A revolução de um ícone

A Vespa do futuro chegou, e em grande estilo! A nova Elettrica conseguiu manter tudo o que sempre apreciámos nas clássicas Vespa a combustão, mas adiciona-lhe um toque de modernidade que renova por completo aquele que é considerado um ícone do mundo do motociclismo.

andardemoto.pt @ 6-3-2019 15:17:32 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: ToZé Canaveira

A mobilidade está no topo das atenções dos governantes e dos cidadãos, e em particular a mobilidade elétrica tem conquistado cada vez mais seguidores. E existem boas razões para isso. No caso das motos elétricas as baterias estão a permitir cada vez maiores autonomias, os preços estão a baixar, e os motociclistas têm por isso cada vez mais e melhor por onde escolher a sua próxima moto amiga do ambiente.

E esse campo de escolha acaba de se alargar ainda mais, pois finalmente a Vespa disponibiliza no mercado nacional a sua primeira scooter elétrica. “OK”, o nome pode não ser propriamente um hino à imaginação, mas a Elettrica é tudo aquilo que a icónica marca italiana prometeu que seria quando a vimos pela primeira vez, ainda em versão conceptual, no Salão de Milão EICMA, há uns anos atrás.

O coração desta Vespa Elettrica é um motor elétrico capaz de gerar uma potência constante de 2 kW, mas a potência de pico atinge os 4 kW. A Elettrica é, por isso, uma scooter puramente citadina equivalente às 50 cc a combustão, tendo uma velocidade máxima limitada aos 50 km/h.

Mas onde a Elettrica ganha de “goleada” à sua homónima a combustão é no binário, pois com 200 Nm de binário disponíveis desde as zero rotações, esta Vespa prateada com pequenos detalhes em azul “elétrico” acelera de forma decidida. Este binário não é sequer atingido pelas atuais superdesportivas!

A Vespa Elettrica não é a única scooter elétrica que encontramos hoje em dia, mas sendo uma Vespa, com todo o historial inerente à marca italiana, a Elettrica tem uma carga especial, e isso foi palpável logo no momento em que me sentei aos seus comandos. A sensação inicial é de que estamos sentados numa convencional Vespa, afinal de contas a Elettrica baseia-se em parte na Primavera, com o seu corpo monocoque em aço com soldaduras reforçadas em pontos chave para garantir uma maior rigidez estrutural. O assento tem uma altura e largura perfeitas para utilização citadina, que obriga a colocar muitas vezes os pés no solo, e em condução a plataforma plana oferece um bom espaço, mesmo para condutores de maior estatura.

Toda a estrutura revela uma qualidade de acabamentos de topo, desde a pintura prateada, passando pelos detalhes como o painel de instrumentos TFT de 4.3’’ a cores, onde podemos aceder às diversas informações sobre o estado da bateria, e, principalmente, à autonomia. Neste particular, a Vespa anuncia que a autonomia máxima da Elettrica pode atingir os 100 km por carga completa, mas no nosso teste, ficou claro que atingir essa autonomia será uma missão muito difícil, para não dizer impossível devido ao para-arranca constante das nossas cidades.

Ainda assim, consegui extrair 80 km de autonomia das baterias de iões de lítio com 4.4 kWh de capacidade, refrigeradas por ar, desenvolvidas em parceria pela Piaggio e a LG Chem. Tendo em conta que não tive grande cuidado com o acelerador, e que fui trocando de modos de condução várias vezes, para além de ajustar o sistema KERS, esta autonomia parece-me bastante interessante.

Através de uma tomada elétrica de 220 volts que encontramos nas nossas casas, e usando o adaptador incluído, a Elettrica demora 4 horas a recarregar as baterias desde 0% de bateria. Isso significa que rapidamente conseguimos colocar “sumo” suficiente nas baterias para as nossas viagens em cidade.


Ficou também claro que, tal como já constatei noutros veículos elétricos, a forma como conduzimos irá afetar de sobremaneira a autonomia da Elettrica. Em modo de condução ECO, e com a velocidade máxima limitada a apenas 30 km/h, é fácil diminuir bastante o consumo de energia e prolongar a autonomia, enquanto em modo Power a autonomia reduz-se de forma mais notória, usfruindo da potência sem limitações. Mas podemos sempre alterar a quantidade de energia recuperada pelo sistema KERS (Kinetic Energy Recovery System), que é acionado cada vez que desaceleramos. Através do menú disponível nas definições da Elettrica, existem dois níveis de regeneração de energia.

Ainda em relação aos modos de condução disponíveis, a Vespa adiciona uma ajuda para as manobras a baixa velocidade, como estacionamento. O modo Reverse está lá para ajudar, mas para ser sincero, a Elettrica é tão leve que só selecionei Reverse por uma ou duas vezes apenas por brincadeira e para tentar andar para trás sem colocar os pés no chão. Missão falhada, obviamente.

