A história das 800 vitórias da Honda no Mundial de Velocidade

Jaume Masia ofereceu à Honda o recorde de ser o primeiro fabricante na história do Mundial de Velocidade a conseguir 800 vitórias em Grandes Prémios. Um registo incrível que teve o seu início quando Soichiro Honda trouxe a sua Honda para o TT na Ilha de Man. Recordamos aqui alguns dos marcos mais importantes nesta história de sucesso.

andardemoto.pt @ 28-10-2020 17:52:06

O jovem e talentoso piloto espanhol Jaume Masia (Leopard Racing Honda) pode ter ficado mais satisfeito por ter amealhado os 25 pontos correspondentes à vitória na categoria Moto3 do Grande Prémio de Teruel.

Mas a verdade é que o papel de Jaume Masia na história da Honda nos Grandes Prémios vai muito mais além do que “apenas” uma vitória em Moto3.

Na realidade Jaume Masia será sempre recordado como o piloto que ofereceu à Honda, o maior construtor de motos a nível mundial, a sua vitória número 800 no Mundial de Velocidade! Um registo impressionante e que coloca o construtor nipónico como o primeiro fabricante a alcançar este pecúlio, e posiciona a marca fundada por Soichiro Honda num patamar extremamente elevado e quase inalcançável pelos rivais.

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Jaume Masia e a sua Honda NSF250RW de Moto3 conseguem este recorde impressionante, se calhar um recorde que muitos acreditavam que seria Marc Marquez a conseguir obter. Infelizmente o sete vezes campeão de MotoGP está lesionado, mas tem ele próprio uma quota parte muito relevante no número de vitórias em Grandes Prémios com assinatura da Honda.

Vamos por isso relembrar um pouco da história do motociclismo e de como a Honda se tornou no primeiro fabricante a atingir as 800 vitórias em Grandes Prémios. Se gosta de boa leitura e de conhecer a história das duas rodas, então não pode perder o que preparámos para si!

A marca fundada por Soichiro Honda em 1948 rapidamente alcançou enorme popularidade com os modelos criados pelo seu fundador. Soichiro Honda, desde jovem um apaixonado pelos motores e diferentes tipos de veículos, demonstrou ser um “expert” na forma de planear o crescimento da Honda, e não perdeu muito tempo até demonstrar a valia das suas criações no mundo da competição.

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Honda na Ilha de Man em 1959

Honda na Ilha de Man em 1959


As primeiras motos de competição Honda apenas competiram em eventos domésticos. As vitórias em corridas como Monte Fuji ou ainda nos eventos Asama Plains, em pisos de terra, não foram suficientes para saciar o desejo de conquistas internacionais. Assim, Soichiro Honda disse isto: “Não quero só vencer aqui no Japão. Quero vencer em todo o mundo. Se for número um em todo o mundo, também o serei aqui no Japão!”.

Foi assim que em 1954 a Honda, pela voz do seu fundador, anunciou que iria entrar nos palcos internacionais de forma oficial. O Tourist Trophy na Ilha de Man, à data a prova de motos de maior prestígio em todo o mundo, era o objetivo.

"Hoje realizámos um sistema de produção no qual temos plena confiança e chegou agora a altura de entrar na competição", escreveu Soichiro Honda. "Decidi que a nossa marca vai participar nas corridas de TT do próximo ano (1955)! Este é um objetivo difícil, mas temos que o alcançar para testar a viabilidade da tecnologia industrial japonesa e para a demonstrar a todo o mundo. A nossa missão é servir de exemplo a toda a indústria japonesa. Expresso aqui toda a minha intenção em participar nas corridas de TT e declaro juntamente com os meus colegas de trabalho que colocarei toda a minha energia e poderes criativos ao serviço da nossa vitória”.


A intenção de competir no TT da Ilha de Man em 1955 não passou disso mesmo, de uma intenção. Soichiro Honda visitou este evento britânico e ficou surpreendido com a performance das motos italianas e britânicas. Regressou ao Japão, e com a sua equipa de trabalho colocou como fasquia para uma moto competitiva e vencedora uma potência de 17 cv.

No ano de 1958 deu-se início ao desenvolvimento da RC140, uma bicilíndrica de 125 cc. Os engenheiros da Honda precisaram de alguns meses até conseguirem atingir, e até ultrapassar, a potência pretendida por Soichiro Honda. Em outubro desse ano a RC140 atingia os 20 cv.

No ano seguinte entrava na categoria Ultra-Lightweight no Tourist Trophy.

Naomi Taniguchi terminou a corrida em sexto lugar, averbando o último ponto, à frente de três companheiros de equipa. Giichi Suzuki foi sétimo, Teisuke Tanaka foi oitavo e Junzo Suzuki foi 11º. Este foi um resultado impressionante para o grupo e que rendeu à Honda o prémio Ultra-Light TT por equipas logo à primeira tentativa.



Longe das vitórias internacionais tão ambicionadas pelo fundador, a Honda esperou até 1960 para então inscrever uma equipa a tempo inteiro no Mundial de Velocidade. Essa primeira temporada incluiu a RC143 de 125 cc e a tetracilíndrica RC162.

