Road Trip Honda CB 500 - A caminho do Wheels and Waves
A convite da Honda Portugal, fomos visitar o festival Wheels and Waves, em Biarritz. Como cereja no topo do bolo, fomos de moto, com a família CB 500. Uma viagem inesquecível!
andardemoto.pt @ 20-7-2022 12:04:54 - Texto: Pedro Alpiarça
A ideia era relativamente simples. Juntarmo-nos a um grupo de jornalistas espanhóis e, tendo ao dispor três motos diferentes da mesma família, arrancarmos de Saragoça em direcção a Biarritz, atravessando a província de Aragão e cruzando os Pirineus pelo País Basco, em direcção ao festival à beira-mar plantado.
Seriam cerca de dois dias e meio de viagem, com paragens meticulosamente escolhidas pelo seu interesse cénico e cultural. Com todo o entusiasmo possível, fomos andar de moto!
As Motos
Renovados em 2022, os três modelos em questão fazem parte da história recente da Honda e são um verdadeiro caso de sucesso. Desde 2013, as CB 500 F, CB 500 R e CB 500 X já venderam mais de 106.000 unidades, só na Europa. A sua acessibilidade para os recém-encartados (estes modelos estão no limite de potência disponível para os titulares de carta A2) funde-se com a facilidade de utilização, que atrai aqueles que regressam ou se iniciam no mundo das duas rodas.
Partilhando a mesma plataforma motriz, fazem jus ao lema “um motor para várias plataformas”, e o bicilíndrico paralelo de 471 cc (debitando 48cv @ 8600 rpm e 43 Nm @ 6500 rpm) de refrigeração por líquido continua a brilhar pelo seu carácter redondo e disponível, sendo que nesta última versão já está homologado em conformidade com a norma Euro 5.
Para 2022, a programação do sistema de injecção PGM-FI foi revista, melhorando a entrega de binário sem perder o seu carácter tão específico.
Na ciclística, as grandes novidades são a forquilha invertida Showa SFF BP de 41 mm de diâmetro, com funções separadas (numa jarra temos o amortecedor hidráulico e noutra temos a mola) e a travagem está agora a cargo de discos flutuantes em ambos os eixos, com duplo disco de 296 mm na roda dianteira e mordidos por pinças radiais Nissin.
As jantes de liga de 17” com braços em Y estão agora mais leves (nos modelos F e R) e a jante raiada de 19” da X também foi revista em termos de peso (graças ao redimensionamento dos raios). O braço oscilante está também mais leve e tem maior resistência à torção. A iluminação é agora full LED nos três modelos.
Ao longo destes dias pudemos comprovar a eficácia destas alterações e como cada modelo demonstrou as suas reais capacidades nos diferentes contextos.
O Evento
O Wheels and Waves nasceu em 2009 sob a teimosia de 6 amigos unidos pela paixão de customizar máquinas repletas de personalidade. A ideia era partilhar experiências e promover o convívio de outros apaixonados pela arte, com o foco central num passeio pela zona costeira, onde o surf também marca uma icónica presença.
Passados 13 anos, e depois de um interregno de dois devido à pandemia, em 2022 regressaram as subidas de Punks Peak (uma sprint race de 400 m onde os participantes põem à prova as suas criações, numa colina recortada com vista para o mar, na cidade espanhola de Hondarribia).
Regressaram também as provas em circuito de dirt-track, o El Rolo e o Vintage Rally, com motos de enduro anteriores a 1995, ambas no Bud Racing Training Camp, em Magescq, França.
Já na cidade de Biarritz, mesmo em frente à praia de Milady, a vila do festival é o epicentro de toda acção. Nas variadas tendas encontramos um pouco de tudo, desde preparadores a marcas oficiais (a Honda Europa apresentou as finalistas do concurso de customização das Rebel 500, pode ler tudo aqui), venda de peças usadas, palcos com concertos ao vivo, roulotes de comida e até um poço da morte!
Animando a praia, um concurso de surf dedicado às enormes pranchas de longboard e outro onde os shapers podem testar as suas criações, tudo isto numa atmosfera onde o estilo é mais importante do que a performance.
Dia 1 (Saragoça - Mosteiro de Leyre, Yesa)
O dia começou com o levantamento das motos no stand da Honda Mobicsa, no centro de Saragoça. Com o azimute apontado a Nordeste, a caminho da zona serrana dos Pirineus Aragoneses, passando por pontos de interesse históricos e até mesmo geológicos, algumas estradas apresentavam o desleixo típico de uma região mais esquecida, estávamos a entrar numa das zonas com menor densidade populacional de toda a Espanha.
