Fábio Figueiredo

Fábio Figueiredo

À procura de um caminho alternativo

OPINIÃO

De Tallinn, Estónia, até ao Cazaquistão - 2ª parte: Há dias assim.

Há dias assim. Apesar de estar ciente da viagem que ia fazer, era difícil prever o que me esperava. Tinha na ideia um dia normal: 200km desde Tallinn até Narva, na fronteira com a Rússia e depois mais 300km até chegar a Veliky Novgorod. Mantinha a média de 500km por dia que tenho feito nestas viagens, com tempo para uma visita a uma cidade pelo meio e chegava a horas de visitar a cidade onde ia dormir, como costumo fazer.

andardemoto.pt @ 7-10-2019 17:21:00 - Fábio Figueiredo


O dia começou como o primeiro dia de viagem deve começar: céu limpo, piso seco e apesar do frio controlado pela roupa quente e punhos aquecidos, o conforto de partir à descoberta. Há algo que acontece quando parto nestas viagens. Tenho partido de lugares com alguma história pessoal. Com cada quilómetro que passa, revisita-se essas vidas que se deixa para trás e começa uma vida nova, onde temos o poder de a escrever do nada.

A meio do caminho, algo fora do comum: tenho as mãos dormentes. Já ando de mota há alguns anos e nunca me tinha acontecido isto antes. Estava realmente nervoso. Seria a primeira fronteira “a sério” numa viagem (descobrira no dia antes) intercontinental que passava por dois países que funcionam de maneira muito diferente da Europa. Havia alguma razão para este nervosismo.

Pouco depois da fronteira (que depois da guerra das últimas semanas se passou sem grandes percalços), ao contratar o seguro da moto, deparo-me com o primeiro obstáculo que me iria acompanhar na próxima semana. Muito pouca gente fala inglês e as poucas palavras que sei de russo não me permitem comunicar de forma eficaz. Com certeza que Пожалуйста, Хорошо e Спасибо ajudam em muitas situações, mas são palavras pouco produtivas quando se procura informações específicas. Porém, com a ajuda do telemóvel, conseguimos entender-nos. Estava na Rússia!    


A diferença era palpável: Não sendo um perito em botânica, mal passei a fronteira vi duas espécies de planta diferentes. A construção das estradas também o era, bem como os modelos de automóveis e obviamente, a língua.

Fui brindado com inúmeros Lada e camiões Kamaz, bem como alguns resquícios da União Soviética. Na altura de abastecer, uma bomba nitidamente de tempos idos, ladeada por tanques de combustível ferrugentos. Para surpresa minha, tinha gasolina de 92 octanas (que parece ser a mais utilizada), 95 e também 98, algo raro por aqui. Atestado, apercebi-me do quão pouco progresso estava a fazer.


A estrada secundária estava mal mantida, e até perto de São Petersburgo tinha apanhado algum trânsito. Tenho tentado evitar conduzir à noite, ainda para o mais num país com um espólio videográfico sobre o tráfego automóvel que não abona a favor de uma imagem de observância exemplar das regras de segurança. Hoje seria altamente improvável conseguir cumprir com esse objectivo.

Em retrospectiva, andar numa estrada secundária pelo meio de floresta completamente abandonada por centenas de quilómetros a velocidades de acordo com os costumes locais, onde a vida selvagem abunda não foi das escolhas mais inteligentes que fiz, mas o hotel estava marcado e teria obrigatoriamente de lá dormir: foi lá que tive de fazer a reserva para poder obter o visto. Não tinha escolha. Não tirei mais fotografias e segui.

Consegui chegar a tempo de dormir. Amanhã o dia não prometia ser mais fácil.

andardemoto.pt @ 7-10-2019 17:21:00 - Fábio Figueiredo


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