Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

E se Pitágoras andasse de moto?...

Imagine o caro leitor que em certa altura lhe era proposto, para atingir algo na sua vida profissional - uma promoção, um bónus, um incremento no estipêndio mensal ou simplesmente uma palmadinha nas costas por parte da chefia -  fazer um exame... E que esse exame seria de Matemática!

andardemoto.pt @ 5-2-2022 09:30:00 - Henrique Saraiva

Suponhamos também que os seus conhecimentos de Matemática se resumiam ao conceito tão matemático do “valor do zero à esquerda”. Ou seja... não pescava nada do assunto.


Nesta altura exclamaria: “JÁ FUI!!!”


Mas... há sempre um mas, era-lhe concedida a benesse de 20 aulas com professor dedicado para se preparar adequadamente para o exame. A coisa melhorava um pouco, é certo. Abria-se uma janela de esperança. Todavia, 20 lições de uma matéria que sustenta licenciaturas, mestrados e doutoramentos são uma gota de água no oceano! Mas como a esperança é a última a desaparecer, e dos fracos não reza a História, vamos a isso!


Na primeira aula, o professor esclarece que a tarefa é muito mais simples do que aparenta. O exame consta de 3 questões: a primeira sobre leis (da Matemática), a segunda um exercício prático (sobre o funcionamento da Matemática) e a terceira uma prova de destreza (na utilização da Matemática). Dito desta forma, simplifica mas não tranquiliza...


Mas quando o benemérito instrutor adiantou... ”e nós sabemos quais são as perguntas!”. O Sol voltou a brilhar...


Depois, completou a descrição. Teremos 4 aulas para a primeira questão sobre as leis da Matemática: saber o teorema de Pitágoras. 


E bastará estar com atenção, decorar e praticar a célebre quadra: 

“Já o dizia aos seus netos / O célebre Pitágoras de Siracusa / Que a soma do quadrado dos catetos / É igual ao quadrado da hipotenusa”.


Despachadas as leis da Matemática, nas seguintes 8 aulas, o atarefado leitor irá aprender a trabalhar com valores matemáticos e extrair o resultado prático das relações entre eles. Complicado? Parece, mas não é!


No final, tudo se resumirá a efectuar uma soma com 4 parcelas de valores.


Só faltam as últimas 8 aulas para treinar a destreza com os números! Um difícil exercício de equilíbrio e atenção. E como? 


O já quase matemático leitor terá na última questão que recitar, sem hesitações e num verdadeiro exercício de equilíbrio, a “tabuada dos oitos”!...  “oito vezes um dá oito, oito vezes dois dá dezasseis... e assim sucessivamente!”.


Chegados ao final, o orgulhoso leitor já esfrega as mãos de satisfação e antecipa a recompensa. Afinal, continua a não pescar nada de Matemática, mas cumpriu o exame que o habilita a um novo patamar da sua profissão, onde lhe será permitido ser encarado como um expert nessa matéria.


Em resumo, foi treinado para fazer um exame cujas respostas sabia de antemão e que, se aprovado como seria de esperar, o habilitam a fazer algo que na sua essência desconhece!


Esta caricatura deveria fazer-nos esboçar um sorriso de tão ridícula que é. Mas pensemos melhor se não estamos familiarizados com exames parecidos?


Daqueles em que basta decorar (colar com cuspo...) umas regras, perceber vagamente como se relacionam 4 parcelas, como sejam o travão, o acelerador, a embraiagem, a caixa de velocidades e, no final, como corolário dos corolários... “fazer uns oitos”! 


Depois, o feliz examinando é lançado à rua, devidamente habilitado a conduzir um veículo motorizado, sem fazer a mais pequena ideia como! Esta é a realidade, desde que tenho memória, da forma como se tiram as cartas de condução.


Nesta altura perguntarão os pacientes leitores “afinal, o que tem isto a ver com viagens?”. Tem tudo, como procurarei demonstrar e se tiverem a pachorra de continuar a ler...


Se o nosso amigo da primeira história até se pode gabar de “saber Matemática” que daí não virá grande mal ao mundo, já o nosso “condutor maçarico” corre, sem disso estar consciente, perigo de vida!


Viremo-nos agora para o polo oposto: pensemos nos nossos companheiros com dezenas ou centenas de milhares de quilómetros já feitos. Será que conseguiram com toda essa experiência colmatar as lacunas da tal formação deficiente? 