O primeiro grande impacto visual aconteceu perto da cidade de Ayerbe (o centro nevrálgico do chamado Reino de los Mallos), em pleno Caminho de Santiago Aragonês. As formações rochosas de Mallos de los Riglos surgem imponentes na falésia, de cor avermelhada pela mistura de ferro e argila na sua composição.
Com os seus mais de 250 metros de altura são um paraíso para os fãs de escalada e habitat natural das aves de rapina. A passagem pela barragem de La Peña faz-se por uma pitoresca ponte de ferro, fazendo lembrar algumas que cruzam o nosso Tejo, e aqui demos início a um troço de estrada bem conhecido pelos locais, a A-1205 em direcção a Jaca.
O almoço foi no restaurante do Moto Camping Anzánigo, onde todos os motociclistas são bem-vindos. Toda a decoração é alusiva ao mundo das duas rodas e o serviço é de excelência, com cozinha de fusão, onde a tradição está presente, mas com um toque de modernidade trabalhado pelo Chef residente.
O calor apertava e flectíamos agora para Norte, subindo em direcção à zona dos mosteiros, com destaque para o de San Juan de La Peña, associado ao berço do Reino de Aragão. Debaixo de uma enorme pedra, a sua milenar construção sobrevive e esconde nos seus claustros segredos de nobres e plebeus, padres e conselheiros, Reis e Rainhas, tendo os vales verdejantes dos Pirineus como sua testemunha.
Por esta altura, as estradas tornavam-se menos serpenteantes e aparecia ao nosso lado a enorme barragem de Yesa, alimentada pelo Rio Aragon. As cores douradas do fim do dia davam um semblante mágico a pequenas povoações como Santa Cruz de La Seros, onde o casario de pedra apresenta nos seus telhados umas castiças chaminés redondas (que justificavam a sua forma como meio de impedir a entrada das bruxas!).
Com a chegada ao Mosteiro de Leyes, onde iríamos pernoitar, parei uns momentos a admirar a minha companheira. A CB 500X tinha sido a eleita para um dia de passeio mototuristico absolutamente memorável.
A sua postura de trail, com boa proteção aerodinâmica, guiador largo e ergonomia pensada no conforto, foram ideais para lidar com os tipos de piso mais desgastados do início do dia. A jante dianteira de 19”, o maior curso de suspensão (150 mm de curso em relação aos 120 mm das R e F) e sobretudo a boa afinação da mesma, casam na perfeição com um motor sempre disponível e uma travagem muito eficiente.
Uma moto acessível e descomplicada que nos dá vontade de carregar com equipamento e pendura, e seguir caminho. É fácil perceber o seu sucesso junto daqueles que regressam ao mundo das duas rodas…
Dia 2 (Yesa - Astigarraga, San Sebastian)
Este era o dia em que iríamos conhecer o Punks Peak. Na minha cabeça surgiam imagens de uma rampa de velocidade com motores de outras épocas a darem tudo, de goela aberta rumo ao céu. Talvez inspirado pela velocidade, a moto a que me agarrei imediatamente foi a versão mais desportiva da família, a CB 500 R.
O acerto mais desportivo das suspensões, a posição dominante a abraçar o depósito e a vontade de explorar o bicilíndrico nas rotações mais altas casaram na perfeição com as estradas largas a caminho do País Basco.
A pequena desportiva sente-se directa e acutilante, com reserva de potência suficiente para encorajar alguns brilharetes (em forma de joelho esticado na procura do pêndulo perfeito). Uma óptima escola para os iniciados nas lides das máquinas de pista e onde, mais uma vez, a acessibilidade é a palavra de ordem. Uma nota especial para a travagem, a sua progressividade, dosagem e tacto são dignas de nota.
Hondarribia surgiu depois de começarmos a sentir o perfume salgado dos ares atlânticos e quando dei por mim estávamos a estacionar as motos na subida de Jaizkibel.
No caminho a pé para a zona da prova, as máquinas estacionadas indicavam que estávamos numa realidade diferente. Reinavam os carburadores, muito metal e algumas ocasionais pingas de óleo que marcavam o esforço de décadas de funcionamento.
Clássicas, umas customizadas e outras perfeitamente de origem, pintavam a atmosfera como se tivéssemos parado no tempo.