Em Julho de 1960, Teisuke Tanaka fez história ao conquistar o primeiro pódio para Honda no Mundial de Velocidade, com uma excelente terceira posição no Grande Prémio da Alemanha Ocidental. Apesar dos resultados melhorarem, a ilusiva vitória continuava por aparecer...

Até que em 1961, mais propriamente em abril desse ano, o piloto australiano Tom Phillis venceu o Grande Prémio de Espanha aos comandos de uma RC144. A primeira vitória Honda no Mundial de Velocidade! Não foi preciso aguardar muito tempo para chegar a segunda vitória, por intermédio de Kunimitsu Takahashi, mas neste caso na categoria 250 cc.

Um mês depois, Mike Hailwood celebrou a primeira glória da Honda no TT, aos comandos de uma RC162. A Honda também conquistou as cinco primeiras posições: Hailwood, Phillis, Jim Redman, Kunimitsu Takahashi e Naomi Taniguchi.


A Honda teve o seu maior sucesso em 1966, quando as suas máquinas venceram os Campeonatos Mundiais de Construtores de 50, 125, 250, 350 e 500 cc, uma conquista ímpar e sem precedentes. As motos usadas em época de 1966 representavam o auge das performances da potência por litro em qualquer setor do desporto motorizado: a RC116 50 de dois cilindros, a RC149 125 de cinco cilindros, a RC166 de seis cilindros e as RC173 250 e 350 e a RC181 500.

A RC149 produzia uns incríveis 270 cv por litro às 20.500 rpm, transferidos para a estrada por meio de uma caixa de oito velocidades. Passado mais de meio século, os protótipos de MotoGP mais potentes e atualmente em competição produzem cerca de 290 cv por litro.

A mais famosa de todas as motos Honda era a 250 de seis cilindros, conhecida pela sua incrível sonoridade de escape e também pelas vitórias no campeonato mundial com Hailwood aos comandos.

Em 1966, a Honda entrou pela primeira vez na categoria principal de 500 cc. Redman levou a RC181, uma moto rápida, mas difícil de pilotar, à vitória logo na sua primeira corrida, o GP da Alemanha Ocidental, mas lesionou-se na prova belga. Isto viria a custar à Honda o título mundial.


Ainda faltava a Soichiro Honda realizar o seu sonho de vencer o Campeonato Mundial de Pilotos na classe rainha.

Depois de uma ausência de quase uma década dos palcos internacionais de motociclismo, tempo em que se concentrou na sua gama de motos de estrada mas também no projeto de Fórmula 1, a Honda regressou à competição na Taça de Resistência FIM em 1976. O regresso ao Mundial de Velocidade apenas aconteceu em 1979.

Nesse regresso a Honda entrou decidida a bater os rivais com uma moto totalmente diferente do que era usado então na competição. A NR500, com motor a quatro tempos, apresentava pistões ovais no interior do motor V4, entre outros detalhes mecânicos que a tornaram numa lenda.

Mas a NR500, apesar de todos os avanços tecnológicos e toda a sabedoria dos mais talentosos engenheiros japoneses, nunca venceu uma corrida. A Honda admitiu a “derrota” e decidiu então bater os rivais com uma moto a dois tempos: a NSR500.


Durante os quinze anos que se seguiram, as diferentes versões, constantemente em evolução do motor V4 a dois tempos ganharam mais de 130 GPs e 21 Campeonatos Mundiais de Pilotos e Construtores. A lista de campeões mundiais que pilotaram a NSR500 inclui Freddie Spencer, Wayne Gardner, Eddie Lawson, Mick Doohan, Alex Criville e Valentino Rossi.

A NSR500 de 1985 tinha uma configuração mais convencional do que a versão original. Esta moto levou Spencer a vencer o título mundial. Ao mesmo tempo, pilotou a novíssima NSR250 e venceu o título da categoria de 250 cc. Nunca nenhum outro fabricante logrou vencer em simultâneo os títulos de 250 e de 500 cc.

A NSR250 e a RS250RW conquistaram muitos mais sucessos, vencendo mais de 160 Grandes-Prémios, 11 Campeonatos Mundiais de Pilotos e 14 Campeonatos Mundiais de Construtores, ambos na categoria de 250 cc. A lista de pilotos que se sagraram campeões aos comandos da NSR250/RS250RW inclui nomes como Spencer, Sito Pons, Luca Cadalora, Daijiro Kato, Dani Pedrosa e Hiroshi Aoyama, que conquistou o último título de 250 cc em 2009.



Em 1987 a Honda regressou à classe de 125 cc, a primeira vez em 21 anos. A moto era uma RS125R monocilíndrica a dois tempos. Este modelo veio a tornar-se uma das motos de Grande Prémio mais importantes de todos os tempos, porque ajudou milhares de pilotos em todo o mundo a competir, em tudo, desde o MotoGP, às provas de Club Racing. A RS125R venceu mais de 130 GPs e levou muitos grandes pilotos à conquista do título de 125 cc, incluindo Loris Capirossi, Haruchika Aoki e Dani Pedrosa.