Falo por mim: até há algum tempo juraria a pés juntos que sim. Que essa experiência feita da observação de outros companheiros ou da correcção de erros próprios seria, com o passar do tempo e das distâncias, mais do que suficiente. Até ao ponto de me permitir aconselhar outros menos experientes. 


O que mudou então? Tive a oportunidade de fazer um curso de condução numa iniciativa do concessionário onde à época fazia a manutenção da minha moto. Mais por curiosidade do que convencido que iria aprender algo de significativo! 


Estava redondamente enganado... não só aprendi coisas que desconhecia e que me fizeram mudar significativamente a forma de conduzir, como recebi um banho de humildade. Afinal, sabia pouco e desse pouco, bastante estava incorrecto ou errado! Muita da minha “teoria” era, afinal, o resultado da sucessiva adaptação a formas de fazer menos correctas. O famoso desenrascanço!


A partir dessa altura que defendo que nós, motociclistas que enfrentamos no dia a dia um contexto hostil no qual somos geralmente o elo mais fraco, devemos procurar, para nosso bem, aprender, aprender, aprender. Quanto melhores condutores formos, quanto mais ferramentas de conhecimento tivermos na nossa posse, menores serão as probabilidades de algo negativo suceder. Seja porque conseguimos antecipar, seja porque conseguimos reagir da forma adequada. 


O objectivo global é sempre o de contribuir para a diminuição da sinistralidade rodoviária, até que o valor zero possa ser atingido (utópico é certo, mas não custa ser ambicioso). Individualmente, com a melhoria da nossa própria segurança, estaremos a dar esse contributo e simultaneamente a aumentar a felicidade com que desfrutamos da nossa paixão.


É por tudo isto que vos trago o exemplo das diferentes formações que já fiz desde essa primeira. Em todas elas aprendi! Logo, todas foram proveitosas. E se alguns conceitos se repetiram... só prova que estavam correctos e mais fortemente foram assimilados. 


Uma das primeiras noções que apendemos é a diferença entre Segurança Activa e Segurança Passiva. Concretizando, de forma muito simples:


Segurança activa consiste em todos os meios ou acções utilizados para impedir que um acidente possa ocorrer. Por exemplo, o sistema de ABS. Ou a utilização de colete reflector. Ou bons pneus e adequados ao uso que lhes queremos dar...


Segurança passiva engloba todos os meios ou acções disponíveis para minimizar os efeitos de um acidente. A utilização de capacete e roupa de protecção adequada (que se for reflectora será também elemento de segurança activa). Também os airbags, por exemplo.


Vou agrupar as formações de acordo com este critério: 3 delas tiveram particular importância na melhoria das minhas competências enquanto condutor - portanto diria que se englobam na vertente activa; Outra foi mais relevante ao adquirir conhecimentos que poderão ser fundamentais na presença de um acidente - a abordagem passiva. Finalmente a última, que melhorou de forma relevante os meus conhecimentos enquanto motociclista mas numa abordagem já complementar às anteriores.


- Formações com impacto na segurança activa -


1 - Escola de Pilotagem HONDA


A EPI situa-se no kartódromo de Palmela. O seu responsável, Nuno Barradas, é por demais conhecido da comunidade motociclística. Credenciado pela própria marca que também patrocina esta escola (à imagem do que faz em muitos outros países), é ele que assume o papel mais importante em toda a formação. Ministra diversos tipos de cursos mas o que aqui releva é o de condução defensiva, para um nível de condução acima do de aprendizagem para quem não sabe andar de moto (que tem curso especifíco). 

O curso, que foi o primeiro que fiz (tive mais tarde, noutra ocasião, a possibilidade de o repetir parcialmente), tem a duração de 4 horas e a especificidade única de na componente em sala (que representará cerca de hora e meia) disponibilizar um simulador de condução que permite replicar algumas situações que a serem feitas “em real” comportariam alguns riscos. Acreditem que vale a pena!

Já na parte prática os exercícios incidem (como aliás acontece nos restantes cursos deste grupo) sobre os 3 principais aspectos críticos da condução de uma moto: destreza a baixa velocidade, travagem e comportamento em curva. Afinal, andar em recta e por uma moto a trezentos... qualquer um faz. O problema é fazer a curva no final da recta ou pará-la em segurança!


