Teste Ducati Scrambler Café Racer - Muito mais do que apenas estilo

A nova Scrambler Café Racer da Ducati é o exemplo perfeito de que uma moto de estilo pode muito bem oferecer muito mais do que estilo. Uma café racer divertida de conduzir e com um “look” retro que não deixa ninguém indiferente. Uma interpretação bem conseguida das motos lendárias dos anos 60.

andardemoto.pt @ 11-6-2019 08:30:00 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: ToZé Canaveira

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Ducati Scrambler Cafe Racer | Moto | Scrambler

Não há como fugir disto: desde há uns anos para cá que o mercado mundial de duas rodas foi invadido por uma profusão de motos de estilo retro. Tal como os grandes fabricantes viram nas maxi-trails uma “mina de ouro”, que continua a render, pois basta ver as atualizações a essas motos e os respetivos números de vendas, também perceberam que as scramblers, street trackers, e as café racers seriam motos bastante procuradas. E foi precisamente uma café racer que tive a oportunidade de testar para o seu Andar de Moto.

A Café Racer faz parte da família ou sub-marca Scrambler da Ducati, uma linha de motos que a marca sediada em Borgo Panigale lançou, com muito sucesso, diga-se, há alguns anos e que atualmente é composta na cilindrada 800 cc pelas variantes Icon, Desert Sled, Full Throttle, para além da Café Racer que aqui testamos.

A Ducati tentou replicar ao máximo as características das originais café racer dos míticos anos 60 do século passado. E o que eram essas motos?

As café racer foram o resultado de uma revolução nos anos 60, que teve o seu início em Londres quando um grupo de motociclistas do movimento Rocker decidiu modificar as suas motos para fazer corridas de um café até ao café seguinte. Estas corridas “sprint” deviam, originalmente, durar menos do que as músicas que tocavam nas máquinas Juke Box que se encontravam nos cafés.

E isso obrigou os seus proprietários a realizar uma série de modificações nas motos de série: tornar as motos mais leves, tinham modificações para serem mais rápidas em detrimento do conforto, agilidade melhorada, avanços ou guiadores baixos para uma posição de condução desportiva, um “look” minimalista sem elementos desnecessários, um depósito alongado e uma traseira onde pontifica uma tampa do assento do passageiro (quando tinham lugar para passageiro!).

E foi com base nestes princípios que a Ducati trabalhou a Scrambler Café Racer que foi atualizada para 2019 em relação ao modelo que originalmente apareceu há dois anos.

As grandes novidades nesta italiana retro podem resumir-se da seguinte forma:

- ótica frontal “premium” com desenho em X e que inclui luzes diurnas em LED em formato circular;

- jantes de raios e de 17 polegadas em vez das antigas jantes fundidas em alumínio;

- avanços fabricados em alumínio;

- embraiagem hidráulica em vez da antiga por cabo;

- novo assento em azul e com novas costuras para uma aparência mais autêntica;

- maior segurança derivado da utilização de sistema de travagem ABS com função em curva;

- painel de instrumentos LCD que passa a incluir indicação de mudança engrenada e nível de combustível;

- novo esquema de cores e gráficos em prateado e azul (a única opção agora disponível);

- novos pneus Pirelli Diablo Rosso III.

Mas vamos ao que interessa, e isso é saber como se porta a Scrambler Café Racer.

A primeira sensação é de que estamos sentados numa moto bastante mais pequena do que as suas dimensões inicialmente deixam antever. O novo assento é largo na sua secção traseira que sobe ligeiramente para oferecer um bom apoio, e estando colocado a 805 mm do solo permite ao condutor chegar facilmente com os pés ao solo.

Essa facilidade de utilização é ainda potenciada pelo facto de que o assento é bastante esguio na zona de união com o depósito de combustível que transporta escassos 13,5 litros de gasolina. Este detalhe é importante, pois se conduzirmos a Scrambler Café Racer como deve ser conduzida, ou seja sempre a acelerar de café em café, um depósito cheio não vai durar muito antes de vermos o nível de combustível baixar para a reserva no redesenhado painel de instrumentos LCD, de boa leitura, e apenas com as informações básicas. As visitas ao posto de combustível mais próximo serão frequentes, não tanto pelos consumos, mas mais pelo depósito de combustível ser pequeno.

