Bonneville T100 versus Interceptor 650 - Separadas à nascença

Estas Triumph e Royal Enfield fazem parte da categoria de motos clássicas modernas, ou seja, são duas motos actuais cujas linhas e filosofia evocam a era de ouro do motociclismo britânico da década de 60 do século vinte.

andardemoto.pt @ 21-1-2020 04:27:27 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: Luis Duarte


À primeira vista estas motos são muito semelhantes, podendo facilmente ser confundidas. Tanto a Triumph Bonneville T100 como a Royal Enfield Interceptor 650 são dois exemplares que ilustram bem toda uma era do motociclismo que se veio a tornar um culto e uma fonte de inspiração.

Blusões negros de cabedal decorados com inserções metálicas, anéis, correntes e brilhantina enfeitavam o cenário onde as motos com motores de dois cilindros paralelos eram rainhas de um universo de corridas de café e com quem os Rockers praticavam o Ton-Up, a sublime arte de preparar as suas máquinas para conseguirem ultrapassar a então quase inacessível barreira das 100 milhas por hora (a Ton),

Uma prática que originou modelos híbridos tão curiosos como as Triton (quadros Norton featherbed com motores Triumph) as Tribsa (motores Triumph com quadros BSA), as Norbsa (quadros Norton com motores BSA) ou as Norvin (quadros Norton com motores Vincent), numa busca desenfreada pelo equilíbrio perfeito.

Além da inquestionável semelhança do design e nostalgia da época de ouro do motociclismo britânico, em comum estas Triumph e Royal Enfield também têm o homem que acompanhou a sua criação.

Simon Warburton, quem durante mais de 17 anos esteve na liderança técnica da Triumph Motorcycles, em Hinckley, e que, desde Janeiro de 2015, se mudou para Leicester e se tornou o responsável máximo do departamento de desenvolvimento e investigação da Royal Enfield, desde que a marca do grupo Eicher Motors resolveu vir à conquista do mercado Europeu com uma nova gama de motos equipada com um novo motor bicilíndrico de média cilindrada.

Tendo em conta as diferentes filosofias dos seus fabricantes e a grande discrepância do seu preço de venda, com a Interceptor 650 a custar cerca de 40% menos que a T100, seria de esperar diferenças substanciais entre elas. Ou não?

Triumph Bonneville T100

Reeditada em 2002, a Triumph Bonneville T100 é um dos modelos com mais pergaminhos à venda no nosso mercado, já que remonta à Tiger 100, um modelo de 1939, desenhado pelo mítico Edward Turner, e que mais tarde, em 1959, deu origem à primeira T100, modelo que, com algumas variações, se manteve em produção até 1973.

Claro que a Triumph T100 actual nem sequer se pode comparar em termos dinâmicos, nem em termos de qualidade de construção, com as suas antecessoras. O índice tecnológico que encerra está prodigiosamente camuflado sob as nostálgicas linhas de design, e o excelente cuidado de acabamentos que presta uma elevada atenção ao detalhe.

Além disso proporciona um grande prazer de condução, revelando-se extremamente fácil de conduzir e manobrar. O seu motor, dotado de refrigeração por líquido, mostra uma grande regularidade de funcionamento, uma entrega de potência contundente, mas perfeitamente controlável, e consumos muito contidos. Conta com diversas ajudas electrónicas, como cruise control e modos de condução e um painel de instrumentos bastante completo.

A caixa de velocidades é muito suave e precisa no seu accionamento, ajudada por uma embraiagem assistida que torna a manete muito leve. 


No capítulo da travagem não há nada a apontar, mostrando-se muito competente ao permitir uma boa dosagem da manete e do pedal. A suspensão enfrenta de forma muito convincente os pisos mais degradados, mantendo também uma boa compostura em curva e sob travagem.