Também aqui existe um equipamento único que se destina a aperfeiçoar a travagem e demonstrar a diferença entre ter ou não ABS: uma moto equipada com rodas adicionais (uma de cada lado) que evitam a queda mas permitem ter todas as sensações inerentes à perda de controlo nesta situação.


2 - Acções de sensibilização e aperfeiçoamento na condução de veículos de 2 rodas


Estes são os famosos “Cursos da GNR”. Efectivamente, são ministrados por militares da GNR - geralmente na Escola situada em Queluz mas também, ocasionalmente, noutros locais do território - e por eles já passaram mais de 1500 motociclistas. 


Com a particularidade de serem gratuítos - a lista de espera é enorme - começaram em 2017. Sofreram depois um interregno em meados de 2019 que se prolongou até há pouco tempo, devido à pandemia. Em boa hora regressaram. A equipa de instrutores é actualmente liderada pelo Capitão António Maio, conhecido piloto de todo o terreno e com provas dadas: múltiplo campeão nacional, recordista de vitórias na Baja de Portalegre e participante do Dakar. 

Cumpre referir que estes cursos não fazem parte das atribuições normais dos militares neles envolvidos. Fazem-no de forma voluntária e nas suas folgas. Com muito entusiasmo, dedicação e toda a disponibilidade e simpatia para os formandos.

O curso é dado em meio dia (um bocadinho alargado) e tem duas componentes. A primeira, em auditório, com uma forte mensagem sobre segurança rodoviária com inúmeros exemplos e conselhos sobre o comportamento adequado em cima da moto e na condução na via pública.


A segunda parte, na parada da Escola, é composta por 4 tipos de exercício que visam aperfeiçoar o domínio da moto em situações de velocidade reduzida, as técnicas de travagem seja de emergência, em curva ou face a obstáculos e finalmente as técnicas de abordagem às curvas e como as fazer em segurança. 



3 - Academia de condução moto - ACM


Apesar desta Academia - a popular ACM - ser relativamente recente (pouco mais de 1 ano) tem tido assinalável sucesso e são já muitos os motociclistas que passaram por cada um dos 2 módulos do curso ou, o que acontece geralmente, completaram ambos. Pormenor não despiciendo: conheço vários casos de repetição! Não porque tenham “chumbado” anteriormente, até porque não há nenhum exame. Mas porque sentem a necessidade de aperfeiçoarem cada vez mais a sua condução.

O sucesso tem sido tal que suspeito que em breve a maioria dos motociclistas se dividirão em 2 grupos: os que “já foram ao ACM” ... e os que “estão à espera de ir!”. E obviamente, sempre existirão aqueles que julgam não precisar de formação...

Convém salientar que a equipa liderada pelo Domingos Simões é altamente experiente. O Domingos tem cerca de 30 anos de experiência a formar motociclistas e a sua equipa segue-lhe as pisadas.


O módulo 1 é realizado em recinto fechado, dura 1 dia inteiro e na sua essência a metodologia desta parte do curso não difere muito da dos anteriormente referidos: um conjunto de exercícios em que o treino de destreza é dado com recurso a pinos que delimitam não só o espaço de cada exercício como também o desenvolvimento do mesmo. Depois, é questão de aproveitarmos bem o tempo disponível e maximizarmos aquele que investimos em cada exercício. Essa é uma das vantagens deste curso: não há pressas e tudo é feito com calma o que se reflecte positivamente na aprendizagem. O ambiente informal - o “tu” é obrigatório - contribui e muito para o ambiente distendido e o à vontade que ajuda a minorar alguma ansiedade que sempre sentimos antes de começarmos os exercícios.  


O curso começa por uma refexão sobre o tema da sinistralidade e como evitá-la e algumas noções básicas sobre como nos relacionamos com a moto: a forma como a paramos, como a movemos com o motor desligado, etc. Finalmente, um aspecto que cada vez mais acho importante e que pessoalmente tenho vindo a corrigir: a postura em cima da moto. Quando começamos a ter a noção de qual a postura mais correcta, começamos também a perceber que a esmagadora maioria de nós não o faz. Achamos que sim... mas não. Falei em desenrascanço lá atrás, não falei?


Finalmente, terminamos com uma lição teórico-prática sobre tratamento e manutenção da moto: como levantá-la do chão, como reparar um furo, como olear a corrente...  A terminar, uma demonstração sobre a utilização de airbags.


