Uma Tutto Terreno de charme

O regresso da casa de Mandello del Lario aos modelos “off-road” faz-se através da nova V85 TT. Esta classic enduro é uma “Tutto Terreno” cheia de charme, com prestações interessantes, e que não deixa ninguém indiferente à sua passagem.

andardemoto.pt @ 27-5-2019 14:42:21 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: ToZé Canaveira

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Moto Guzzi V85 TT Premium | Moto | Motos

Temos de concordar que a Moto Guzzi não é uma marca reconhecida entre os motociclistas pelos seus modelos “off-road”. Com a entrada em cena das normas antipoluição mais restritivas, aquela que foi a última moto saída da fábrica em Mandello del Lario com alguma vocação para circular fora de estrada, a Stelvio 1200, deixou um vazio nos corações dos Guzzistas de todo o mundo. Mas a marca italiana, sob a liderança do gigante Grupo Piaggio, sentiu que este é o momento de regressar a uma segmento que na Europa significa lucros garantidos.

É assim que a Moto Guzzi decide arrancar com o projeto para produzir uma trail.  Inicialmente a marca italiana deixou-nos de água na boca quando revelou a versão conceptual no Salão de Milão EICMA, há um bom par de anos atrás. A reação do público à visão da Moto Guzzi do que deve ser uma trail acessível foi extremamente positiva, e os responsáveis da marca não tiveram grandes dúvidas que a V85 TT tinha mesmo de ser produzida.

Assim, no final do ano passado, a versão de produção foi-nos apresentada com toda a pompa e circunstância. A Moto Guzzi optou, e na minha opinião bem, por não realizar alterações demasiado profundas em relação à versão conceptual, pelo que a V85 TT que hoje em dia podemos comprar e desfrutar na estrada, ou fora dela, é basicamente uma versão ligeiramente refinada dessa versão conceptual que tanto nos apaixonou quando a vimos pela primeira vez.

Definida pela Moto Guzzi como uma “classic enduro”, esta V85 TT  - TT significa Tutto Terreno – não deixa ninguém indiferente à sua passagem. O design é de inspiração claramente retro, mas sem deixar de aplicar elementos modernos na sua conceção. O melhor exemplo disso é o desenho da ótica frontal, que não só utiliza iluminação em LED, como conta com luzes diurnas em LED, uma assinatura luminosa específica e a fazer lembrar a águia que serve de imagem da Guzzi. Um daqueles detalhes que muitas vezes passa despercebido, mas que ajuda a V85 TT a destacar-se do que habitualmente vemos no segmento, conferindo-lhe um carisma mais vincado.

Mas o maior carisma desta trail advém do seu motor. Fiel às suas origens, a Moto Guzzi continua a apostar no motor bicilíndrico em V, em posição transversal. Com refrigeração por ar, este motor de duas válvulas por cilindro tem um aspeto de certa forma arcaico. Mas convém não nos deixarmos enganar pelas aparências! Com um angulo de 90º entre cilindros, o motor da V85 TT conta com inúmeras alterações em relação à unidade motriz que conhecemos das retro V9.

Tem 853 cc e deriva precisamente do motor usado na V9. Mas ao contrário dos pouco mais de 50 cv que a V9 disponibiliza, a Moto Guzzi não olhou a meios e dotou a V85 TT de um motor bastante mais disponível a vários níveis. Foi dada uma grande atenção à redução da fricção nos elementos internos, e isso levou ao redesenhar da cambota, bielas, pistões, alterar a abertura de válvulas e usar válvulas de admissão em titânio.

A Guzzi teve depois de redesenhar por completo o circuito de refrigeração a óleo, com duas bombas a levarem o óleo para os locais onde é mais necessário. Os coletores de escape também foram redesenhados, e o resultado final foi um aumento significativo na potência, com a V85 TT a disponibilizar 80 cv às 7750 rpm, enquanto o binário sobe para os 80 Nm às 5000 rpm. Não foi uma tarefa fácil, mas a Moto Guzzi conseguiu de facto atualizar este motor “arcaico”.

Claro que mais potência obrigou a trabalhar outros elementos. A embraiagem foi reforçada para aguentar com o maior binário, enquanto a caixa de 6 velocidades conta com novos carretos, que permitem um acionamento mais suave da primeira relação de caixa. Uma melhoria particularmente notada quando a caixa está em Neutro e engrenamos primeira. Continuamos a sentir aquele “clunk” típico da transmissão das Moto Guzzi, mas é de facto mais suave.

Com uma potência tão abaixo daquilo que podemos considerar como a concorrência direta – BMW F850GS, Ducati Multistrada 950, Triumph Tiger 800 só para dar alguns exemplos – a Moto Guzzi V85 TT tem de se destacar noutros capítulos. E a verdade é que o faz! Um ligeiro toque no botão da ignição e o bicilíndrico arrefecido a ar acorda para a vida com uma terpidação que nos enche de emoção.

