Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Voltar a Andar de Moto após episódio traumático

Não é preciso olhar para as estatísticas ou para as tabelas das seguradoras (as conhecidas bónus/malus) para se perceber que andar de moto comporta riscos...

andardemoto.pt @ 29-1-2022 12:10:41 - Pedro Pereira

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Andar de moto implica riscos mesmo quando somos bastante cuidadosos na condução e adotamos uma postura defensiva.

Torna-se até compreensível que muitos pais e educadores tentem, por todos os meios, que os seus adolescentes e jovens evitem as motos, sobretudo naquela fase da vida em que a irreverência e a irresponsabilidade são maiores…

Resumindo o óbvio: o prazer, a liberdade, a rapidez e o bem-estar que andar de moto proporcionam têm associado um risco significativo de acidente/queda/despiste com consequências mais ou menos graves.

Dito de forma popular e algo exagerada, existem 2 tipos de motociclistas: os que já caíram e os mentirosos/as!!!

Situações traumáticas ligadas às motos

Dispensa-se ter passado por um Centro de Reabilitação após acidente, sofrer a amputação de um membro ou de assistir à morte de um/a Colega motard para que uma situação desta natureza seja geradora de um forte stress pós-traumático. Facilmente a recuperação se torna complexa e é necessária ajuda médica especializada. 

Situações de um grande trauma (físico, psicológico ou ambos) causado por um acidente de moto podem gerar um impacto tão forte que há casos de pessoas que perderam a confiança e nunca mais voltaram a andar de moto, seja a conduzir ou à pendura!

Pode até ser uma situação que não é na primeira pessoa ou, se for, nem ter tido grandes consequências do ponto de vista físico ou mesmo materiais. Porém, a pessoa pode perder a motivação, o medo instala-se e não há coragem para continuar a andar de moto, sendo a recuperação algo muito pessoal e um processo mais ou menos moroso!

Dando um exemplo na primeira pessoa, passei por um episódio desses em que um Colega motard acabou por falecer ao pé de mim (tenho muitas saudades dele e já se passaram alguns anos). O trauma foi tão grande que, naquela altura, acabei por vender a minha moto! Simplesmente, tinha dificuldade em andar nela e quando andava não tinha prazer nisso!

Mais tarde, fui recuperando e acabei por comprar outra moto, mas a mágoa nunca mais se apagou e aquele acontecimento mudou para sempre a minha forma de olhar para o mundo das motos e os riscos que corremos, alguns deles perfeitamente evitáveis!

Lembro-me também de uma pessoa próxima, que nem sequer anda de moto, ter tido um acidente em que foi uma moto que veio embater no carro dela (estava parada) e o motociclista até sobreviveu e ela foi visitá-lo ao hospital, onde ele esteve internado e em coma durante bastante tempo… 

Ela ainda hoje se assusta um pouco de cada vez que ouve uma moto mais próxima ou a vê “furar” alguma fila de trânsito, ao lado do seu carro! Ou seja, o stress pós-traumático nunca desapareceu por completo e confidenciou que nem quer ouvir falar da hipótese dos filhos, ambos adolescentes, andarem de moto. Diz que se o fizerem que os expulsa de casa e, se for o marido… pede o divórcio!

Quem sofre, de forma mais ou menos direta, este tipo de trauma pode ficar debilitado, seja por cansaço físico, seja por fatores orgânicos ou emocionais e a necessidade de ajuda profissional aumenta, sendo fundamental que a pessoa assuma a sua condição de paciente. 

Além disso, a busca de “soluções alternativas”, como o consumo excessivo de álcool, drogas ou medicamentos aumenta a instabilidade emocional, cria dependências e dificuldade de adaptação, com efeitos na vida pessoal, familiar e profissional ou nas relações humanas...



Nem quero imaginar como teria sido, por exemplo, um dia destes, ter atropelado mortalmente o praticante de BTT que me surgiu à saída de uma curva, num trilho de fora de estrada,. Ele vinha todo feliz, completamente fora de mão, e consegui desviar-me por milagre ou instinto, nem sei bem! Já nem me refiro às questões legais e burocráticas decorrentes do embate!

Como seria a minha vida se lhe tivesse causado a morte ou ele ficasse paraplégico? Qual seria a minha reação dali para a frente? Como seria enfrentar a família dele? Mesmo que eu não ficasse com sequelas físicas, será que iria ultrapassar a situação sozinho? Qual seria o apoio da minha família e amigos? Como seria o meu desempenho profissional? Iria continuar a andar de moto? Seria capaz de pegar novamente naquela moto em particular?

São dúvidas que passaram e me continuam a passar pela mente, mas deduzo que ocorra algo similar convosco, e sei que muitos de vós já passaram por situações tão ou mais traumáticas que aquelas que acabo de referir, muitas vezes sem qualquer responsabilidade direta na ocorrência.