O módulo 2 tem a mesma duração mas com a diferença que a parte prática é feita em estrada aberta. Vamos mesmo aprender a conduzir!


Começamos por realçar algo já falado anteriormente. O posicionamento em cima da moto (acreditem que é muito diferente se conduzimos uma moto “R”, uma turística ou uma trail). E a correcção deste pormenor tem consequências relevantes na qualidade da condução, no conforto, na menor fadiga e, como tal, em segurança acrescida.


Depois, precisamos de saber o que fazer com essa nova postura melhorada. Primeiro, uma explicação teórica sobre as trajetórias de segurança que devem ser seguidas quer na curva à direita quer na curva à esquerda. Um aspecto em particular merece a nossa atenção: nas curvas à esquerda tendemos a aproximarmo-nos demasiado do eixo da via. Com a inclinação natural em curva, a parte superior do nosso corpo e esse lado da moto ficam expostos a algum veículo que venha em sentido contrário. Um erro que muitos cometemos!


De seguida, uma abordagem teórica sobre a forma de executarmos uma curva. Desde logo percebermos que a podemos dividir em 4 partes (com acções específicas para cada uma delas) sendo que o objectivo é conseguirmos maximizar a nossa visibilidade do interior e da saída da curva, para que a mesma seja feita com a máxima segurança: são as zonas de Entrada, Descoberta, Solicitação e Estabilidade.

Obviamente que a seguir vem a execução: vamos para a estrada treinar, treinar, treinar. Com os nossos formadores sempre atentos para que em nenhum momento seja descurada a segurança. Afinal, estamos numa via de circulação aberta. 

Um último ponto a destacar: os almoços em conjunto são momentos de convívio e camaradagem que bem complementam toda a formação e acentuam a ligação entre todos.

Acreditem. Valeu a pena. E esta verdade é válida para os restantes cursos. Qualquer que seja o custo, será inferior ao que nos custa, por exemplo, a reparação da moto depois de uma queda... daquelas meio-parvas que sempre acontecem. Imaginem quando nos aleijamos....

- Formação com impacto na segurança activa -

A formação em primeiros socorros é daquelas que provavelmente será mais útil aos outros que a nós próprios. Mas também é verdade que apesar do curso que fiz ter uma componente vocacionada para acidentes com motociclos, tudo o que aprendi poderá, em caso de necessidade, ser aplicado no dia a dia com os nossos familiares ou amigos ou na rua com alguém que não conhecemos mas possa precisar da nossa ajuda.

Foi há dois anos que vi algures um anúncio a um curso de primeiros socorros com suporte básico de vida e adaptado à “cinemática dos traumas em motociclos”. Se há muito que queria fazer um curso deste tipo, encontrar um com estas características foi juntar o útil... ao também útil!

O curso foi ministrado na Protectcare, empresa especializada em várias áreas de formação nomeadamente as que têm a ver com segurança e protecção. Fica na Cova da Piedade e, segundo vi no respectivo site, actualmente não disponibiliza cursos com estas características específicas na sua programação normal, o que não significa que se as solicitações forem em número suficiente, não possam retomá-los.

Ao longo de um dia, aprendemos as técnicas utilizadas nos primeiros socorros a prestar a vítimas nas diferentes situações de queimaduras ou traumas. Também particular realce aos procedimentos em Suporte Básico de Vida e ainda, no final, á forma como podemos prestar assistência a uma vítima de acidente com motociclo tendo em consideração a dinâmica específica e as lesões que normalmente ocorrem.


Também o conhecimento da forma como actua o sistema Integrado de Emergência Médica é importante para percebermos como devemos actuar por forma a que o socorro chegue o mais rapidamente possível e dotado das indicações necessárias para que a sua actuação seja a mais eficaz.


Na maioria destas situações, são vidas que estão em jogo. Se não podemos fazer nada para evitar então que possamos contribuir para minimizar os efeitos. Por isso, e pelo que atrás referi, este é um curso que todos deveríamos fazer. E, como felizmente no meu caso, depois esperar nunca o utilizar!


- Formação complementar -


O exemplo que vou referir enquadra-se no mesmo objectivo dos anteriores - contribuir para maior segurança na condução e redução da sinistralidade - apenas na medida em que quanto maiores forem as nossas competências na utilização de uma moto nas diferentes situações, melhor estaremos habilitados a conseguir evitar acidentes e outras situações imprevistas.