O som que emana do escape, com ponteira em posição elevada e do lado esquerdo da moto, contribui de sobremaneira para essa emotividade. Com o assento a 830 mm de altura, a V85 TT não é propriamente uma moto baixa, mas tendo em conta o segmento, também não se revela uma moto complicada para condutores de estatura mediana / alta. Até porque o assento, que na versão Premium, que testei, está coberto por tecido semelhante a Alcantara, é suficientemente esguio para facilitar chegar com os pés ao solo. A maior dificuldade será a posição dos poisa-pés, que nas manobras a baixa velocidade têm uma tendência para ficar a tocar nos calcanhares.

O motor, particularmente no modo de condução Road, em que a eletrónica deixa os 80 cv serem explorados à vontade, revela-se muito interessante de prestações. Equilibrado, não é um portento de energia como serão as suas rivais mais potentes, mas oferece uma entrega de potência muito linear, com o acelerador “ride-by-wire” a estar bem afinado, mesmo no modo mais potente Road. Em Pioggia (chuva) ou Off Road, a entrega de potência é claramente suavizada, e para ser sincero, nem mesmo com piso molhado que tive de enfrentar durante os dias que tive a V85 TT na minha garagem, senti necessidade de explorar e maior suavidade destes modos de condução.

Até porque passando para eles, através de reptidos toques no botão de ignição e não no botão Mode no punho direito, esse botão controla as informações que aparecem em sucessão no fantástico ecrã TFT a cores, as ajudas eletrónicas como controlo de tração e ABS revelaram-se bastante interventivas.


Para melhor desfrutar dos 80 Nm de binário convém manter as rotações algures entre as 4000 e as 6000 rpm. Nesses regimes intermédios o motor mostra-se espedito, reativo aos nossos impulsos, e permite enfrentar uma estrada de curvas de montanha sem obrigar a trabalhar em demasia com a caixa de velocidades que, para uma transmissão por veio da Moto Guzzi, permite trocas de caixa suaves, com um tato ligeiramente mecânico, mas sem ser duro.

Para além de ser bastante precisa e com as relações de caixa bem escalonadas, o que no final de uma viagem sem grandes preocupações com o acelerador irá mostrar um consumo médio na ordem dos 5,5 litros. Tendo em conta que o depósito de combustível tem 23 litros de capacidade, isto significa que esta V85 TT consegue excelentes autonomias, bem perto dos 400 km!

Com a Moto Guzzi a anunciar 229 kg a cheio, esta Moto Guzzi não é propriamente uma moto leve. Ainda assim o centro de gravidade baixo ajuda a esconder este peso, e com um excelente raio de viragem a V85 TT mexe-se surpreendentemente bem mesmo nos espaços mais apertados, sem obrigar a manobras extra.

É ainda assim notório que esta “classic enduro” cheia de charme não se movimenta de forma linear nos percursos mais exigentes. É necessário alguma força no guiador, que não é particularmente largo, logo não fornece a força de alavanca habitual, para inclinar a frente para a trajetória. A V85 TT não gosta de ser abusada, prefere ser levada com calma. Até porque os poisa-pés, se nos entusiasmamos em demasia, vão raspar rapidamente no asfalto pois a altura disponível ao solo é algo reduzida.

Mas a ciclística equilibrada também ajuda a contrariar esta lentidão de reações. O quadro treliça está rigído o suficiente para aguentar com as maiores forças torsionais, sem eliminar por completo a flexibilidade necessária para transmitir ao condutor a quantidade de informação sobre o que se está a passar com o conjunto.

As suspensões, que no caso da moto que testámos estavam ligeiramente alteradas em relação à afinação de fábrica (+ 2 clicks na précarga em ambos os eixos), revelaram-se bem adaptadas a uma condução em asfalto. A frente não se deixa afundar facilmente sob a força dos travões Brembo, potentes e doseáveis, pelo menos à frente. Já na traseira o travão não oferece tanta sensibilidade, pelo que temos de pisar com alguma força para obrigar a pinça Brembo a morder o disco traseiro.

Como referi, a forquilha não afunda mesmo sob a força das maiores travagens. Isso poderia significar menor conforto por causa de afinações mais duras. Mas no caso das suspensões da V85 TT isso não é verdade. De todo! Mesmo nos percursos em que o asfalto está bastante danificado, os 170 mm de curso das rodas em ambos os eixos garantem que as suspensões absorvem quase todos os impactos. Uma nota muito positiva para esta Moto Guzzi neste particular.

Sem contar com tecnologias como suspensões eletrónicas semi-ativas ou ABS com função “cornering”, é de aplaudir que a V85 TT com as suas soluções “simples” consiga portar-se tão bem, mesmo quando levada para ritmos bem acima daqueles para os quais foi inicialmente pensada.