Voltar a andar de moto ou a capacidade de se reerguer

Todos nós já fomos, em tempos, crianças. Há até alguns, entre os quais me incluo, que nunca chegaram a crescer verdadeiramente, mas esses são um caso perdido que não vale a pena destacar!

Provavelmente, não temos memórias da nossa infância antes dos 2 ou 3 anos. É a chamada amnésia infantil e está diretamente ligada à “curva de esquecimento”, mas o que quero destacar é que não nos lembramos de aprender a caminhar.

Olhando para os nossos filhos, sobrinhos, netos… percebemos que é um processo gradual, de tentativa e erro, mas que, por regra, não causa traumas.

Já a aprendizagem de andar de bicicleta (o tal equilíbrio fundamental para andar de moto) costuma ocorrer mais tarde e é vulgar muitos de nós recordarmo-nos perfeitamente, inclusive das quedas, dos arranhões e talvez até de um ou outro osso fraturado!

Porém, esses acontecimentos, mais ou menos traumáticos, não nos desincentivaram a continuar a andar de bicicleta, mesmo que a nossa pele tenhaainda umas cicatrizes a mostrar que as marcas são indeléveis e que o asfalto, ou a terra, são mesmo muito duros!

À medida que vamos crescendo, a nossa perceção do mundo e de nós próprios vai-se alterando à medida que vamos assumindo novos papéis e novas responsabilidades, pelo que acabamos por ficar também mais permeáveis às situações traumáticas e a ter de viver com as suas consequências.

Uma simples queda de moto pode causar-nos pesadelos, estarmos constantemente a ter um flashback do que ocorreu, a reviver milhares de vezes aquela cena, a ter crises de pânico e de ansiedade ou a gerar em nós sentimentos de culpa e tristeza…

Se ao que foi descrito no parágrafo anterior acrescentarmos uma sensação de falta de energia e motivação, de algum entorpecimento, apatia e indolência… então é caso de alerta! Há que fazer alguma coisa o mais rapidamente possível, não vá a situação agravar-se!

Este pode ser o momento certo para pedir ajuda profissional, antes que seja tarde demais! A depressão pode estar à espreita. É uma doença e pode ser curada, mas a iniciativa tem de partir do próprio, que precisa de ter a coragem para assumir que necessita de apoio, sendo isso meio caminho para a recuperação!

Termino esta crónica com algumas sugestões que, penso eu, podem ajudar pois próprio já as pus em prática:


Partilhe e enfrente os seus traumas, medos e fantasmas:

Ninguém diz que é simples e fácil, mas esta pode ser a melhor forma de, gradualmente, seguir em frente. Não espere voltar novamente a andar de moto como antes. Tudo tem o seu tempo! Não se envergonhe de falar sobre o ocorrido com pessoas que lhe são próximas. Vai sentir-se melhor e perceber que talvez não seja caso isolado;

Pratique exercício físico e respiratório:

A meditação, a respiração controlada são formas milenares de nos sentirmos bem, de ganhar autocontrole. Experimente! Se a isso associar algum exercício físico será ainda mais fácil libertar-se das emoções negativas, da ansiedade e exorcizar os seus medos e fobias;


Dedique tempo a fazer coisas de que gosta:

Claro que gosta de motos, mas há todo outro mundo para lá delas! Aprender uma nova língua, tocar um instrumento musical, escrever um livro, dedicar-se à jardinagem, arranjar um animal de estimação… são apenas alguns exemplos do que pode fazer para se libertar dos traumas e seguir em frente;

Altere os seus hábitos e rotinas:

Seja um pouco mais disciplinado com o que come, evite os excessos, aproveite a oportunidade para, por exemplo, deixar de fumar. Faça umas caminhadas, só ou acompanhado, mas faça-as! Ocupe o seu corpo e mente e vai ver que a situação traumática vai-se desvanecendo, de forma natural;


Fuja dos ambientes tóxicos:

Estar permanentemente em ambientes e com pessoas negativas e tristes não ajuda nada. Procure amizades com pessoas positivas que não o estejam a condenar por gostar de motos. Pode até ser uma oportunidade para mudar de vida, por exemplo, abraçar um novo desafio profissional;

Aprenda a desistir:

Deixei para o fim este item por uma razão óbvia. Pode mesmo acontecer que nunca mais queira voltar a andar de moto! É improvável, mas possível. Se for esse o caso, desista de andar de moto, mas não desista de si próprio, nem de fazer as coisas de que gosta e de lutar por ser feliz e também fazer os outros felizes!

andardemoto.pt @ 29-1-2022 12:10:41 - Pedro Pereira

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