Assim, tive a oportunidade recentemente de efectuar um curso básico de condução em offroad com motos de aventura (trails). Precisamente o tipo de moto que possuo.


Neste caso, o curso desenrolou-se em Espanha, na região de Gaudalajara, e foi dada pelos instrutores da escola de condução offroad Personal Enduro. São eles Fabio e Rodolfo Martinez que criaram esta escola em 2012 para ministrarem cursos de moto offroad: enduro, trail, motocross, etc.



Ao longo de dois dias foram-nos dados os primeiros conceitos técnicos sobre como conduzir fora de estrada: desde a postura específica desta prática, a forma de enfrentar os diferentes obstáculos e condições de terreno as mais diversas, o equipamento adequado - nosso e da moto - e outras situações que podemos encontrar pela frente neste tipo de terrenos.


Uma noção fundamental nos foi transmitida e que, no fundo deverá ser uma lição para a nossa vida de motociclistas: andar de moto é divertido - em offroad então, a diversão é máxima - e todos o sabemos. 


Mas é preciso ter consciência que à medida que procuramos patamares mais elevados de diversão, em que a adrenalina aumenta, também estamos a incrementar os níveis de risco. E isso poderá, de um momento para o outro, colocar em causa toda a nossa diversão e até, a daqueles que nesse momento estão connosco. Ou seja, o ideal é manter os níveis de diversão a 65 ou 70% do seu potencial máximo... e com isso garantir que ao final do dia, todos regressam a casa com boa saúde e, acima de tudo, divertidos e com o espírito em alta.


Achei por bem incluir esta formação no rol porque senti que tinha aprendido imenso e que os novos conhecimentos são úteis, não só no seu terreno de eleição, como na forma como passei a utilizar e conhecer a minha moto. Por isso recomendo que, se puderem, saiam da vossa zona de conforto e experimentem. No meu caso foi em Espanha, porque a oportunidade assim se proporcionou, mas há no nosso país bastante oferta a este nível.


- Conclusão -


Comecei esta crónica com uma historieta ridícula. Tão ridícula que não foi preciso ir muito longe para encontrar um exemplo que nos é familiar.


Por toda a experiência acumulada ao longo de cerca de 30 anos a ANDAR DE MOTO, tinha a presunção de saber conduzir estes veículos. Percebi rapidamente que não quando frequentei o primeiro curso. 


E se hoje, com mais experiência e com mais competências adquiridas, posso dizer que graças a estes cursos sou melhor condutor... talvez o melhor seja citar o que na Filosofia se chama de “Paradoxo Socrático” e que consta das narrativas de Platão sobre o filósofo Sócrates: “Só sei que nada sei!”. E desta forma, continuar a aprender.


Para terminar meio a brincar tal como no início, adaptemos a quadra que então citei. Afinal, será que o tal Pitágoras de Siracusa que viveu na Grécia antiga (cerca de 500 anos antes de Cristo) andaria de moto no seu tempo... se já as houvesse? Certamente, e até seria membro do Motoclube de Siracusa... 


“Já dizia aos seus netos, com confiança

O célebre Pitágoras de Siracusa 

Que o fundamental é andar com segurança

Tanto dá ser numa PCX como numa Hayabusa”


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3 perguntas a Domingos Simões


Domingos Simões

Domingos Simões

Como complemento desta crónica, julgo ser interessante conhecermos as opiniões de quem está do outro lado da formação. Domingos Simões, o líder da Academia de Condução Moto - ACM respondeu a três questões que lhe coloquei.


HS - O sucesso da ACM será reflexo de uma maior consciência das insuficiências do ensino da condução e também da sensibilidade à necessidade de haver mais prevenção?


DS - É verdade que os motociclistas mais conscienciosos, com mais experiência de vida, procuram corrigir alguns erros já adquiridos. 


Por outro lado, verificamos que ocorrem mais acidentes devido à negligência do motociclista, por excesso de confiança, devido a obstáculos na via, ao fato das nossas vias não estarem em boas condições de circulação e na minha opinião, também pelo facto de haver muita falta de respeito e de civismo pelo outro. As escolas de condução para além de prepararem o aluno, em termos de regras de trânsito, por exemplo, também deveriam "trabalhar" o aluno em termos de civismo e respeito pelo outro ao conduzirem estes veículos. 