A versão Premium que testámos está equipada de fábrica com pneus Michelin Anakee Adventure. Estes pneus, apesar de ligeiramente cardados para melhor tração em pisos de terra, aquecem rapidamente e raramente revelam perda de aderência, pelo menos sem nos avisar de que isso vai acontecer. Felizmente para os Michelin a Moto Guzzi V85 TT, com a reduzida distância livre ao solo, não permite grandes angulos em curva, pelo que os Anakee Adventure não são propriamente levados ao seu limite.

Mas a V85 TT é uma trail, certo? Até a própria Moto Guzzi diz que esta “classic enduro” se porta bem fora de estrada. Mas será que é mesmo assim? Digamos que com 170 mm de curso  e rodas de 19’’ e 17’’, a V85 TT não se porta mal nos pisos de terra. Não é como as trail mais agressivas, e tal como em asfalto, convém conduzir esta italiana charmosa com alguma calma.

Obriga a prever com maior antecipação o que está à nossa frente, mas assim que nos habituamos ao seu caráter, a V85 TT não nos deixará ficar mal vistos num passeio fora de estrada. Não contem com ela para grandes saltos e derrapagens malucas. Mas mais uma vez o seu comportamento equilibrado em termos de ciclistica, ao que se soma o motor dócil e linear, vão surpreender mesmo os motociclistas mais experientes nestas andanças.

Uma referência para o modo de condução Off Road. Com este modo selecionado o controlo de tração torna-se bastante menos interventivo, e o ABS é desligado na roda traseira. Apesar do controlo de tração se mostrar, mesmo neste modo, algo intrusivo cortando a entrega de potência frequentemente, o sistema de travagem pelo contrário mostra-se bastante bem adaptado a este tipo de ambiente.

Uma última nota para um dos opcionais que a Moto Guzzi disponibiliza para a V85 TT. É possível adquirir a plataforma multimédia que depois permitirá conectar a moto ao nosso smartphone ou GPS. Por exemplo, para aqueles adeptos das viagens, este extra será uma excelente adição: as indicações do GPS, curva a curva, são apresentadas em grande destaque no painel de instrumentos de 5,5 polegadas.

Uma boa notícia para aqueles motociclistas que têm maiores dificuldades de orientação! Além disso, estes sistema permite ainda atender chamadas, ouvir música, entre outras coisas.


Veredicto Moto Guzzi V85 TT

O que mais chama a atenção na Moto Guzzi V85 TT, e com todo o mérito, é o seu design retro. Esta é uma trail de aspeto clássico, mas que de clássico tem mesmo só a sua aparência, pois tudo o resto é bastante moderno e esta trail da casa de Mandello del Lario revela-se uma boa surpresa.

Com um preço bastante ajustado, a V85 TT pode não gritar tecnologia como algumas rivais, pode não impressionar pela performance pura do seu motor bicilíndrico refrigerado por ar, pode não ser a mais ágil de todas, nem a mais capaz fora de estrada. Mas o seu carisma, o charme, e o facto de que consegue ser uma moto tão capaz numa enorme variedade de cenários e ambientes, fazem com que a V85 TT se torne numa trail de média cilindrada bastante apetecível para os motociclistas que procuram uma moto descomplicada e onde o prazer de condução é levado ao máximo.

A Moto Guzzi fez um muito bom trabalho na escolha dos componentes desta moto, e conseguiu que todos os elementos trabalhem de forma homogénea apenas com o objetivo de proporcionar prazer de condução. E é isso que uma moto nos deve dar, certo?

Além disso, dificilmente vão encontrar uma trail que nos faça parecer tão “cool” aos seus comandos como é o caso da V85 TT. Eu fiquei fã, e acho que qualquer motociclista também irá ficar quando a puder experimentar num dos diversos “test rides” que a Moto Guzzi Portugal está a realizar nos seus concessionários oficiais.

Moto Guzzi V85 TT

Uma V85 TT... três versões à escolha!

A marca italiana não foge à regra do segmento, e acompanhando as tendências atuais a Moto Guzzi disponibiliza uma vasta gama de acessórios oficiais para a V85 TT, para além do sistema multimédia que já referimos anteriormente. Mas, e para facilitar a vida aos clientes, em Mandello del Lario optaram por criar três versões de equipamento para ajudar a realçar as diferentes características da V85 TT:

Touring pack – conjunto de malas em alumínio com mais de 100 litros de capacidade, ecrã frontal mais alto, luzes de nevoeiro em LED, barras de proteção do motor, descanso central, e módulo Bluetooth da Moto Guzzi;

Sport pack – ponteira de escape “slip on” da Arrow, barras de proteção do motor, espelhos retráteis, amortecedor traseiro Öhlins;

Urban pack – malas laterais em plástico e alumínio, módulo Bluetooth da Moto Guzzi, sistema antirroubo, descanso central.

Neste teste utilizámos o seguinte equipamento de proteção

Capacete – Schuberth E1

Blusão – Rev’it Horizon 2

Calças – Rev’it Horizon 2

Luvas – Macna Revenge 2

Botas – TCX Infinity Gore-tex

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