Teste Ducati Multistrada V2s - Personalidade própria

Como sobrevivem os modelos abaixo dos grandes nomes? Poderá a Multistrada V2 ser tão boa moto como a Multistrada V4? Mais não é melhor? Vamos responder a todas essas questões nas próximas linhas, fique connosco…

andardemoto.pt @ 30-3-2022 07:57:00 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte

Faça uma consulta e veja caracteristicas detalhadas:

Ducati Multistrada V2 S | Moto | Multistrada

A Ducati renovou o modelo de entrada na gama Multistrada. A sucessora da 950 ganha uma nova nomenclatura, homenageando o bicilíndrico em L Testastretta, perde peso, aprimora a electrónica e a ergonomia.

Ganha também as jantes da poderosa V4 e os espelhos. Embora parecendo pouco mais do que um restyling, a marca de Noale vai mais longe e consegue introduzir uma versão de 35 kW, para os detentores da carta A2.

O intuito é claro, tornar a V2 num produto acessível mas com a qualidade da família Multistrada, e foi esse o desafio a que nos propusemos. Menos é mais?


Comecemos por fazer um pequeno grande à parte, o modelo por nós ensaiado equipava umas suspensões semi-activas da Sachs, óptica full-LED com iluminação em curva, Quick-shift, ecrã TFT a cores de 5”, Cruise Control, e um sem número de pormenores de qualidade superior.

E tinha um grande S pintado na lateral. O argumento de moto acessível voou rapidamente pela janela, esta versão acrescentava mais uns milhares de euros à equação…
O design continua impactante como sempre, as formas voluptuosas mas esguias, o nariz pronunciado debaixo dos olhos rasgados, a sensação de encaixe perfeito dada pela imagem do assento “escavado” no chassis, a secção traseira limpa e desportiva. 


A Ducati Multistrada V2 continua a ser um regalo para os olhos, sobretudo neste cinzento antracite com as jantes vermelhas.

A qualidade de construção sente-se, os comutadores retro-iluminados, o ecrã deflector com uma perfeita operação a uma só mão, o assento do pendura com o lettering Multistrada, o design limpo nas informações dadas pelo TFT.
Nos primeiros metros percebemos o enfoque numa maior acessibilidade aos menos experientes, o assento está mais baixo e estreito (desceu dos 840 para os 830mm, sendo que existe ainda opção colocar um de 810 mm e outro mais alto, com 850 mm), e a nova embraiagem sente-se bem mais leve, fruto de alterações internas que também lhe permitiram ganhos de peso.

A nova V2 ganha 5kg (agora com um peso em ordem de marcha 225 Kg, nesta versão S) em relação ao modelo anterior, mas a sua agilidade sente-se desde as mais baixas velocidades.


Mas nem tudo são milagres quando rolamos devagar, o Testastretta continua com um diálogo difícil nas mais baixas rotações (sobretudo abaixo das 3000 rpm).

Mesmo tendo existido uma franca melhoria na afinação da injeção com o intuito de o suavizar, o bicilíndrico de 937 com distribuição desmodrômica continua rude e de personalidade suscetível quando tem de trabalhar pouco.

Os seus valores permanecem inalterados, continua com os mesmos 113cv às 9000 rpm e 94 Nm às 6750 rpm, exactamente o mesmo bloco utilizado nas Monster, Supersport e Hypermotard. 
O que o desculpa nesta preguiça rotacional inicial é o facto de ser dos motores mais envolventes da classe. Sente-se mecânico no seu funcionamento, vibrante no ruído da admissão, excitante na entrega.

É cheio de carácter, não tem preconceito com os seus números e mostra-o sem pudor. A boa parametrização do acelerador electrónico ajuda-o a comunicar as suas intenções, e os patamares de sensações dos modos Sport, Touring, Urban e Enduro estão bem escalonados. 



No mapa mais agressivo, a urgência na subida de rotação faz-se acompanhar de um rosnar que surge debaixo do depósito, uma experiência altamente viciante que nos faz querer repetir o gesto uma e outra vez.

A Multistrada V2 tem a quantidade certa de potência para conseguirmos puxar pela máquina com doses de diversão ímpares. Venha a mão cheia de acelerador, pois o sorriso surge natural e não assustado…

Aliado a um quick-shift que tem na sua assertividade mecânica a sua maior característica, precisa de ser actuado com convicção (e funciona tanto melhor com mais carga no motor), e temos um festival de pilotagem sem grandes filtros. Absolutamente brilhante, uma intemporalidade como máquina que nos faz ser cada vez mais irredutíveis na defesa dos motores a combustão.

Quando queremos ser mais fluídos, o modo Touring diminui o volume do concerto para níveis que conseguimos suportar durante horas a fio. Confortavelmente instalados, com uma qualidade de vida a bordo digna de um segmento superior, e com reserva de potência e vigor suficiente para dar dinamismo à viagem. 


Aqui entram os pormenores que fazem a diferença, um cruise control com actuação fácil e intuitiva e um ecrã defletor que mantém uma visão sem distorções quando vemos através dele.

São poucas as marcas que dão importância a este facto, mas a Ducati percebeu que a eficácia aerodinâmica não tem de ser ganha à custa de estranhas inflexões no acrílico, causando cansaço visual quando o olhar tem de se adaptar a um mundo deformado. Simples e eficaz, até na sua operação.