A zona onde se assiste à prova do Punks Peak não é nada mais que uma colina verdejante com vista para o mar, e onde quanto mais se sobe, mais abrangente se torna a paisagem. Rapidamente desisti desta opção, fiquei a maior parte do tempo junto à cerca que limita o percurso, de sorriso estampado no rosto como uma criança.
São 400 metros a subir, arranque parado, com uma ligeira chicane no meio, e a saída é dada por um tiro de pistola!
Os loucos que naquele dia são pilotos ostentam bigodes esvoaçantes e roupas coloridas e as armas escolhidas para vencer o oponente são barulhentas e têm humores… um espetáculo absolutamente brilhante.
São várias as categorias, por ordem crescente de ano (segundo percebi), e onde os bicilindricos dominam a escolha. São provas eliminatórias e o vencedor só pode colher a sua glória depois de bater vários rivais até à final da sua categoria.
Ficaram muitas imagens na memória e, na última manga com motos modernas, vimos uma Ducati Desmosedici a lutar com uma silenciosa Zero SR/S, e uma CB 1000 R a lutar com uma Niken sobrealimentada. Hiperventilei um pouco…
Ainda mal refeito de tanta emoção, terminamos o dia na cidade de Astigarraga, num hotel (Pension Astigarraga) onde as motos sobem ao lobby num elevador monta-cargas para pernoitar. Brilhante, desde o conceito à simpatia e disponibilidade de todo o staff do Hotel.
A noite terminou numa das muitas produtoras de sidra locais (a Sagardea, sidra basca), onde todo o processo nos foi explicado e a respectiva prova nos pôs mais alegres…
Dia 3 (Astigarraga - Biarritz - San Sebastian)
Manhã chuvosa, cinzenta e triste, a cabeça algo pesada (não só pelo destilar de tanta sidra, como pelo facto de me ter esquecido do equipamento impermeável em Lisboa) pedia atitude e espírito de sacrifício. O destino era Biarritz onde iremos poder visitar a vila base do Wheels and Waves. A CB 500 F era a moto com a qual faltava partilhar quilómetros e, como tal, passei grande parte do dia aos seus comandos.
A sua intuitiva leveza e facilidade de utilização rimam com o espírito urbano e, neste cenário, a sua agilidade ressalta. A distribuição foi reajustada no eixo dianteiro e sente-se mais precisa que a geração anterior.
Acabamos por fazer quase duas horas de autopista debaixo de água, e a miséria do desconforto físico era tanta que apenas me podia distrair nas breves mudanças de velocidade a que me propunha. Mais uma vez, uma boa surpresa na quase ausência de vibrações que o bicilíndrico revela.
Chegados ao recinto do Wheels and Waves, no relvado do museu Cité de l’Océan, a chuva deu tréguas finalmente. As tendas começaram timidamente a abrir e, no seu interior, todo um mundo se revelava.
Muitas marcas de roupa presentes, alguns preparadores onde a customização de motos clássicas era mote para uma montra cheia de história e carácter motociclístico. Algumas marcas (entre as quais a Honda, com a sua exposição das Rebel estilizadas) orgulhavam-se de cumprir o objectivo de se enquadrarem em tão eclético universo.
Infelizmente, o poço da Morte não tinha espectáculos a decorrer e os palcos do recinto estavam demasiado molhados para se ouvirem as guitarras ligadas aos amplificadores.
Com o mar logo ali, na praia onde decorrem os concursos de surf, fiquei com uma ideia do ambiente que se vive naquele pedaço de terra, durante cinco dias.
O espírito é de intemporalidade em relação à paixão pelas duas rodas. Glorifica-se o clássico e o vintage, numa purista e emocional tentativa de evitar o renegar dos motores a combustão. Ali sonha-se um futuro com olhos no passado. Era altura de regressar…
Epílogo
Foram quase três dias aos comandos das CB 500 X,R e F. A familiaridade motriz e ciclística que as une só enaltece a capacidade que a Honda tem de criar produtos sólidos com elevada qualidade de construção, acessíveis e fáceis de explorar, conseguindo ser também entusiasmantes para os mais experientes.
Uma Road Trip altamente diversificada e interessante, atravessando uma zona de Espanha muito rica a nível cultural e paisagístico. O grupo de jornalistas e a organização de excelência ajudaram a tornar esta experiência inolvidável. Até para o ano!
Galeria de fotos do Wheels and Waves
andardemoto.pt @ 20-7-2022 12:04:54 - Texto: Pedro Alpiarça
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