Paula Kota

Paula Kota

OPINIÃO - Estórias de viagem

Encontros Inesperados

Às 7h da manhã estava pronta para partir. Carreguei a mota e dei ao starter. Fez barulho, mas não pegou. Tentei várias vezes. Tinha luzes e buzina. Não pegou.

andardemoto.pt @ 28-1-2019 17:49:38 - Paula Kota

Voltei ao hotel e perguntei ao dono se havia uma oficina. Estava a tomar o pequeno-almoço com a esposa balzaquiana. Disse que já me ia ajudar. Uma hora depois continuava a bebericar vinho.

Desisti e voltei a tentar. A mota pegou. Aliviada segui caminho. Já estava atrasada. Tinha de atravessar um maciço de montanha para chegar ao mar. 

De repente percebi que tinha perdido o Norte, o Sul e todos os pontos cardeais. Completamente perdida por vales, cumes, desfiladeiros, rios e paredes de rocha. Teria sido um passeio fantástico não estivesse a chover tanto. Quatro horas depois a tentar decifrar placas e 2 tentativas de perguntar o caminho a quem me dizia ser sempre em frente, lá consegui apanhar a estrada certa. Cheguei ao mar já depois de almoço, com o estômago colado às costas. Mas o sol brilhava.

Ia na expectativa de encontrar uma pequena vila, antiga e charmosa e dei comigo numa larga avenida entupida de trânsito e apinhada de turistas. Nem parei. Segui furiosamente para sair dali. Na estrada, carros topo de gama aceleravam perigosamente. 

Uns quilómetros mais à frente uma seta chamou a minha atenção: Hotel.

Uns quilómetros mais à frente uma seta chamou a minha atenção: Hotel.

Curvei em cotovelo para uma rua que se tornou um paredão junto ao mar. Precisava de parar. Estava cansada e desiludida. O paredão era lindo, sempre junto ao mar. O Hotel em pedra era convidativo. No check-in negociei o preço. Chorei-me e contei a odisseia do dia. Um ancião, perto dos 80 anos sorriu e fez um bom desconto. Subi ao quarto, ele atravessou a rua e foi mergulhar.

No dia seguinte, ao nascer do sol quis partir. A moto não pegou. E nem acendeu luzes, e nem fez barulho. Nada. Liguei para a assistência em viagem. Afinal não me podiam ajudar porque era Domingo e estava tudo fechado. No dia seguinte estaria lá um reboque.

Que aborrecimento. Fui “obrigada” a vestir o biquíni e passar o dia todo dentro de água ou a apanhar sol. A baía era linda, a água transparente, o calor muito agradável.

À noite fui à loja das pizzas comprar jantar. Na esplanada frente ao Hotel, o Dono estava sentado com uns amigos numa mesa cheia de queijos, salpicões, cerveja e vodka. Obrigou-me a sentar com eles. Ficámos na conversa noite dentro.

Na 2ª feira, o reboque não aparecia. O Dono convidou-me para almoçar com a família. Depois de almoço lá apareceu o mecânico, levou a bateria e disse: Já venho. Às 4h da tarde nem vê-lo. Após várias tentativas de contacto, descobri que só trabalham entre as 10h da manhã e as 4h da tarde. Apeteceu-me emigrar para lá. Mais uma tarde de banhos de sol e de mar. À noite fui de novo convidada para jantar na esplanada. Mais uma garrafa de vodka.


Finalmente na 3ª feira, depois das 10h (claro) lá veio o mecânico e resolveu o problema. Na despedida de um anfitrião tão generoso e simpático, ele confidenciou-me:

Sabes, eu andava de moto há muitos anos. Tinha uma Gilera artilhada. Fui campeão da Jugoslávia nos anos 50 e tinha o recorde da subida da “Serpentine” com 14min.

Fez-se luz no meu espírito. Depois de tanto contratempo, acabei na casa de um velho lobo das motos.


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andardemoto.pt @ 28-1-2019 17:49:38 - Paula Kota