Uma verdadeira epifania descoberta por nós debaixo de uma viagem de 3h debaixo de chuva torrencial, onde o único abrigo possível era aquele pequeno grande vidro…

A componente ciclística que integra a personalidade forte da Multistrada V2 aprimora a sua capacidade de entrega de forma notável. E aqui a letra S destaca uns atributos muito especiais, as suspensões semi-ativas.


Associadas aos mapas de condução, a sua personalidade torna-se mutável, do dócil e complacente, ao assertivo e directo.

Adoptando as jantes de 19” nascidas na V4 (1,7 Kg mais leves) há uma boa relação entre tolerância na leitura das irregularidades do piso com uma boa inserção em curva.

As suspensões Sachs (com ⌀48mm e 170mm de curso em ambos os eixos) com tecnologia Ducati Skyhook são infalíveis a cumprir o seu propósito, seja a controlar os movimentos nas transferências de massa mais agressivas, seja no modo mais gelatinoso do mapa Urban, onde qualquer lomba ou tampa de esgoto desaparecem por milagre.

O melhor de tudo é a sua fácil parametrização, algo que a marca italiana já nos habituou, num interface fácil e acessível através do TFT colorido (com capacidade de conectividade ao smartphone).


Conseguimos definir (por eixo) exactamente o rácio entre desportividade e conforto consoante o mapa escolhido, assim como a pré-carga que tem um atalho dedicado para o efeito. Simples e práctica forma de definir a personalidade dinâmica da máquina.

Seguindo o mesmo raciocínio, toda a restante electrónica consegue ser modelada à nossa vontade. A intervenção do controlo de tracção (DTC) e do ABS é servida por uma Unidade de Medição Inercial, o cérebro digital que sabe exactamente qual é a posição da moto em cada milisegundo.

O sistema de travagem é entregue a uns Brembo M40 (maxila radial de quatro pistões a servirem dois discos flutuantes de 320 mm na dianteira, e Disco de 265 mm com pinça Brembo de 2 pistões na traseira) e apresentou-se absolutamente infalível, com ataque inicial forte e bastante progressivo na potência. Um gozo de utilização extensível ao bom feeling do travão traseiro, imprescindível para acertar trajectórias mais “optimistas”...



Agora era aquela parte em que vos contávamos o quanto o modo enduro nos fez sentido, mas em boa verdade, não foi esse o enfoque deste teste. Em primeiro lugar, porque os brilhantes Pirelli Scorpion Trail II são bons demais nos asfalto para poderem ser qualquer coisa de decente fora dele.

E em segundo lugar, porque não tínhamos protecções (ausentes no motor e carenagens e de plástico na zona do cárter) que nos assegurassem a confiança necessária para atacar os trilhos com mais empenho. Mas fica a nota que o Mapa Enduro permite umas escorregadelas, o ABS fica desligado na roda traseira e a suspensão torna-se bastante progressiva, tudo devidamente testado como manda a lei.

Em boa verdade, a valência que mais nos impressionou na nova Multistrada V2, foi a sua capacidade de se sentir bem na sua pele. É uma Sport Touring pura, e não foi o aparecimento da V4 que lhe retirou o brilho. Tivemos a possibilidade de fazer bastantes quilómetros aos seus comandos (alguns deles sob condições bem difíceis), permitindo dar azo a divagações motociclísticas sobre o quanto a potência é sobrevalorizada.

Não houve nenhuma situação em que sentíssemos que a máquina onde estávamos sentados estava aquém das nossas capacidades de condução no mundo real.

Se tudo na vida é uma gestão de expectativas, a Ducati Multistrada V2 surpreende pela sua entrega, seja pela sagaz resposta motriz, seja pelo diálogo eloquente da sua ciclística. Brilhante numa estrada de serra, onde o joelho técnico teima em surgir, a forma como se sente bem plantada e resolvida nas suas acções, só enaltecem a confiança na sua performance.
Em estrada aberta, a boa autonomia, o conforto de rolamento aerodinâmico, a certeza de uma disponibilidade motriz garantida, fazem dela uma boa companhia nas grandes tiradas. Poderia ter uma maior desenvoltura nas mudanças mais altas, galgando limites de velocidade a dobrar, carregada e com pendura?

Podia, claro, mas quantos o irão fazer? Para isso têm a musculatura da V4, com dimensões e valores bem mais intimidantes. 


Resta-nos ponderar o seu valor, e a sua competição directa, na certeza de que a Ducati assume que a sua última versão se quer mais acessível.

Seja na versão base (desde 14.795 €) ou nesta versão S (desde 17.395€), a Multistrada é mais cara que a concorrência. As malas e o aquecimento de punhos (assim como o descanso central que não estava montado na unidade ensaiada) fazem parte do pack Touring.

A sua qualidade de construção, performance geral e recém possibilidade de ser adquirida com carta A2 fazem com que não tenha receios de ser considerada a irmã menor da gama Multistrada.

Afinal, viver à sombra da grandeza não significa que não tenha uma personalidade própria!


Faça uma consulta e veja caracteristicas detalhadas:

Ducati Multistrada V2 S | Moto | Multistrada

andardemoto.pt @ 30-3-2022 07:57:00 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte

Galeria de fotos


Clique aqui para ver mais sobre: Test drives