Fábio Figueiredo

Fábio Figueiredo

À procura de um caminho alternativo

OPINIÃO

De Tallinn, Estónia, até ao Cazaquistão - 4ª parte: De Tver a Nizhny Novgorod

Ao contrário do previsto, os primeiros minutos do dia prometeram aguentar a chuva. A temperatura tinha aumentado para os 13 graus, dos 8 do dia anterior, mas foi sol de pouca dura. Em meia hora voltava aquele chuvisco chato que me perseguiria durante o resto do dia. Felizmente, já tendo isso em conta, tinha, para além dos dois pares de meias, calçado um par de sacos das compras, que, esperava eu, me iriam manter os pés secos e quentes. Rasguei as calças impermeáveis ao vestir. Provavelmente não iria precisar que estivessem em bom estado.

andardemoto.pt @ 7-10-2019 17:21:00 - Fábio Figueiredo


Hoje mantinha os 400km de meta, mas começava mais cedo, pensando eu que isso mitigaria o facto de o percurso não passar por uma auto-estrada. O que eu não sabia, era que “estrada nacional” aqui significa que a estrada está nas condições das nossas regionais. Este facto, aliado ao padrão de condução que tenho observado não criava as condições ideias para conduzir hoje, mas tinha de me fazer à estrada.

Pelo caminho encontrei aldeias com casas pitorescas, em madeira, com as janelas decoradas em talha. Não eram casas de gente rica, mas de gente que outrora fez um esforço para alimentar o olhar de quem por lá passasse. Engraçado como foi o mesmo povo que criou estas casas que contrastaram com o estilo brutalista, dominante em Tver. A chuva incessante só me permitiu fotografar com o telemóvel.

Duas horas depois, olho para o telemóvel e ainda só tinha feito um terço dos 400km que distavam de Tver até Yarsolavl. A chuva decidiu inutilizar as “meias” estanques que tinha engendrado durante a manhã e o dia estava a ficar mais complicado. As árvores, que passaram do verde, dominante na Estónia, com alguns tons de amarelo começavam a vestir-se mais e mais de amarelo, laranja e até vermelho, um sinal claro de que o inverno estava a caminho e que talvez tivesse sido demasiado optimista ao desejar partir tão tarde. Este pensamento vinha para ficar.

Pelo caminho, a chuva parou por uns momentos. Faço um desvio para visitar, já com o atraso que vinha de trás, a bela cidade de Uglich, onde almocei. A chuva regressa, volta tudo ao normal.


Horas depois, chego, esgotado, a Yaroslavl, já ao anoitecer. Janto no hotel. Não vejo a cidade que é património da UNESCO.

No dia seguinte, mais do mesmo. Chuva, a mesma paisagem de floresta de planície. Estradas em mau estado. Um teste à minha resiliência, que parecia ser cada vez mais difícil de passar. E ainda não tinha chegado à parte mais difícil. Com certeza as estradas só iriam piorar depois da fronteira. As cidades iriam ficar mais espaçadas e os quilómetros iriam ficar ainda mais longos. Sempre disse que nunca houve um dia em que me tivesse arrependido de ir andar de mota, mas estes dois últimos estiveram muito perto de o ser.

A roda da frente fugiu a certa altura. Não caí, mas este aviso mostrou-me o quão sérias podiam ser as consequências caso algo corresse mal. Numa zona pantanosa o auxílio seria difícil.

Continuei até Nizhny Novgorod. Chegada ao final da tarde. Hoje tinha de sair. Tinha de limpar estes pensamentos negativos.


andardemoto.pt @ 7-10-2019 17:21:00 - Fábio Figueiredo


Clique aqui para ver mais sobre: Opiniões