A Zundapp do meu avô

Já há muito tempo que pensava em restaurar a motorizada que o meu avô usou durante muitos anos: uma Zundapp EFS GT Super de inícios da década de 80.

andardemoto.pt @ 16-2-2016 15:36:16

Esta história é sobre uma Zundapp EFS GT Super de inícios da década de 80, que o meu avô adquiriu usada a um conhecido que então a queria trocar.

A escolha, na altura, pendia entre esta nossa Zundapp e uma Florett, um dilema que se mantém até hoje… - “se tivesse comprado a Florett…

Mas esta pequena moto serviu para tudo, e foi bastante usada pelo meu avô até há poucos anos: idas à cidade, transportar cargas para os campos agrícolas, idas ao café, ou às festas de aldeia… a bela Zundapp servia para tudo.

Apesar do espírito jovem a idade não perdoa e, para o meu avô, as entradas e saídas da moto já não eram tão fáceis como antes. E o problema foi facilmente ultrapassado com a aquisição de uma scooter.
                           
O meu avô rendeu-se rapidamente às vantagens da sua nova companheira, principalmente ao espaço debaixo do assento - sempre atafulhado com coisas. Ao fim de pouco tempo até já a levava não só por estradões de terra, mas também para dentro dos campos agrícolas!

Bem lá no fundo, espero ter a sorte de, quando tiver a idade do meu avô, também ainda poder continuar a andar de moto.

Acontece que desde o momento que ele passou a usar a scooter, a Zundapp ficou esquecida num barracão. Ao longo dos 5 anos que ficou arrumada nunca foi cuidada e estava a deteriorar-se rapidamente. Durante todo esse tempo sempre tive vontade de a restaurar, mas só agora é que foi de vez.

Não sei ao certo qual foi o dia em que decidi que iria realmente restaurá-la. Sabia era que a partir do momento em que fizesse alguma mudança relevante já não voltaria atrás, que mais cedo ou mais tarde haveria de terminar o restauro. Afinal o importante era mesmo evitar que esta bela motorizada continuasse a degradar-se, arrumada a um canto.

Talvez uma das coisas que me motivou e deu vontade de querer revalorizar esta velha moto, foi o facto de ver os meus avós a envelhecer. Todos os momentos e recordações ficam sempre na nossa memória, mas é gratificante ter algo físico a que nos segurar, algo  que fique para o futuro.

Tenho muitas recordações e muitos risos guardados, por isso esta velha moto é mesmo um álbum de recordações com duas rodas.

Após o comunicado geral à família de que ia “arranjar a moto do avô”, lá fui buscá-la ao barracão. Depois de uma breve limpeza ao carburador e de meter gasolina nova no depósito, a Zundapp arrancou logo à segunda tentativa!

Eu nem queria acreditar! Basta deixar a minha actual moto uns dias sem a ligar e por vezes nem à segunda vez ela arranca... 

O que é certo é que após verem a Zundapp a trabalhar, surgiu logo o entusiasmo geral da família e desapareceram os comentários gozões do tipo: “és maluco; isso já nem arranca; não há nada a fazer”.


O som do pequeno motor reavivou-me a memória….
                           
Durante o tempo que andei na escola primária, da nossa aldeia, era sempre o meu avô que me ia buscar, precisamente nesta motorizada. De dentro da sala eu conseguia ouvir o inconfundível som do motor a 2T e sabia precisamente se era ela ou qualquer outra motorizada.

Lembro-me perfeitamente do meu avô a tentar ensinar-me a conduzi-la. As primeiras vezes que consegui andar durante um bocado, sozinho, causaram-me uma sensação indescritível….

E pronto…. foi nessa altura que me pegou, logo e de vez, o “bichinho das motos”!

Anos mais tarde, quando eu já usava esta mesma motorizada, o estridente som do 2T só era demasiado inconveniente quando chegava tarde a casa no regresso de alguma festa.

Foi também nesta pequena moto que dei o primeiro pequeno trambolhão, a primeira vez que fiquei apeado…!

Na minha mente esta tarefa simples resumia-se apenas a: desmontar, limpar, pintar e voltar a montar! Mas rapidamente esta descomplicada tarefa se transformou num trabalho hercúleo.

A minha ignorância, típica de um inexperiente nestas situações, não previa a quantidade de trabalho nem as peripécias que se avizinhavam.

