Teste Moto Morini X-Cape 650 - Bela sem senão

A X-Cape marca o início de uma nova era para a Moto Morini. Para além da imagem poderosa, traz também argumentos bastante válidos para poder vingar no segmento das trail de média cilindrada. O legado da marca assim o merece.

andardemoto.pt @ 13-9-2022 07:56:00 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte

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Moto Morini X-Cape | Moto | Estrada

Depois de um tortuoso passado recente em que enfrentou o fecho iminente, veio do Oriente a possibilidade de fazer renascer uma marca com 85 anos de existência.

Em 2019, o Zhongneng Vehicle Group comprou a Moto Morini e deu início a uma nova fase, da qual se espera que mais modelos (para além dos grandes V-Twin) sejam anunciados, numa tentativa de alargar a oferta em segmentos de mercado mais estratégicos e competitivos.

E começaram em força, atacando uma tipologia de moto cuja aceitação tem estado em franca expansão nos últimos anos: as trail de média cilindrada. Em boa verdade conseguiram fazê-lo com estrondo, pois esta X-Cape causou bastante impacto quando foi revelada. 

A identidade estética e a qualidade ciclística (em que as suspensões, travões e outros componentes permanecem exclusivamente italianos, sendo que o bloco motriz é produzido na China) é apanágio de uma produção cada vez mais globalizada, não há que negar este facto.

Neste nosso mundo industrializado, temos de ter consciência que qualquer produto feito numa escala razoável, já não vem das mãos de pequenos grupos de artesãos.

A X-Cape é uma moto impactante quando vista ao vivo. As linhas angulosas contrastam com uma fluidez minimalista nas formas, nota-se uma clara preocupação estética nas proporções. A nota geral é de uma qualidade honesta, sem ostentação mas com claro orgulho no que apresenta.

A iluminação é full LED, não há grandes desleixos com a cablagem, por todo o lado temos pequenos apontamentos com o logotipo da marca e pormenores como o dos comutadores retro iluminados e uma ficha USB dupla surpreenderam-me pela positiva.

A segunda epifania foi a própria dimensão da máquina. Não revelando a sua cilindrada, os mais incautos diriam que era mais próxima de uma mil do que de uma 500. A Moto Morini X-Cape é robusta, e isso sente-se na sua deslocação a baixas velocidades. Afinal, sempre são 232 kg com o depósito de 18 L de gasolina na sua capacidade máxima.

A boa distribuição de peso ajuda a escamotear estes valores, sobretudo contando com a espaçosa ergonomia e boa acessibilidade ao solo que o assento de origem propõe (845 mm de altura, sendo que existe um opcional de apenas 820mm).

Antes de começar a rolar, mais uma boa surpresa. O enorme ecrã TFT de 7” domina o campo visual de modo exuberante, com os seus grafismos coloridos e informação bem esquematizada (de salientar a monitorização da pressão dos pneus). 

Não há mapas de motor para seleccionar nem ajudas à condução para parametrizar. A X-Cape não depende de algoritmos para nos mostrar o que consegue fazer. Temos apenas um ABS comutável na roda traseira e a possibilidade de emparelhar o smartphone via bluetooth (assim como os intercomunicadores), dando-nos dessa forma toda a liberdade para controlarmos os nossos apêndices electrónicos.


O conta-rotações, sob a forma de pneu de fora de estrada que vai ficando enlameado à medida que sobe de rotação, cola-me um largo sorriso no rosto. A ousadia de criar um display original merece todo o meu respeito.

Na estrada, a X-Cape ganha movimento sem engasgos nem soluços, o acerto da injecção é certinho e previsível. Rolamos no trânsito patrocinados pela desenvoltura do bicilíndrico (motor bicilíndrico paralelo com 649 cc, debitando 60 cv às 8250 rpm e 54 Nm às 7000 rpm), de resposta pronta desde as 2000 rpm, mantém a sua presença notada sem grandes quebras na atitude.

Não é a unidade motriz mais refinada, mas não transmite vibrações em excesso nem se nega quando é espremida. Tem aquela sensação de motor que vai até ao fim do mundo sem se queixar, e volta a pedir por mais. Mas tendo em conta a compostura ciclística e sobretudo a massa a deslocar, um pouco mais de sumo não lhe caía mal.

O epíteto de “Adventouring”, gravado nas carenagens laterais, assenta-lhe bem, contudo. Com relações de caixa longas, um vidro de protecção ajustável em altura (operação possível de realizar com uma só mão), e um conforto assinalável proporcionado pelo espaçoso assento, as longas tiradas serão uma realidade aprazível aos seus comandos. Até o passageiro goza de um generoso assento com pegas dedicadas. 

As suspensões (Forquilha Marzochi totalmente ajustável com ⌀50 mm e 160mm de curso, no eixo dianteiro e mono amortecedor KYB com 135 mm de curso, ajustável na pré-carga e extensão, na secção traseira) são muito bem dimensionadas para o conjunto. Temos o movimento pendular típico de uma trail, mas não há exageros nas movimentações em carga, sobretudo nas travagens mais pronunciadas.

Esta estabilidade e previsibilidade de reações beneficiam uma condução baseada na confiança, onde as irregularidades do piso são ignoradas com desfaçatez. Como é suposto fazer uma trail Touring certinha e bem comportada. 

Nada a apontar no capítulo da travagem, os Brembo (na roda da frente encontramos um disco duplo de ⌀298 mm, mordido por uma pinça flutuante de 2 pistons da Brembo, e na roda traseira temos um disco de ⌀260 mm) são bastante eficazes, com mordacidade e potência adequada aos acontecimentos.

Normalmente, os pneus mistos vendem imagens de heróicas travessias de rios e subidas intermináveis por caminhos impossíveis mas, neste caso, a personalidade asfáltica desta Moto Morini enaltecia-lhes a qualidade de construção e nunca cederam sobre pressão.

Os Pirelli Rally STR (110/80 R19 na roda da frente e 150/70 R17 na roda traseira) mereciam umas jantes de raios, e não as de liga de alumínio que a unidade ensaiada exibia. E se fossem douradas? Tudo é possível, diz a marca (está disponível uma Gold Wheels Edition!).


Aliás, dentro do catálogo de acessórios da marca temos todo um mundo pensado para as necessidades de qualquer aventureiro/viajante, desde malas e top-case em alumínio, vidro touring, crash-bars, protecções de punhos, proteção de cárter em alumínio, etc… 

Quando decidi desligar o ABS traseiro e entrar por maus caminhos, o conjunto agradou (lamentando a repetição)... pela previsibilidade.

As reacções das suspensões não são bruscas, o motor é linear e disponível, e a posição de condução em pé favorece qualquer tipo de estatura. Embora tenha uma distribuição de pesos bem conseguida, a X-Cape será sempre uma "adventure" de caminhos largos e bem compactados. 

Aqueles que procuram uma máquina mais eficaz nos pisos mais técnicos terão que saber lidar com uma inércia elevada. Mas não é isso que a marca promete…”Adventouring”, lembram-se?

A Moto Morini X-Cape consegue surpreender-nos com a sua vontade de agradar. Bem equipada, com uma imagem agressiva e bem actual, os seus argumentos têm a solidez de uma fórmula que não pretende ser baseada em extremismos.

Um motor competente, uma ciclística muito bem dimensionada para o que propõe, e um posicionamento bastante competitivo (desde 7190 €; versão Gold Wheels Edition por 7790 €) num dos segmentos mais competitivos do mercado. Não é preciso muito mais para ser um sucesso. 

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