Teste Kawasaki Z900 RS - Ode ao passado

A Kawasaki Z900 RS assume o seu tributo à lendária Z1, a icónica tetracilindrica que marcou a década de 70. Num mundo motociclístico bastante diferente, o regresso a um passado tão feliz, tem de ser muito bem conseguido. Estará a Z900RS à altura desse feito?

andardemoto.pt @ 18-10-2022 07:27:00 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte

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Kawasaki Z900 RS | Moto | Clássicas Modernas

Não vi muitas Kawasaki Z1 ao vivo (sou da geração de 80), mas o último exemplar de que estive próximo estava em condições de concurso.

Para além dos quatro escapes a fazerem linha com o mesmo número de colectores, e do duplo amortecedor traseiro de dimensões ridiculamente pequenas, o que me surpreendeu foi a desproporção das dimensões do motor em relação ao conjunto.

A Z1 parece pequena, o guiador alto surge proeminente à frente do bem esculpido depósito, e o espaçoso assento de aspecto confortável evoca-nos sofás de outras épocas. Há claramente um orgulho mecânico na ostentação da peça de engenharia motriz que a move, e os cromados que o revestem são prova disso mesmo. 

Hoje em dia, a parcimónia que compramos para degustar esta máquina visualmente, contrasta com a atitude desportiva com que nasceu. A Kawasaki Z1 era a tetracilindrica japonesa a quatro tempos mais potente da época (a primeira a nascer no oriente com dupla árvore de cames à cabeça) e vinha decidida a bater todos os recordes de velocidade (e vencer a concorrência, sob a forma de uma muito bem sucedida Honda CB 750). Muitos a apelidam da primeira Superbike.

A Z900 RS é uma clara aproximação a esse glorioso espírito de epopeia industrial, uma ode a uma época onde o desafio do desenvolvimento tecnológico acontecia alimentado pela rivalidade entre companhias concorrentes. Há um certo purismo nesta capacidade que os engenheiros tinham de inovar soluções sem recorrer à electrónica.

Talvez por isso, esta moto apenas venha “apenas” com controlo de tracção e ABS, mas já lá vamos…

Esteticamente, ninguém lhe fica indiferente. A silhueta retro (ou neo-clássica, o que lhe quiserem chamar) reclama a atenção pela sua sua simplicidade intemporal. As formas e a arquitectura da sua geometria denunciam-lhe a intenção, um grande quatro em linha com duas rodas. Mas a harmonia com que a soma das partes entrega o todo, é uma arte que o tempo lhe ensinou.

E a referência da Z1 está presente em pormenores tão específicos como os mostradores ou o formato da secção traseira que alberga o farolim. É indescritível a sensação de conforto emocional quando observamos dois ponteiros a subir alegremente numa escala de números.

Aquela magia analógica que nos transporta à primeira vez que rodámos o punho do acelerador e vimos a dança frenética da agulha a tocar no vermelho, lembram-se? Impagável. Claro que no meio dos redondos pedaços de história, temos um quadro digital (LCD de contraste negativo) com toda a informação que faz de nós uns meninos, porque é impossível andar de moto sem saber qual a mudança engrenada, o nível do controlo de tracção, ou quantos quilómetros faltam para ficarmos sem gasolina. 


O grande farol redondo esconde uma iluminação full LED (assim como os indicadores de mudança de direcção e farolim traseiro), e o pormenor da buzina em destaque não provoca o habitual choque estético, o revivalismo perdoa a audácia.Há uma razão lógica para não encontrarmos quatro saídas de escape ou um conjunto de amortecedores duplos.

A Kawasaki quis que esta moto tivesse um comportamento dinâmico contextual com a evolução do modelo. O monoamortecedor traseiro (com regulação pré-carga e extensão) está montado na horizontal através um link, dando espaço para um melhor posicionamento do catalisador (potenciando a centralização de massas e trabalhando em prol do Euro 5).

A forquilha invertida de 41mm de diâmetro é totalmente ajustável e trabalha no mesmo sentido, a eficácia comportamental.

De resto, temos um quadro em treliça que utiliza o motor como elemento estrutural e um conjunto de travagem bem dimensionado (Disco duplo dianteiro flutuante de 300mm com duas pinças de quatro êmbolos opostos no eixo dianteiro, e um disco de 250mm com pinça Nissin).