A ACM procura apelar e ir ao encontro de toda a comunidade e amantes do motociclismo, apesar de nem todos estarem mentalmente preparados para a mudança, para a aquisição de novas condutas, de novos saberes e conhecimentos. Pretendemos atingir o nosso objectivo:  "a sinistralidade ZERO"!


Temos consciência de que todas as instituições públicas, privadas, enfim, a sociedade em geral, têm o dever de trabalhar em conjunto em prol da vida humana. É no ensino, qualquer que seja, que temos o dever e a obrigação de partilhar os nossos saberes e conhecimentos de modo a que possamos  evoluir como cidadãos responsáveis e podermos contribuir para a  construção de uma sociedade mais desenvolvida.


HS -  De todas as reacções que já tiveste de motociclistas que fizeram o curso da ACM, queres destacar algumas?


DS - Todos somos diferentes! As dificuldades são comuns a todos, pode aparecer um ou outro motociclista que demonstra mais competências do que outros... No entanto, as dificuldades estão lá todas. E há sempre alguma coisa que aprendemos. Quando vamos para uma formação temos que ir de mente aberta, despidos de saberes. E só no fim da formação é que podemos concluir se aprendemos alguma coisa, se a formação fez ou não sentido, se aquilo que adquirimos nos vai ser útil no nosso dia a dia de motociclista...


O que me dá mais alegria é ver alguém que tem muitos quilómetros de moto e dizer que efetivamente aprendeu muito num dia na formação com a ACM. Isso sim é o nosso doping, para podermos continuar a acreditar e a sentir. As pessoas voltam para repetir, isso sim é gratificante. Sabermos que nunca é demais continuar a dar aos outros aquilo que precisam, que acreditam e que podem contar connosco para se valorizarem, a aprenderem e a aplicarem os nossos saberes e conhecimentos. Isto sim é evoluirmos, uns com os outros! Isto sim é estarmos unidos em prol do maior bem que podemos ter, que é a Vida, de cada um de nós.


E chega de aceitar os números, os quais nos envergonham: morrem mais de 500 pessoas por ano em sinistros rodoviários! É tempo de fazermos alguma coisa para deixar que isso aconteça. A ACM pretende ter um papel ativo na sociedade, não só ao nível dos motociclistas, mas apelar à prevenção, à cidadania. A ACM acredita,  que é  possível reverter o número elevado de sinistralidade.


HS - Queres enviar uma mensagem aos motociclistas?


DS - Gostaria de deixar um apelo e algumas palavras para que todos possam refletir.  Depende de nós, não se mudam mentalidades, eu sei... mas todos temos que mudar as nossas atitudes e comportamentos. Isso é fundamental para crescermos e evoluirmos! Todos os que amam as motas, como nós, têm que ser diferentes! Quando estamos a conduzir a nossa mota temos que pensar em todos os perigos que espreitam a cada esquina. Não nos podemos esquecer da importância dos equipamentos de proteção. Estes são fundamentais para que possamos evitar danos irreversíveis. Danos que poderemos evitar com um bom casaco, um bom capacete, luvas ou mesmo umas botas adequadas...

Apelo à  responsabilidade de cada um, à ética, ao civismo. Temos e queremos ser melhores. Um exemplo para o outro. O sermos diferentes, não chega só dizermos que somos diferentes! Temos realmente mostrar a diferença, o altruísmo que cada um de nós tem, como pessoa e como motociclista. Sermos um exemplo a seguir por todos. 

Aos nossos jovens, apelo às suas qualidades. Que usem, a irreverência, a força, a audácia, a rebeldia, em prol dos outros, da "educação motociclista". O respeito pelo outro, que tal como nós motociclistas, andam na estrada. Não queiram viver tudo de uma vez! A Vida, vive-se saboreando os pequenos prazeres que ela nos dá. O saber andar de mota, apreciar a liberdade que ela nos transmite, permite-nos ser os verdadeiros MOTOCICLISTAS.


Nunca nos devemos esquecer que... 

" O motociclista aprende com os erros dos outros, o motoqueiro aprende com os seus próprios erros..."


Muito obrigado, Domingos Simões, pelo testemunho!


Dezembro 2021

andardemoto.pt @ 5-2-2022 09:30:00 - Henrique Saraiva


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