Com poucos conhecimentos de mecânica e apenas com algumas dicas do meu pai, comecei por desmontar peça por peça, catalogando tudo e tirando fotografias à medida que avançava. 
                          
Ao fim de pouco tempo apercebi-me que muitos parafusos, cabos, fios e outras peças necessitavam de reparação, ou mesmo de serem substituídas.

O que inicialmente era um restauro simples e rápido, tornou-se num restauro completo e moroso. Também percebi rapidamente que à minha volta, moldados pelo entusiasmo, já toda a família ajudava de uma forma ou outra.

A Zundapp sempre foi muito estimada e cuidada, mas limpezas não eram o forte do meu avô…! Acho que muita da terra entranhada no quadro devia datar ainda de 1980 e qualquer coisa!

Tapada com tanta terra e óleo ressequidos,  havia porções de tinta que pareciam nunca terem visto a luz do dia. 

Questionei-me várias vezes se alguma vez teria sido realmente bem lavada. Não lhe perguntei sequer, com receio de ficar assombrado com a resposta!

Terminada a limpeza, seguiu-se a remoção da pintura. Não usei produtos decapantes, antes lixei toda a tinta até ao metal. Muitas zonas eram inacessíveis à máquina pelo que tiveram de ser lixadas à mão.

Quais idas ao ginásio? Lixar e polir metal manualmente é que é um bom exercício para os braços!

Nos guarda-lamas, apesar de ter sido mais fácil remover a tinta, foram necessários outros trabalhos extra. Após algumas dicas lá ficaram alisadas as mossas e polidas e preenchidas as fendas provocadas pela ferrugem.

Apesar de nunca o ter feito antes, acho que o resultado ficou bem aceitável. Diria que até que nem ficou nada mal!


Depois veio a pintura. Sabia que ficaria muito melhor se enviasse para algum profissional para que a pintasse, mas a realidade é que queria ser eu a fazê-lo.

Arranjar esta moto é como que criar mais uma recordação, sai-me do coração. Daí querer tentar fazer a maior quantidade de tarefas que me fosse possível, já que ao nível da mecânica do motor e travões teria de deixar isso para alguém com conhecimento de verdade.

Assim apliquei várias camadas de primário anti ferrugem, que foram seguidas da pintura preta e de verniz protector.

Todos os frisos cromados estavam demasiado desgastados e ferrugentos, e após tanto trabalho inicial, e antecipando o resultado final, não podia voltar a colocá-los.

Antes de prosseguir com o restauro levei o motor para uma vistoria completa. Infelizmente, apesar de funcionar, tinha alguns problemas: danos no cilindro, a tampa lateral esquerda do motor continha uma pequena fenda...

A suspensão da frente também foi revista e restaurada no mesmo local. Embora estivesse em boas condições queria ter a certeza que estava perfeitamente apta para a condução!

O circuito eléctrico também estava completamente destruído e poucos componentes puderam ser aproveitados.

De momento o motor já está reparado e praticamente completa a sua montagem. As próximas tarefas serão montar suspensões traseiras novas, colocar os frisos e trocar a capa do banco.

Mas ainda falta encontrar algumas peças para substituir as antigas, e reparar outras tantas.

Como muitas vezes acontece, mesmo aos mais experientes e entendidos na matéria, e tal como eu temia…. Há peças desaparecidas! Algumas, teimosa e relutantemente, insistem em não aparecer! 

Agora estou bem mais ciente da dimensão deste grande projecto, mas ainda assim continuo com imensa vontade de o acabar e de voltar a montar a velha Zundapp sem que sobrem ou faltem peças, apesar de saber que não vai ser nada fácil!

Gostava de poder dedicar mais tempo a este restauro e acabar o quanto antes. Uma boa previsão seria acabar antes do fim do próximo verão, para poder conduzi-la ainda durante os dias longos e quentes junto à praia.

Quando se anda de moto, uma simples ida ao café na praia facilmente se transforma numa tarde sobre o alcatrão, quando, por exemplo um passeio de Domingo nos leva até à bela vila de Sintra, seguindo-se o Cabo da Roca, antes do regresso a casa após mais de 300 km.

(n.d.r.)

Diogo Prisco é um jovem de 21 anos, residente na zona das Caldas da Rainha, fanático por motos e leitor assíduo do www.andardemoto.pt. Estudante de Ciências Farmacêuticas, o Diogo conduz motos desde muito novo e actualmente tem uma MotoHispania Mh7 125 em que já rolou mais de 30.000km.

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