Aos seus comandos, a Kawasaki Z900RS revela-se uma moto adaptada aos tempos modernos. A sua volumetria e dimensão, contrasta com uma ergonomia simpática e acessível. As manetes são ajustáveis e a embraiagem (assistida e deslizante) tem uma acção suave mas directa. As pernas não se sentem excessivamente flectidas e estamos apoiados o suficiente no guiador para termos uma noção de propósito desportivo.

O assento (a 835 mm de altura) é espaçoso e bastante confortável, inclusive o do pendura (uma nota de carinho revivalista para as opcionais pegas cromadas que imitam as da Z1). Esta RS será sempre uma máquina que convida a longos passeios na marginal mais concorrida, com paragem no café mais badalado para poder ser admirada. 

O acelerador por cabo tem um toque demasiado brusco, sobretudo a frio. Esta foi uma das características com que mais me debati ao tentar suavizar a condução, sobretudo no seu acerto em curva. Há todo um mundo de deambulações que se seguem…

A Z900RS tem espírito desportivo. Os seus 111cv (conseguidos às 8500 rpm) extraídos dos 948 cc, são muito respeitáveis e entusiasmantes. Os valores de binário (98,5 Nm às 6500 rpm) acompanham esta reformulação do bloco de quatro cilindros em linha (utilizado na naked desportiva Z900), no intuito de o tornar mais utilizável nos médios e baixos regimes. O problema é que exageraram.

Às primeiras notas do vigoroso som do escape, sentimos um impulso violento, uma avalanche de ímpeto que requer habituação. Recordo que não há mapas de condução, mas basta imaginar uma superdesportiva no modo Sport no trânsito para ficarem com uma ideia. Com o motor frio (e a centralina a subir a rotação), torna-se quase imperativo trabalhar bastante a embraiagem para controlar as manobras a baixa velocidade.

Esta responsividade é absolutamente fantástica quando rolamos, a capacidade imediata de ganhar velocidade faz de nós os reis de qualquer ultrapassagem sem tocar na caixa.


Este motor canta feliz desde os baixos aos médios regimes, é um dos tetracilindricos mais elásticos que conduzi nos últimos tempos. Numa condução mais empenhada, a ciclística acompanha a orquestra, as suspensões têm um pendor mais desportivo que permissivo (mesmo após ajuste, as agruras da cidade não lhe agradam), e a travagem é soberba no seu controlo e potência.

A solução que encontrei para tentar ser mais fluido numa estrada revirada, foi abordar  as saídas de curva uma mudança acima, visto que temos motor de sobra. O ponto em que resolvemos a travagem e voltamos ao acelerador em curva requer um ajuste milimétrico no acelerador, sob pena de termos uma resposta demasiado brusca.

A Z900RS é uma moto fácil de conduzir, ainda assim? É, sem dúvida. Sabem quando vamos a casa do sogro e ele começa com aquela eterna discussão sobre futebol, e o nosso jogo de cintura faz-nos rapidamente mudar de assunto? Conviver com uma moto que tem uma personalidade vincada é igual, contornamos a questão potenciando as suas virtudes.

E esta moto tem muitas. Estável e sempre bem plantada, previsível nas reações e com uma alma generosa, a sua atitude dinâmica é muito fácil de perceber. Mas sim, deixem o controlo de tracção ligado no nível 2 (sendo o nível 1 mais permissivo, podendo também ser desligado) nos dias de chuva. 

O seu valor no mercado é assumidamente superior aos rivais directos. A Kawasaki Z900RS não é o único exemplo de personificação histórica, de continuidade de um legado, mas a sua aproximação (em estilo e sobretudo atitude) ao conceito original é absolutamente contemporânea. 

Marcando a sua presença, gosta de ser admirada e, em andamento, tem motivos para ser respeitada. A Z1 estaria orgulhosa. 

Equipamento:

Neste teste usámos o seguinte equipamento de proteção e segurança:

Capacete SPRINT Rocket

Blusão Sprint Logo

Calças RSW Peter

Luvas RSW MSL-008

Botas TCX Ro4d WP

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andardemoto.pt @ 18-10-2022 07:27:00 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte


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