Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

Respeito Motard Feminino

Este artigo não tem como objetivo enaltecer todas as mulheres que andam de mota. Na verdade, é uma chamada de atenção para algumas mulheres que andam de mota. Existem dois temas que merecem uma reflexão urgente.

andardemoto.pt @ 19-9-2018 17:35:50 - Márcia Monteiro

Não compreendo o porquê de se criarem grupos, clubes de motas e afins, especificamente direcionado para as mulheres. Não só não compreendo como sou completamente contra esta distinção. Nós mulheres passamos anos da nossa história em luta pela igualdade de direitos e infelizmente este estatuto ainda não chegou à maioria dos países. 

Todos os anos se realizam manifestações em todo o mundo para darem continuidade a esta luta sem fim à vista e enquanto a humanidade feminina tenta rumar no sentido da igualdade eis que surgem os grupos de motociclistas de mulheres a promoverem cada vez mais essa diferença e desigualdade. 

Para todas as que menosprezam a igualdade e acham divertido ter um grupo feminino de motociclistas, partilho uma curiosidade: sabem porque é que um dos símbolos dos motards são caveiras? Porque o motociclismo é um símbolo de igualdade, significa que somos todos iguais. Não importa a cor da pele, a raça, a religião, a posição social nem o género. As caveiras mostram-nos que independentemente de qualquer estereotípico, somos todos iguais na nossa Essência e como tal não podemos admitir qualquer tipo de preconceito. 

Nós mulheres temos o dever de promover essa igualdade e não o contrário. Vamos suportar e apoiar os grupos mistos em prol daquilo que a irmandade motard defende.


Sinto um arrepio na espinha quando vejo uma mulher a andar de mota de calções ou t-shirt

Importa também referir que sou motociclista há 16 anos, já participei num número incontável de concentrações motards de norte a sul do país, encontros de motociclistas, eventos, passeios, convívios e... conto pelos dedos das mãos o número de mulheres com a verdadeira Essência de Motociclistas/Motards que conheço. Cada vez mais me entristece o número crescente de mulheres que andam de mota sem a verdadeira Essência porque no fundo estão a desvirtuar toda uma irmandade que levou anos e anos a ser construída.

Mas, os homens também têm a sua quota parte de culpa. Todos nós conhecemos mulheres que começaram a andar de mota porque “é cool” ou “é sexy” ou “o meu namorado/marido/amigo também anda” ou porque “fico poderosa em cima da máquina”. Todos nós temos consciência que uma parte das mulheres que andam de mota fazem-no por uma questão de “status” e esse mesmo “status” é alimentado também pelos homens.

Sinto um arrepio na espinha de cada vez que vejo uma mulher a andar de mota de calções ou de t-shirt, não consigo compreender tamanha irresponsabilidade perante a sua própria vida e segurança. Também me faz alguma confusão que tantas mulheres continuem a usar as motas para enaltecerem a sua feminilidade (ou rebeldia talvez) através do uso de trajes menores enquanto conduzem as suas máquinas. Depois vêm as fotografias ousadas, os calções curtinhos, os eventos patrocinados, a busca incessante de protagonismo, as redes sociais, os “gostos” ou as “partilhas” até que chegamos ao cúmulo de assistirmos a vídeos em direto com uma mão no punho e outra no telemóvel...

E eu pergunto: será que estas mulheres perderam a noção da realidade? É preciso uma lente apontada a estas mulheres para simplesmente conduzirem uma mota? É preciso um patrocínio para simplesmente disfrutarem do vento que percorre os seus cabelos? É preciso criar este tipo de distinções femininas para manifestarem a liberdade que sentem quando conduzem uma mota? É preciso a aprovação de terceiros (em alguns casos dos homens) para afirmarem que conduzir uma mota é uma paixão pessoal? Porque é que vemos tantas mulheres a adotarem estas condutas irresponsáveis com as motas e não o fazem, por exemplo, com os seus carros? Pois bem, por agora os carros ainda não dão esse “status”. A isto se chama: falta de respeito motard.


Está nas nossas mãos mostrar o que é sentir a paixão e o respeito pelas motas.

Para sermos mulheres genuinamente motociclistas / motards, não podemos viver de aparências nem adotar condutas irresponsáveis ou exibicionistas. Isto não é a verdadeira Essência da paixão pelas motas... é simplesmente estupidez. Está nas nossas mãos alterar este cenário e voltarmos a mostrar o que é sentir, verdadeiramente, a paixão e o respeito pelas motas.

Até quando, nós mulheres, as motociclistas / motards genuínas, vamos permitir que outras mulheres continuem a desrespeitar a nossa irmandade em prol de um exibicionismo que nunca fez parte da nossa forma de estar? Até quando os homens vão continuar a apoiar este tipo de condutas quando eles próprios sabem que é impossível retratar a paixão pelas motas através de uma imagem estereotipada ou de condutas irresponsáveis? É preciso respeitar a nossa irmandade e temos que respeitar as máquinas que conduzimos todos os dias. 

Cabe a cada um de nós alimentar condutas e comportamentos que respeitem as nossas próprias vidas tais como a condução responsável, o uso de equipamento apropriado ou a igualdade de géneros. É por isto que temos lutado desde sempre. Assumirmos que somos motociclistas é também assumirmos que somos responsáveis pelas nossas vidas.

Por isso o meu conselho é: esqueçam tudo o resto...não tenham medo de pegarem nas vossas motas sozinhas e disfrutarem dos passeios com vocês próprias. Não tenham medo de estarem 100% focadas na condução enquanto todos os problemas das vossas vidas desaparecem por breves momentos.

Não tenham medo de fazer novos amigos, de prestarem auxílio quando assim for preciso, de desenvolverem atitudes de camaradagem. Não tenham medo de serem quem vocês são. Mas acima de tudo respeitem a vossa vida e a vossa máquina. E vivam... vivam com muita intensidade porque a paixão que nos move está refletida em duas rodas.

andardemoto.pt @ 19-9-2018 17:35:50 - Márcia Monteiro