Contra-ponto: Benelli Leoncino 500 Trail vs Brixton Crossfire 500 XC vs Voge 500 AC

Aproveitando a chegada ao mercado da Voge 500 AC, decidimos fazer um teste conjunto com algumas das motos de 500cc mais emblemáticas do nosso mercado. Em particular, aquelas que são fabricadas no extremo Oriente especificamente para o mercado Ocidental. “Ni hao”!

andardemoto.pt @ 3-1-2023 00:25:04 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte


Inauguramos deste modo a utilização da palavra “contra-ponto”. Porque acreditamos na magnífica capacidade ilustrativa da língua portuguesa, servimo-nos da sua riqueza para demonstrar uma dissertação que se encontra algures entre um comparativo e um jogo das diferenças.

Um contraste, uma análise de opiniões opostas sobre o mesmo assunto. Estes três modelos não podem ser comparados, mas no entanto, devem ser observados em conjunto pelas suas particularidades. Confusos?

Fôssemos nós crianças e estivéssemos numa loja de doces com 1€ na mão, qual seria a iguaria eleita? Esqueça o facto de que hoje em dia 1€ não dar para grandes cáries, e acompanhe-nos no delírio... 


Temos cerca de 7000€ para gastar, uma predilecção por motos com estilo e, mais importante ainda, uma carta com a tipologia A2. Outro pormenor relevante, a loja onde entramos tem como nome qualquer coisa como “Boa Fortuna”, ou “Mega Oriente”, e em vez de vender TUDO, apenas vende motos.

E com esta analogia, rejeitamos qualquer tipo de preconceito em relação à origem, até porque o paradigma recente da indústria motociclística (e não só) vive cada vez mais dependente da capacidade produtiva do grande Dragão asiático. A marca mais emblemática (com uma história que celebrou recentemente 110 anos) é a Benelli, que hoje em dia mantém a sua ligação à cidade italiana de Pesaro, mas que confia a sua produção ao grupo QJ (Qianjiang Group).

O modelo escolhido foi a versão mais polivalente da Leoncino, a 500 Trail. Jante de 19” raiada, uma maior altura ao solo e um compromisso assumido pelos maus caminhos, tendo como base um modelo de sucesso reconhecido no nosso mercado.

Brixton Crossfire 500 XC é a máquina que se segue. Com sede na Áustria, o grupo KSR tem na sua carteira nomes como Lambretta e, muito embora seja bastante recente, a marca Brixton surgiu no mercado europeu com vigor e atitude. 

Com produção chinesa, mas desenvolvimento exclusivamente europeu (inclusive no departamento motriz), a afirmação de qualidade a preços acessíveis é o mote que traduz os seus modelos. Esta scrambler é apanágio disso mesmo, o estilo anda de mãos dadas com componentes de qualidade superior.

Por fim, mas não em último, temos a novíssima Voge 500 AC. O grupo Loncin assumiu desde o início um compromisso de marca chinesa premium, entregando ao mercado ocidental a marca Voge, com modelos que conseguem rivalizar com as congéneres japonesas e europeias.

Esta 500 AC é a mais estradista das três motos aqui apresentadas, graças às suas jantes de liga com 17 polegadas, pneus dedicados ao asfalto e uma postura claramente desportiva. Está o cenário montado para um menu de degustação com sabor asiático. Três motos diferentes, com a Benelli e a Voge a assumirem-se como opostos na sua realidade e a Brixton como um híbrido, algures no meio do que podemos chamar uma utilização mista.

Tenha em atenção que as semelhanças são maiores do que as diferenças e, ao longo deste teste conjunto, vamos tentar explicar-lhe as especificidades de cada uma. Trouxe pauzinhos?


Comecemos pelas primeiras impressões que, como toda a gente sabe, são aquelas que perduram.
Esteticamente, qualquer uma delas apela a uma modernidade clássica, o chamado fenómeno “neo-retro”, que tanto está na moda. Vivemos numa época em que determinadas referências nos remetem a um conforto emocional e a associação mecânica a um passado feliz ganha cada vez mais sentido (sobretudo nas gerações mais jovens).

A Brixton é a mais cuidada das três neste propósito. A profusão de detalhes associados à marca, o escape clássico e até a placa lateral numerada, dão-lhe um ar atrevido. Nascida da versão estradista, esta Crossfire XC serve-se da sua jante dianteira de 19” com o pára-lamas elevado, pneus mistos (Pirelli Rally STR) e suspensões de maior curso para ganhar a nomenclatura de scrambler.

Nem faltam as habituais protecções para os eventuais loucos momentos de aventura (crash-bars, grelha de farol e uma mini protecção de carter). O guiador alto e o assento corrido (e bem giro, diga-se) completam um conjunto muito agradável à vista. Esta moto é sexy e sabe disso. 

Mesmo ali ao lado, temos uma italiana que também quer ter o seu protagonismo. A Benelli Leoncino 500 Trail assume a sua robustez e acaba por nos mostrar um lado mais sério, mais focado no seu propósito. Sente-se mais alta, mais proeminente nas formas e não parece tão frágil perante os humores do quotidiano.

Das três, é aquela que entrega uma sensação de durabilidade perante os maus tratos. A mais “trail”, digamos. A enorme forquilha de 50 mm de diâmetro (com a jante de 19” e pneus Metzeler Tourance) ajuda-nos a não ter grandes enganos na sua função.

Na sarjeta mais funda ou na poça mais enlameada, esta Leocino quer provar-nos do que é capaz. Mesmo sendo mais pragmática na sua essência, não deixa de nos brindar com pormenores estéticos que nos lembram a sua ascendência italiana, a terra das coisas bonitas. 