Em 1989 a RS125R ajudou a Honda a assumir o domínio total dos Grandes Prémios pela primeira vez desde 1966, com a marca nipónica a conquistar o Campeonato do Mundo de Construtores de 125, 250 e 500 cc.

Em 1992 a Honda assinalou uma nova era com um novo protótipo de motor para a NSR500.

O denominado motor big-bang usava uma configuração de ignição revista e debitava a sua potência de uma forma mais suave. Esta moto levou Mick Doohan a conseguir um histórico de cinco títulos mundiais consecutivos na categoria rainha dos 500 cc, entre 1994 e 1998, e ajudou Valentino Rossi a conquistar o último Campeonato do Mundo de 500 cc em 2001.


Depois chegaram as MotoGP, com os seus motores a quatro tempos e mais amigos do ambiente.

A primeira moto da Honda para esta nova era foi a RC211V, uma máquina V5, uma conceção de motor radical, e que venceu 29 das primeiras 32 corridas de MotoGP, bem como os Campeonatos Mundiais de Pilotos e Construtores de MotoGP de 2002 e de 2003.

Este conceito invocador permitiu a um leque alargado de pilotos retirar o máximo partido da RC211V. Alex Barros, Max Biaggi, Toni Elias, Sete Gibernau, Nicky Hayden, Marco Melandri, Dani Pedrosa, Valentino Rossi, Makoto Tamada e Tohru Ukawa todos venceram provas aos comandos desta moto. Em 2006 Hayden venceu o terceiro título da RC211V. Ao mesmo tempo esta moto conquistou o quarto título de construtores de MotoGP da Honda em cinco anos.

2007 marcou novamente um tempo de mudança no MotoGP. Os motores deixaram de ser os 990 cc e os fabricantes tiveram de apresentar motores de apenas 800 cc. A Honda mostrou então a nova RC212V, moto que, ao contrário da RC211V, não se revelou num sucesso imediato.


Foi necessário esperar que Casey Stoner chegasse à Honda em 2011 para a marca de Soichiro Honda voltar a conquistar o título de pilotos de MotoGP. Andrea Dovizioso e Dani Pedrosa também venceram nessa temporada, e assim a Honda reclamou para si o título de construtores.

Em 2012 os motores voltaram a aumentar de cilindrada, desta feita para os 1000 cc. Com isso nasceu a atual RC213V, com um potente motor V4. Casey Stoner quase conquistou o título, mas não o conseguiu. Mas com a chegada do prodígio Marc Marquez ao MotoGP, em 2013, a Honda voltou a ser a grande dominadora da categoria rainha.

Marc Marquez venceu logo no seu ano de estreia, e depois disso somou mais seis títulos de pilotos de MotoGP. Durante um período de ouro a Honda conquistou sete Campeonatos Mundiais de Construtores de MotoGP entre 2012 e 2019. Este último título de construtores foi o 25º da Honda na categoria rainha, mais um marco histórico.

Em reação ao novo recorde de vitórias em Grandes Prémios, Takahiro Hachigo, CEO da Honda, disse o seguinte: “Estou muito orgulhoso da 800ª vitória da Honda em Grandes Prémios do Campeonato Mundial de FIM. Estou profundamente grato aos fãs da Honda em todo o mundo pelas suas contribuições e apoio inabalável para as atividades desportivas da Honda. Também gostaria de agradecer a todos aqueles que nos precederam pela sua paixão e dedicação para superar as inúmeras dificuldades e conquistas desde 1959 até onde estamos agora. A Honda vê esse momento como um ponto de referência e continuará a lutar sempre pela vitória. Obrigado a todos pelo contínuo apoio”.

Lista de vitórias marcantes da Honda nos Grandes Prémios


1ª vitória Honda em Grandes Prémios
Tom Phillis, 1961 Grande Prémio de Espanha, 125cc GP, Honda RC143

100ª vitória Honda em Grandes Prémios
Luigi Taveri, 1966 TT Holanda, 50cc, Honda RC116

200ª vitória Honda em Grandes Prémios
Jimmy Filice, 1988 Grande Prémio dos Estados Unidos, 250cc, Honda NSR250

300º vitória Honda em Grandes Prémios
Alex Criville, 1992 Grande Prémio da Holanda, 500cc, Honda NSR500

400ª vitória Honda em Grandes Prémios
Haruchika Aoki, 1996 Grande Prémio do Brasil, 125cc, Honda RS125R

500ª vitória Honda em Grandes Prémios
Valentino Rossi, 2001 Grande Prémio do Japão, 500cc, Honda NSR500

600ª vitória Honda em Grandes Prémios
Dani Pedrosa, 2005 Grande Prémio da Austrália, 250cc, Honda R250RW

700ª vitória Honda em Grandes Prémios
Marc Marquez, 2015 Grande Prémio dos Estados Unidos, MotoGP, Honda RC213V

800ª vitória Honda em Grandes Prémios
Jaume Masia, 2020 Grande Prémio de Teruel, Moto3, Honda NSF250RW

andardemoto.pt @ 28-10-2020 17:52:06


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