A ergonomia é perfeita para enfrentar a estrada com o vento a bater no peito, à boa moda de quem gosta de desfrutar de passeios relaxados. O conforto é reforçado por uma suspensão com bom desempenho em pisos degradados, punhos aquecidos e as já referidas ajudas electrónicas à condução. Como bónus ainda oferece uma banda sonora muito interessante a partir das carismáticas ponteiras de escape “pea shooter”, uma imagem típica do modelo.

Royal Enfield Interceptor 650

A Royal Enfield Interceptor 650 descende de uma linhagem igualmente nobre, já que a primeira versão deste modelo remonta a 1960, tendo-se mantido no catálogo da marca ao longo de 10 anos.

Claro que também as semelhanças deste novo modelo com o seu antecessor, em termos de desempenho, são praticamente inexistentes, e apesar de a marca ter apostado na simplicidade como forma de conter os custos, nem o prazer de condução nem a segurança foram minimamente sacrificados, e a Interceptor 650 revela-se extremamente dinâmica, e fácil de conduzir. 

Em termos de acabamentos não é nenhum espanto, mas tampouco desilude, resumindo na perfeição o princípio de “form follows function”, ou seja, a função define a forma, sem dar preferência a conceitos estéticos ou a detalhes demasiado cuidados. Tem nem mais nem menos que o essencial.

O mesmo acontece em termos de equipamento, estando despojada de qualquer ajuda electrónica à condução, excepção feita ao obrigatório ABS, facto que se reflete no painel de instrumentos que apenas oferece a informação básica.

O motor refrigerado a ar, debita menos potência que o da Triumph, tendo também um binário mais modesto, mas em andamento disfarça bem a diferença com a ajuda do mais baixo peso e da caixa de 6 velocidades que proporciona um melhor escalonamento que o da Triumph T100 que apenas conta com 5 relações.

O seu funcionamento é igualmente regular e a entrega de potência é igualmente bastante suave, apesar da resposta imediata e sem hesitações ao acelerador, graças a um sistema de injeção e ignição assinados pela Bosch.


A ciclística é suportada por um quadro desenvolvido pelos especialistas da Harris Performance que, a par com a suspensão genérica mas bastante eficaz, promove uma condução bastante divertida e um conforto muito aceitável em pisos mais degradados.

No que à travagem diz respeito, a Royal Enfield Interceptor 650 está também servida por equipamento de qualidade, assinado pela Brembo, ainda que na sua forma mais modesta, sob a insígnia Bybre (by Brembo), e cujo desempenho está perfeitamente ao nível do conjunto.

A ergonomia é típica do género, e o conforto é o expectável de uma moto que não tem qualquer protecção aerodinâmica. No entanto os comandos são leves e precisos. Por isso a Interceptor 650 presta-se mais a ritmos descontraídos. A sonoridade do motor, típica de uma ignição a 270 graus, tal como na Triumph, contribui para uma experiência de condução bastante agradável.



Digamos que, em termos de análise final, entre estes dois modelos há mais pontos em comum do que pontos divergentes. O conceito, a estética e a experiência de condução são muito semelhantes, e apenas em termos de equipamento e qualidade de construção, sobretudo ao nível dos pormenores, é que existem algumas diferenças mais evidentes e que consistem sobretudo no maior refinamento da Triumph.

A maior potência do motor permite retomas mais vigorosas e velocidades de ponta mais elevadas à T100, mas numa moto deste tipo esses factores não são verdadeiramente importantes. A simplicidade (e o menor investimento) da Royal Enfield Interceptor 650 pode ser atrativa para os fãs de personalizações mais radicais.

Mas são ambas excelentes opções para uma utilização frequente, em ambiente urbano ou para ir espalhar charme em pequenos passeios de férias ou fim-de-semana, e quem realmente gosta deste tipo de moto fica bem servido com qualquer uma delas.

Descubra as diferenças....


andardemoto.pt @ 21-1-2020 04:27:27 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: Luis Duarte


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