem uma queda muito grave. Felizmente o Criador estava atento e amparou-o ao cair ao solo, ficou bem dolorido mas não partiu nada, a mota teve danos muito significativos e a viagem terminou aqui para este companheiro.

Com este triste episódio gastou-se muito tempo e lá seguimos que o caminho era longo. Ali é só precipícios, eu com as minhas vertigens vinha sempre encostadinho do lado esquerdo. Até podia haver pedras e buracos que eu queria lá saber... para o lado direito é que eu não ia!

Na zona de Silvares fizemos o percurso das eólicas, são bastantes Kms em brita e aqui não pouparam, este trajeto tem uma barbaridade de brita, as rodas afundam, tive medo, ia à rasca, usei uma técnica que vi no youtube numa corrida na areia: chego-me para traz, sento-me no banco do pendura, fica assim a roda traseira com mais peso e tracção, e a roda da frente mais leve (vai flutuando) e lá me safei.

Devido ao atraso da manhã, a noite já caía e nós enfiados nos pinhais. Numa determinada zona surgiu um problema colectivo com o gps/track. O grupo ficou muito partido e eu fiquei com o Armando e o Manuel, não havia caminhos, tivemos de seguir pelo meio das árvores e perdemos o Manuel. Felizmente ali havia rede de telemóvel, conseguíamos falar com ele, mas não o encontrávamos, estávamos em colinas opostas e decidimos que o Armando iria voltar para trás, procurar o Manuel. Como a zona era muito lixada e difícil sem trilhos, deixou a sua africa twin e levou a minha crf 2,5, mais fácil de manobrar, felizmente voltou com o Manuel. Quando o vi, foi uma alegria imensa reencontrar o meu estimado amigo!

Nesta situação, para mim, ficou demostrada a importância de ter veteranos no grupo, nos momentos difíceis os mais dotados/preparados chegam-se à frente. 

Fomos os últimos a chegar ao hotel, todos rotos mas com um sorriso nos lábios, eu já com a mota estacionada não tinha espaço para desmontar pelo lado esquerdo, vou desmontar pelo lado direito, desequilibro-me e chão com ele. Fico com a perna direita debaixo da mota, o Armando e o Manuel lá me ajudam, as botas Sidi Aventure com a parte plástica articulada aguentaram parte do impacto e dou por bem empregue o dinheirão que me custaram. No entanto fiquei com o tornozelo muito inchado e vai de pôr gelo, pomada, anti-inflamatório, um jarro de vinho tinto ao jantar e cama.

5 de Março - Alamal-Moura, 285 Km.

Empurra, puxa e lá enfiei o pé inchado na bota. Siga, entrada no Alentejo, verdejante, lindo, sempre a rolar, com alguma chuva, alguma lama, percurso sem problemas. Na aldeia do Rosário encontrámos o companheiro Eduardo Codice, fomos visitar o seu atelier/oficina onde pudemos ver as obras de arte que faz nos capacetes dos melhores pilotos nacionais, estivemos no Café/Mercearia/Barbearia/Oficina de Motas e Bicicletas, neste estabelecimento, o Perdigão há de tudo, é ponto de apoio do Lés a Lés, detrás do balcão está uma senhora com 90 anos que tanto serve minis, como anzois para a pesca.

Gostei do Alqueva e foi sempre a bombar até Moura, onde na Taberna do Liberato comi a melhor refeição da viagem, diversos pratinhos de iguarias alentejanas com um tintol que metia respeito.

6 de Março - Moura – Cacela Velha, 245 Km.

Última etapa sempre rolante, passámos pelas Minas São Domingos onde parece que caiu uma bomba atómica. É só ruinas, o filme Mad Max, deve ter sido gravado aqui. Experimentei pela 1ª vez a famosa “nata” e não gostei, mas não caí. Entrada no Algarve com estradões que parecem autoestradas, sempre a rolar, nos últimos kms ía muito ansioso, com medo de cair, tinha-me tudo corrido bem e não queria estragar tudo agora. Chegámos a Cacela Velha envolvidos de alegria geral, abraços, fotos e um sensação boa de dever cumprido. Começámos 11, devido a uma queda grave, a problemas físicos e a compromissos profissionais, terminámos 8 “maduros”  e nem um furo tivemos.