Conduzir a Elettrica é tão instintivo como conduzir uma outra qualquer Vespa. É ágil, e sente-se leve desde o momento em que arrancamos. A ausência de qualquer som é desconcertante de início, mas ao final de alguns momentos acabei por me habituar, e a determinada altura passei a ouvir outros ruídos à minha volta enquanto conduzia a Elettrica, tornou-me mais desperto para o que me rodeia na estrada, o que inevitavelmente tem consequências benéficas a nível da segurança, pois por diversas vezes consegui aperceber-me de um ou outro automóvel que decidiu guinar para cima de mim (talvez vidrado no design intemporal da Vespa), e reagir a tempo de evitar um acidente.

A aceleração proveninente do motor não é alucinante como noutros veículos elétricos, mas é suficiente para nos deixar à frente do trânsito quando arrancamos nos semáforos. A velocidade máxima de 50 km/h é atingida rapidamente, e estabiliza nesse valor, pelo menos até encontrar-mos uma subida com inclinação mais pronunciada. Aí, a Elettrica sofre um pouco mais do que o expectável, mas ainda assim nada de mais. Nos percursos de estrada mais aberta a Elettrica também sofre pela velocidade reduzida e limitada, sendo rapidamente passada por quae toda a gente, mas dentro de circuitos puramente urbanos, a Vespa amiga do ambiente não tem qualquer problema. Aliás, tendo em conta o crescente número de radares de velocidade, com a Elettrica não existe a mínima hipótese de sermos multados!

Será também interessante perceber qual o nível de performance da Vespa Elettrica na sua versão equivalente a 125 cc, uma versão que deverá estar disponível no nosso País ainda durante o próximo mês de abril.

Dinamicamente a Elettrica proporciona uma condução descontraída. Já referimos que é ágil, com as trocas de direção a serem efetuadas sem grande esforço. O único senão está na saída das curvas mais lentas, pois o motor elétrico é algo lento a recuperar velocidade, e não podemos contar com ele para endireitar a scooter. Em vez disso é necessário dar um ligeiro toque no guiador para levantar a Elettrica de inclinação.

Com uma combinação de travão de disco à frente e tambor atrás, revela uma travagem controlada e estável, até porque as suspensões mostram-se sempre eficazes ao digerir os impactos maiores, e tudo isto acaba por fazer com que o condutor se sinta muito confiante para levar a Elettrica aos seus limites. Confortáveis, sem serem demasiado rijas no amortecimento, as suspensões da Elettrica merecem uma nota bastante positiva. Na travagem um pouco mais de “feedback” no travão traseiro seria perfeito.


E quanto tempo duram as baterias antes de perder a sua performance inicial?

Em relação a este aspecto, até porque a Elettrica não requer qualquer tipo de manutenção do seu motor, a única manutenção será a travagem e pneus, a Vespa garante que as baterias de iões de lítio foram desenvolvidas para aguentar 1000 ciclos de carga / descarga total. De acordo com a marca italiana, isso traduz-se em 50.000 a 70.000 km de condução, o equivalente a cerca de 10 anos, sendo que a partir desses mil ciclos de carga / descarga as baterias ainda terão 80% da sua capacidade original. Isto significa que a Vespa Elettrica terá um custo de manutenção extremamente reduzido.

Conclusão

Depois de testar a Vespa Elettrica não consigo deixar de enaltecer o trabalho realizado pela marca italiana. É certo que esta versão equivalente a 50 cc não vai ganhar nenhuma corrida de arranques e velocidade máxima, mas o motor elétrico responde de forma bastante interessante aos impulsos no acelerador. Todo o conjunto funciona bem, transmitindo confiança, e dinamicamente não desilude. Fiquei com a sensação de que a Elettrica é o resultado dos mais de 70 anos de história da Vespa, com muita atenção aos detalhes, e muita qualidade nos materiais utilizados e acabamentos. Uma Vespa virada para o futuro, onde a consciência ambiental será predominante.

No entanto, é impossível não comparar a Elettrica com a sua “concorrente” a combustão em termos de preço. Dentro da gama Vespa, a 50 cc que mais se aproxima é a Primavera, que se encontra à venda por  3581€. A Elettrica custa 6790€. A diferença entre ambas ronda os 3200€, um valor que permite abastecer de gasolina a Primavera 50 cc e percorrer muitos e muitos quilómetros.

O Governo anunciou para 2019 uma nova medida de apoio à compra de motociclos e ciclomotores elétricos: pode candidatar-se a um benefício de 20% do valor da scooter até um máximo de 400€. Uma ajuda pequena, mas que ainda assim pode pesar na decisão da compra da Vespa Elettrica. Visite o website governamental do Fundo Ambiental para mais informações sobre este incentivo .

Vespa Elettrica

Equipamento

Neste teste usámos o seguinte equipamento de segurança

Capacete – Vespa Elettrica

Blusão – Rev’it Hoody Stealth

Calças – Rev’it Lombard

Luvas – Furygan Spencer D3O

Botas – TCX X-Square XS

andardemoto.pt @ 6-3-2019 15:17:32 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: ToZé Canaveira


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