De referir ainda que o novo indicador de combustível no painel de instrumentos é demasiado inconstante: num momento está a indicar depósito cheio com autonomia perto dos 200 km, como no momento seguinte o sistema atualiza e metade do depósito “desapareceu” e a autonomia está abaixo dos 100 km. Podia ser mais progressivo na forma como indica a diminuição de combustível.


Os novos avanços em alumínio estão bem posicionados para este tipo de motos. Embora coloque o peso nos pulsos do condutor, não é uma posição forçada nem exagerada, e mesmo após um dia inteiro aos comandos da Scrambler Café Racer não senti os meus pulsos massacrados pelo esforço de condução. Toda a ergonomia desta variante Scrambler está bem conseguida, bem melhor do que aquilo que senti há alguns anos quando conduzi a variante Urban Enduro, moto com a qual nunca me consegui sentir totalmente à vontade.

É uma italiana ao bom estilo retro! Com uma aparência que não deixa ninguém indiferente – foram várias a vezes que na estrada me perguntaram se a moto era mesmo assim de fábrica, pergunta logo seguida de um polegar levantado em aprovação pelo design -, não temos nenhuma opção eletrónica para alterar o comportamento dinâmico da Café Racer.

Esqueçam o controlo de tração, modos de motor, suspensões eletrónicas, ajuste do travão motor, enfim, todas as opções eletrónicas que os grandes fabricantes colocam à nossa disposição.

A Scrambler Café Racer é uma moto moderna mas à antiga, onde o que conta é o prazer puro de conduzir uma moto em que somos nós que controlamos, através da mão direita, como é que exploramos o motor bicilíndrico.

E é uma delícia explorar este motor em L. Por ser ainda de refrigeração a ar, o Desmodue tem um comportamento algo rude a baixas rotações e principalmente quando a temperatura não é a ideal. Nesses momentos precisei de controlar o soluçar a baixas rotações usando, e abusando, da embraiagem, que sendo hidráulica senti-a mais leve do que me lembrava de outras Scrambler da Ducati. A caixa, por sua vez, sente-se mecânica, e embora precisa na subida de relações o que permite desfrutar plenamente da transmissão bem escalonada, nas reduções sente-se rija, com a embraiagem deslizante no entanto a digerir os maiores abusos impedindo o bloquear da roda traseira.

A partir da 4000 rpm os pouco mais de 70 cv deste 803 cc sentem-se fortes e os pulmões cheios de ar. Cada rodar de acelerador, bem doseado, transforma-se em imensa diversão, ao mesmo tempo que o pneu traseiro 180 Pirelli Diablo Rosso III garante uma boa tração à saída das curvas mais lentas.

Apesar de não termos qualquer controlo de tração a digerir os excessos de aceleração e perda de aderência, a forma como o acelerador responde aos nossos desejos é perfeita. Quase parece que a nossa mente está ligada diretamente ao motor e à roda traseira. Perfeito!

Com o quadro tubular tipo treliça a garantir alguma flexibilidade, a afinação de série das suspensões não é a mais indicada para ritmos fortes. É demasiado suave, sensação ainda mais notória quando conduzimos com passageiro a sobrecarregar o monoamortecedor traseiro que, ao contrário da forquilha Kayaba, permite a regulação da précarga. Com uma condução agressiva é fácil sentir as suspensões a atingirem o seu máximo na compressão, e a extensão da mola pode causar alguma instabilidade na trajetória.

Mas conforme fui conduzindo a Scrambler Café Racer fui-me habituando a esta característica, e um ou dois dias depois de a ter nas minhas mãos já estava habituado à ligeira instabilidade e leveza da frente, e por isso corrigi facilmente colocando um pouco mais de peso na frente, adotando uma posição de condução mais agressiva.

É divertida de conduzir, mas que exige, em alguns momentos, que o condutor se esforce para sentir o melhor que a Café Racer tem para dar.

É uma moto ágil, bem mais ágil do que se espera de uma moto com quase 200 kg. Com a direção a responder rapidamente aos mais pequenos impulsos nos avanços, esta italiana de estilo retro e desportivo é bastante divertida numa estrada de curvas encadeadas. Não obriga a grande esforço numa condução a ritmo mais descontraído, e mesmo no meio do trânsito a Café Racer passa com nota positiva.