Remate final...

Foi uma viagem formidável, onde o espirito de partilha esteve sempre presente. Organizada e capitaneada pelo Rad Raven, este cidadão ama este desporto e em minha opinião é o seu maior divulgador. Nesta viagem vi bem o esforço que fez para fazer os seus filmes: vai á frente, vem atrás, monta, desmonta, é maquinas, é drones, é baterias, sempre sem parar e à noite ainda tem que preparar o material todo para o dia seguinte. Para ele o meu respeito e muito obrigado.

O Paulo “Reboque” Murteira foi o mecânico de serviço que a todos acudiu sempre com um sorriso nos lábios. É um bom cidadão e o maior fã do Conan Osiris, pois passou a viagem a cantar a música do telemóvel. O Armando “PÓ”lonia”, o nosso fotógrafo e geralmente o meu salvador, pois sempre que caio este garboso companheiro está sempre por perto para me ajudar. Gosto de beber uns tintos com este gajo! O David “Klim”, o mais novo do grupo, tem uma GS, talvez a BMW melhor preparada em Portugal para off road, foi responsável pela marcação dos alojamentos. O Manuel “Navegador” Costa Duarte, bom companheiro, se tivesse vivido no tempo das descobertas marítimas estaria na Nau do Vasco da Gama e seria o homem do astrolábio. É um expert com o GPS e eu fiz a viagem toda atrás dele, tendo sido o meu farol nesta empreitada.

Fizemos esta aventura respeitando os locais, pessoas e animais. Não ficou um papel nos trilhos, não houve gazadas nas localidades e tratámos os habitantes com respeito e consideração.

Como éramos um grupo grande, os almoços nestas pequenas localidades onde não existem restaurantes acabam por ser feitos nas bombas de gasolina: amendoins, batatas fritas, caju e Chipicao que provei agora com 53 anos e confesso que gostei. O descanso noturno é outro problema. Como estivemos em quartos partilhados, o ressonar do parceiro incomoda muito: ora ressona um, ora ressona outro e como a malta vira uns valentes tintos ao jantar, a situação agrava-se. São noites muito mal dormidas e aqui ficam as minhas desculpas ao meu companheiro, João “Pequeno” Mata.


Termino com uma sugestão e duas críticas: sugiro ao Elias que na etapa da Serra da Estrela se vá até ao topo, à Torre, pois passamos lá tão perto e acho que seria interessante. 1ª crítica: no Alqueva nas suas comportas com uma vista maravilhosa, foi colocada uma frase em Inglês em letras metálicas enormes e porra, mil vezes porra, o Alentejo é terra de poetas, músicos, escultores, artesãos, escritores e houve alguém neste País que achou a língua Inglesa mais apropriada para este efeito. Por mim, quem tomou essa decisão devia ter vergonha.

2ª Crítica: já não era novidade para mim, mas pude constatar novamente que para as operadoras de telemóveis, Portugal é o litoral, as populações do interior que se lixem, pagam e se tiverem rede tudo fixe, se não tiverem, fixe na mesma... serviço deplorável!

Esta viagem, como teve muito kms de fora de estrada, serviu-me para ganhar mais “calo”, permitiu pôr em prática diversas técnicas que fui aprendendo, fiquei a conhecer bem a mota, ainda sou um inexperiente mas, porra, já virei uma data de frangos.

Fiz um total aproximado de 2150 kms, gastei cerca de 130 euros de gasolina, 150 em dormidas e a média por refeição foi de 15 euros.

Vamos ver como corre a próxima experiência em Oleiros com a minha intrépida e fiel Honda crf 2.5, talvez com muita lama e água pelo caminho.

Motociclismo é civismo, é partilha, é liberdade.

Um abraço para todos os motociclistas.

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