Honda GL1800 Gold Wing - Expresso do oriente

Não há nenhuma moto capaz de satisfazer todas as necessidades de um motociclista. Mas só há uma moto capaz de satisfazer completamente as necessidades de um motociclista viajante de longo curso. Sobretudo quando leva um passageiro consigo.

andardemoto.pt @ 2-7-2017 19:54:37 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: ToZé Canaveira

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Tudo teve início em 1972, quando a Honda começou a desenvolver um projecto ultra-secreto, específico para explorar os limites do mototurismo. 

O trabalho desenvolvido esteve na base da criação de um protótipo com um impressionante motor de seis cilindros opostos, refrigerado por líquido e com transmissão da potência à roda através de um sistema de veio.

Em 1975 foi apresentado ao mundo um modelo inovador, que dava pelo nome de GL1000 Gold Wing. A nova moto abria as portas à classe de “grand turismo” com o seu motor de 999cc, com apenas quatro cilindros opostos, mas igualmente refrigerado por líquido e transmissão final por veio.

A sua até então desconhecida capacidade para cobrir distâncias, em conforto e sem grandes preocupações com manutenção, não surtiu grande impacto no público em geral, mas uns quantos motociclistas sentiram-se atraídos pelo fascínio de poder cobrir longas distâncias em contacto com a natureza, e assim, começaram a lenda da Gold Wing, uma das motos mais apaixonantes alguma vez fabricada.

Claro que, quem nunca se sentou aos comandos de uma Gold Wing, não tem a mínima hipótese de perceber nada daquilo que possa estar escrito neste texto.  

A Gold Wing, vista de fora, assemelha-se mais com um automóvel do que com uma moto, e o seu tamanho intimida a maioria dos motociclistas, sobretudo aqueles de estatura mais baixa.  

Qualquer motociclista “normal”, vai olhar para a pouca altura disponível ao solo, para a pouca inclinação permitida em curva, para a cilindrada de 1800cc ou para os 421kg de peso em ordem de marcha, que em termos de peso bruto pode chegar bem perto dos 600kg, ou para os 1690mm de distância entre eixos, e vai achar que será a mesma coisa que conduzir um semi-reboque. 

Por isso, uma Gold Wing não é uma moto para o motociclista “normal”.  

No entanto a Gold Wing permite que qualquer motociclista “normal” possa ir, de moto e num instantinho, dar uma voltinha pelo centro da Europa, ou à Rússia, ou atravessar a América, ou visitar Marrocos, levando consigo passageiro e todas as conveniências para uma grande viagem, em perfeito conforto, e sem que o prazer de andar de moto seja negligenciado.


Uma Gold Wing não é tratada pelos seus proprietários como mais uma moto. Uma Gold Wing é, para qualquer “Winger”, um membro da família. É sempre alvo de muita atenção, sendo normalmente equipada com os mais diversos acessórios que possam contribuir para uma mais agradável “vida a bordo”, pois em viagem, a Gold Wing é como se fosse a sua “sala de estar”, por onde o mundo desfila, numa experiência de sensações que só quem anda de moto pode perceber.

E como as melhores experiências ainda são melhores quando são partilhadas, esta moto oferece ao passageiro mais espaço, conforto e protecção contra os elementos do que qualquer outra.

E só quem andar de Gold Wing vai perceber o quanto importante é uma protecção aerodinâmica elevada, uma suspensão confortável, um motor suave e elástico, muita arrumação e uma posição de condução espaçosa e relaxada, quando se está aos comandos de uma moto que tem autonomia para cumprir sucessivas tiradas de 350km em pouco menos de 3 horas, tiradas rápidas de 200km em cerca de uma hora, ou jornadas diárias consecutivas de 1200km de autoestrada ou estradas nacionais, com uma duração total inferior a 12 horas. 

Mas lá está, uma coisa é fazer 1000, ou até 1500 quilómetros num dia. Outra coisa completamente diferente é fazê-lo por vários dias consecutivos, com passageiro, e sem nunca prescindir de uma boa paragem para o almoço, e chegar sempre a tempo para jantar e dormir um sono reparador. Mesmo sob condições meteorológicas adversas.

Um amigo, dos mais viajados que eu conheço, e distinto membro da comunidade “Winger” internacional, viaja frequentemente pela Europa, e das suas façanhas mais recentes consta uma viagem do Mar Negro, mais precisamente de Burgars na Bulgaria até Évora, perfazendo cerca de 4.200 quilómetros em apenas 3 dias.

Ou outra, de Évora a Uzhgorod, na Ucrânia, com 3.400 quilómetros em apenas 2 dias e meio (partiu às 5 da manhã de 3ª feira e chegou lá na 5ª feira logo a seguir ao almoço). Isto apesar de já há uns anos beneficiar da experiência do seu meio século de vida, e de levar consigo a sua inseparável pendura!

