Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

A superação do Portugal de Lés a Lés Offroad

Será que é possível conhecer o nosso país através de uma perspetiva diferente, chegando a locais onde dificilmente chegaríamos de automóvel? Será que é possível explorar as regiões mais recônditas conhecendo aldeias e povoações, convivendo com os residentes locais, partilhando histórias e experiências? Será que é possível estar em perfeita comunhão com as mais belas paisagens nacionais onde provavelmente nunca chegaríamos se não fosse numa mota de todo o terreno? Sim é possível!

andardemoto.pt @ 30-1-2022 09:30:00 - Márcia Monteiro

O “Portugal de Lés-a-Lés Off Road” proporciona tudo isso e muito mais. Trata-se de um passeio mototurístico organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal que, tal como o nome indica, percorre Portugal de Lés a Lés num trajeto com cerca de 1.000km em apenas 3 dias. Atualmente é considerado o maior evento mototurístico da Europa fora de estrada e este ano contou com a participação de cerca de 420 pilotos, nacionais e cada vez mais estrangeiros. Embora esta iniciativa não tenha fins competitivos, eu acredito que tem esse fim: um fim competitivo connosco próprios, sendo uma prova de superação pessoal.

É sempre difícil colocar em palavras aquilo que se vive (e sente) no Portugal de Lés a Lés Offroad. Vou poupar-vos a descrição dos locais porque essa informação já foi difundida em diversos meios. Perguntam-me muitas vezes se é duro... sim claro que é. Acordar todos os dias às 6h00 quando o sol ainda nem despertou, sentir as dores musculares a intensificarem-se, dia após dia, os calos nas mãos, o cansaço, a condução que às vezes ultrapassa as 8h diárias, a ansiedade em conseguir concluir mais uma etapa ainda antes de anoitecer e no dia a seguir... tudo se repete. Mas não desanimem porque no meio de tudo isto, há algo que nos faz sempre voltar.


Recordo-me de iniciar a primeira etapa em Montalegre com as estrelas a brilharem no céu. A travessia transmontana teve tanto de percursos técnicos com escarpas de pedra solta como de chuva. Mas desistir não era opção. No segundo dia a chuva ameaçou, mas ficou-se pela ameaça... as ingremes subidas na Covilhã presentearam-nos com um arco-íris que me sussurrava “vai correr tudo bem”. E não me enganei. Depois da passagem pela Vila Velha do Rodão, era notório que estávamos a entrar no Alentejo. Oh como eu adoro o Alentejo. Começaram a surgir os primeiros estradões e a ânsia de rodar punho era cada vez maior. O quanto me diverti. Terceiro e último dia, cansaço acumulado e o início da etapa mais longa feita num Lés a Lés Offroad até hoje: 360km. Desta vez o pó não deu tréguas e formaram-se verdadeiras cortinas na Serra Algarvia que lá do alto nos permitia visualizar os km de extensão por onde esta enorme caravana estava a passar. Finalmente a chegada a Lagoa onde somos recebidos pela organização, colegas, amigos e até curiosos. 

Para mim esta iniciativa é um misto de alegria com exaustão, adrenalina com “podia ter feito melhor”, sorrisos rasgados com suor de esforço… o corpo é levado muitas vezes ao limite, mas a mente… ahhh a mente, é posta à prova constantemente. E é precisamente aqui que reside o grande desafio. Conseguir seguir em frente quando o corpo pede descanso, avançar quando as vezes só apetece encostar a moto, estar 100% focada no track e ao mesmo tempo desligar da “vida comum”, acreditar que somos capazes mesmo quando vemos outros colegas com uma prestação muito superior. Poder viver todas estas emoções é algo que nenhum dinheiro no mundo pode pagar. Foram 1.000km desafiantes e divertidos de Montalegre até Lagoa. O nosso país é incrível e há tanto para explorar. Isto é o desporto motorizado em perfeita comunhão com a natureza, o espírito de ajuda entre pessoas que não se conhecem, as histórias que ouvimos, as experiências que partilhamos, mas acima de tudo a satisfação do objetivo cumprido. Por tudo isto e muito mais, o Lés a Lés Offroad é, acima de tudo, uma prova de superação pessoal e não há nada tão gratificante como sabermos que conseguimos.

Fotografias da autoria de Paulo Ministro.

30-10-2021


andardemoto.pt @ 30-1-2022 09:30:00 - Márcia Monteiro

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