Temos é de ter em atenção que em ambiente urbano os espelhos retrovisores colocados na extremidade dos punhos acabam por se revelar incómodos, obrigam a fazer muitos cálculos para não raspar nos automóveis. Por outro lado, e de forma surpreendente, os espelhos oferecem boa visibilidade para o que se passa atrás de nós, o que não é nada habitual nestes espelhos onde o estilo vale mais do que a função.

Com 330 mm de diâmetro e mordido por uma pinça Brembo de quatro pistões, o sistema de travagem da Scrambler Café Racer revelou-se doseável, potente. Não está nem subdimensionado nem sobredimensionado, pelo que podemos confiar plenamente nos travões desta Ducati para abusar dos pontos de travagem.

Até porque quando abusamos mesmo para lá dos limites, o sistema ABS com função “cornering” ajuda a reequilibrar a moto sem nos obrigar a abrandar o ritmo em demasia. Diria que o ABS desta Café Racer é talvez a única ajuda eletrónica que realmente faz sentido numa moto deste tipo, uma segurança assinalável e indispensável.


Porquê o número 54 nas placas laterais da Ducati Scrambler Café Racer?

E se o caro leitor está curioso do porquê da Ducati colocar o número 54 nos porta números laterais da Café Racer, então eu tenho a resposta para si!

Em 1968 o piloto italiano Bruno Spaggiari competiu na corrida Montetemporada Romagnola, aos comandos de uma Ducati com um motor derivado do monocilíndrico 350 cc utilizado pela Scrambler dessa altura. Bruno Spaggiari obteve algumas vitórias e levou a casa de Borgo Panigale à glória, e o 54 na atual Scrambler Café Racer é a forma que a Ducati encontrou para homenagear o seu antigo piloto.

Agora já sabe a história que levou à escolha do 54.

Veredicto Ducati Scrambler Café Racer

Como café racer, esta beldade italiana acerta em todos os detalhes que tornaram estas motos tão procuradas pelos fãs de adrenalina nas corridas de rua dos anos 60. Aliás, não há nada melhor para exemplificar isso do que a quantidade de vezes que me questionaram num semáforo se a moto é mesmo assim de fábrica!

A qualidade dos materiais é irrepreensível, até mesmo nos detalhes que à maioria passam despercebidos como as soldaduras dos tubos de aço que fazem parte da estrutura treliça. A mistura de cores prata e azul elétrico é perfeita, principalmente o quadro em azul que se destaca do conjunto, e que permite também destacar um excelente motor bicilíndrico em L.

O Desmodue refrigerado a ar pode não ser surpreendente em termos de potência disponibilizada, mas é extremamente divertido de usar. Seja na cidade como fora dela, o motor revela-se amigável, e nem mesmo os condutores menos experientes terão qualquer problema para se sentirem confiantes e abrir acelerador a fundo. É uma moto que garante muita diversão.

Dito isto, não posso deixar de ficar com o pé atrás em relação ao preço pedido pela Scrambler Café Racer. Bem sei que hoje em dia este tipo de motos vale bastantee que ao longo do tempo a desvalorização tende, pelo menos para já, a ser bastante reduzida. Aliás, basta dar uma espreitadela ao mercado de motos usadas para ficarmos com um ataque de coração pelos preços pedidos pelas scrambler, street trackers ou até pelas café racers, sejam elas da cilindrada e ano que forem.

É verdade que a Ducati criou uma café racer que não nos obriga a fazer nada para termos uma moto de autêntico estilo retro e que oferece bem mais do que apenas o estilo. Mas a etiqueta com o preço tem 11.795€ lá escrito, um valor bastante maior do que as variantes Icon ou Full Throttle, que são basicamente a mesma moto com uma aparência diferente.

Suponho que estilo retro irrepreensível e capacidades dinâmicas interessantes tenham o seu preço.

Clique aqui para ficar a conhecer em detalhe as características técnicas da Ducati Scrambler Café Racer

Galeria de fotos Ducati Scrambler Café Racer

Neste teste utilizámos os seguintes equipamentos de segurança

- Capacete – Nexx XG.100 Carbon

- Blusão – Rev’it Overshirt

- Calças – Rev’it Lombard

- Luvas – Furygan Spencer D3O

- Botas – TCX Mood Gore-Tex


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