Por outro lado, uma Gold Wing é um valor seguro, sendo a sua desvalorização incomparavelmente inferior à da generalidade das motos, assemelhando-se à de uma máquina industrial. 

Para ficar com uma ideia, uma unidade do modelo GL 1800, do ano de 2007, já equipada de série com air-bag e GPS, mas pouco acessorizada, e com o odómetro a marcar 160.000km, pode ser comprada por um preço de 16.500 euros, ou seja, uma desvalorização inferior a 50% tendo em conta o valor de uma unidade actual nova (€ 30.650). 


Isto porque é sabido que, por essa Europa fora, existem destas motos a circular diariamente, com quilometragens superiores a 300, ou até mesmo 500 mil quilómetros, havendo até um caso específico de uma unidade que já está praticamente a cumprir um milhão de quilómetros, a do italiano Marcello Anglana cujo mais recente livro conta a sua viagem de Itália até ao Japão, atravessando os 5 continentes, durante 34.000 quilómetros, e em apenas 60 dias.  E tudo isto, com um nível de manutenção e reparação muito baixo, e uma fiabilidade praticamente irrepreensível.

E se nos virarmos para a América, onde as grandes distâncias estão implícitas em qualquer viagem, a Gold Wing goza de uma reputação e uma popularidade tão grande, que a Honda encontrou um enorme mercado em terras do tio Sam, tendo mesmo chegado a criar uma fábrica para poder garantir a produção de novas motos, sendo que agora, já todas as Gold Wing são novamente fabricadas no Japão, na Kumamoto Factory, desde a última renovação feita ao modelo, em 2012.

A minha experiência com as Gold Wing já vem de longe, e remontará ao ano 2001 quando foi lançada a primeira versão GL1800. Ao longo da minha vida jornalística, e não só, várias foram as unidades de Honda Gold Wing que já tive oportunidade de conduzir, e de todas elas não deixei de ficar impressionado com esta imponente moto. Também eu, motociclista “normal” antes de a ter conduzido pela primeira vez, pensava que para lá de uma moto, a Gold Wing era um exagero. 

Mas bastaram os primeiros quilómetros para perceber que era um caso típico de bom gigante, impressionantemente manobrável, de aceleração rápida, retomas demolidoras e um comportamento dinâmico praticamente irrepreensível, tanto ao nível das trajectórias, onde parece curvar sobre carris, como ao nível da travagem, muito potente e doseável em ambos os eixos.

Não se trata de uma máquina rápida, obviamente, mas definitivamente não é uma moto lenta. O motor é de uma suavidade impressionante, tanto no funcionamento, como no arranque, ou ao ralenti, com o binário demolidor de 167Nm sempre pronto para empurrar com determinação, a qualquer ordem do punho direito.

Um pouco limitada numa estrada de curvas encadeadas, pela sua grande largura e escassa altura ao solo, contrasta em curvas rápidas, com uma firmeza poproporcionada pela rigidez do quadro e pelo bom desempenho das suspensões, mesmo quando bem carregada.  

As ajudas electrónicas ao condutor definem-se melhor como mordomias, e proporcionam regulações de conforto e dinâmicas, infotainment, controlo automático de velocidade, marcha-atrás, todas elas bastante simples e fáceis de usar. Os comandos são grandes, individuais, fáceis de identificar num relançe, e perfeitamente acessíveis mesmo com grossas luvas de inverno calçadas.


Fácil de levar a alta velocidade, onde a sua aerodinâmica confere, além de uma boa protecção aerodinâmica, um baixo nível de ruído e um enorme aprumo sob ventos laterais, a Gold Wing é igualmente fácil de levar a baixa velocidade, com uma repartição de massas muito bem calculada e um centro de gravidade muito baixo, que a tornam (é verdade) muito mais fácil de manobrar, mesmo com passageiro e carga, do que muitas motos completamente insuspeitáveis. 

E depois há os consumos, que com uma condução racional mas sem grandes preocupações ecológicas, conseguem-se facilmente médias abaixo dos 7 litros aos 100 quilómetros. 

Por tudo isto, na minha “bucket list”, está uma viagem a ligar a Praça do Comércio à Praça Vermelha, passando por Ushuaia, aos comandos de uma destas majestosas máquinas! Podia fazer isso em muitas outras motos? Podia... mas não ia ser a mesma coisa!

Aproveitamos esta oportunidade, para agradecer à Motodiana, concessionária Honda de Évora, a gentileza de nos ceder a unidade de teste aqui apresentada.


Equipamento:

Neste teste usámos equipamento de segurança composto por (clique nos links para saber mais):

  •  Luvas Darts Sunland


andardemoto.pt @ 2-7-2017 19:54:37 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: ToZé Canaveira


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