A Voge 500 AC (de Advanced Classic) utiliza o nome para nos explicar ao que vem. Uma naked dedicada ao asfalto (jante dianteira 17” montando uns Pirelli Angel GT) com linhas clássicas e vestimenta moderna. A traseira minimalista, a profusão de LEDs no farol dianteiro (iluminação full LED comum nos três modelos), a pintura mate que tanto está na moda, são tudo características que, quando misturadas, lhe moldam a personalidade.

A grande (e exclusiva) diferença a nível de equipamento reside na instrumentação. Um orgulhoso TFT colorido impera pela qualidade de informação prestada. Temos conectividade ao smartphone, monitorização da pressão dos pneus e até mesmo dois tipos de visuais à escolha.

Não sendo surpreendente no panorama motociclístico actual, neste caso destaca-se claramente das outras duas, que dispõem apenas de LCDs simples (sendo que o da Brixton é de contraste negativo, e o mais elegante no design).

Para além do tradicional ABS, nenhuma delas tem controle de tracção, nem anti-wheelie ou quick-shift. Temos mesmo de saber Andar de Moto para as "domar''.
Liguemos então os motores e deliciemo-nos com a brutalidade dos 35 kW disponíveis. Este é o número mágico (47 cv) que limita a hipótese de utilização pela carta A2. O contexto onde estas motos se movem é o dos condutores menos experientes, que saltam das 125cc para as motos maiores, ou até mesmo, aqueles que regressam às lides das duas rodas (num cenário mais romântico de procura da liberdade que nós tão bem conhecemos).

Portanto, não esperem fogo de artifício nas linhas seguintes. Estes bicilindricos paralelos servem-se da sua honestidade mecânica para nos entregarem doses recomendadas de diversão controlada. Mas conseguem fazê-lo com brio!  


A unidade motriz que se entrega de modo mais contundente é também aquela que é marginalmente maior na sua volumetria. Os redondos 500cc da Benelli (para 486cc da Brixton e 471cc da Voge) sentem-se cheios, com uma resposta constante ao longo de todo o espectro de rotações.

A tal facto não são alheios os maiores valores de binário (46 Nm, para 43 Nm da Brixton e 44,5 da Voge) e um acelerador com uma uma injecção bem aprumada. A Leoncino surpreende ainda com um veio de equilíbrio no motor (debelando vibrações) e uma nota de escape entusiasmante (fruto de uma maior harmonia na frequência das explosões e sobretudo pela ressonância da ponteira de escape).

A senhora que se segue a nível de entusiasmo é a Voge. Tem, de longe, o motor mais rotativo, quase frenético no último terço. Esta personalidade, aliada à caixa de velocidades curta, faz com seja a mais lesta nas acelerações (perdendo em velocidade de ponta… porque não se pode ter tudo!).

A Brixton não desilude, esforça-se por agradar e acompanha as outras duas sem grande esforço. O seu forte são os médios regimes, onde gosta de viver, mas o que sobressaiu foi a caixa de velocidades assertiva e directa, sem dúvida nenhuma a melhor do trio.
Mas de nada servem estas verdadeiras centrais nucleares se não existir uma gestão competente. Falamos, obviamente, da componente ciclística que as caracteriza. Dinamicamente, e sem surpresas, a Voge é a mais ágil e directa nas reacções, o baixo momento angular da roda 17” e a maior desportividade da posição de condução patrocinam esta atitude.

A travagem (sistema Nissin sobre disco duplo) não compromete o ritmo (manetes de travão ajustáveis nos três modelos) e a suspensão assume um pendor mais rijo, menos tolerante que as restantes. É aquela que nos deixa curvar com mais confiança no eixo da frente. 

No espectro oposto temos a Benelli. Algo vaga nas sensações da roda dianteira, as suspensões (sobretudo a dianteira) sentem-se ligeiramente mais bruscas e menos refinadas. Sendo a única do trio a montar o amortecedor directamente no braço oscilante tubular (sem link), é também a única que oferece um regulador de pré-carga remoto (e afinação de extensão). A travagem da Leoncino é claramente inferior às outras duas. 
A Brixton Crossfire XC é aquela que fornece o pisar mais confortável, mas não só. A suspensão dianteira totalmente ajustável transmite de forma correcta todas as movimentações ao condutor, uma vez que a jante 19” e os pneus mistos precisam de “espaço” para trabalhar.

Uma relação de confiança que é extensível à travagem, onde o sistema da J.Juan não se intimida por trabalhar num único disco dianteiro. A Crossfire acaba por preencher todos os requisitos de uma scrambler bem estruturada, com uma clara ajuda da sua ciclística. 

Para resumir e de certo modo enquadrar esta panóplia dinâmica, a Benelli Leoncino 500 Trail seria aquela em que confiávamos para umas atravessadelas nos estradões de acesso às praias, a Voge 500 AC para uma entusiástica estrada revirada e a Brixton Crossfire XC para as duas anteriores, com paragem obrigatória na esplanada mais badalada da avenida. 
Claro que nem tudo é assim tão simples. A Crossfire custa praticamente mais 1000€ que as outras duas (Brixton Crossfire desde 7799€, Benelli Leoncino desde 6780€ e Voge 500 AC desde 6695€) e justifica-o com componentes ciclísticos de qualidade superior.

Existirão certamente aqueles que trocam o glamour estético por um grande motor e robustez à prova de bala e, então, a Leoncino será a escolhida. E para os que ainda têm preconceitos em relação a máquinas vindas do Dragão Asiático, a Voge 500 AC irá certamente colocar-lhes mais questões do que a sua tacanhez consegue responder. Admirável Mundo Novo, este…


andardemoto.pt @ 3-1-2023 00:25:04 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte


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