Paula Kota

Paula Kota

OPINIÃO

EU VOU !

Há alturas na vida em que é necessário tomar uma posição e demonstrar o nosso descontentamento. Esta é uma delas. Sim, eu vou participar na manifestação dos motociclistas no dia 18 fevereiro, organizada por um grupo de veteranos que teima em defender os interesses dos motociclistas.

andardemoto.pt @ 7-2-2018 17:23:27 - Paula Kota

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E porquê? Não preciso de estatísticas para formar uma opinião. Basta observar o que se passa quando rolo na estrada. Considero-me uma pessoa de bom senso e irrita-me quando subestimam a sensatez dos motociclistas.

Tudo começou nas declarações do Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, numa Entrevista (do min 31:43 até ao min 36:30) na radio em que revela algumas medidas que pensa implementar no âmbito da prevenção rodoviária. Cinco minutos apenas para lançar a polémica.

O tema da segurança rodoviária (aumento dos acidentes com motos em 2017) veio à conversa e, segundo o Sr. Ministro, existem duas zonas de risco que o preocupam: (i) a dispensa de inspeções periódicas nos motociclos; (ii) a dispensa de carta de condução para motos até 125cc (Lei das 125). Vamos por partes:


Inspeções periódicas

A ideia transmitida na entrevista por parte do Sr. Ministro é que o aumento da sinistralidade com motociclos se reduzia com a obrigatoriedade de inspeção aos veículos de duas rodas, com cilindradas acima dos 250cc no sentido de verificar/inspecionar a segurança. Se a ideia é “limpar” da estrada motos sem condições de segurança, então as motoretas que andam nas zonas rurais deveriam ser as primeiras a ser inspecionadas.


Para aqueles que dizem ser uma boa prevenção no caso de motas roubadas, matrículas falsas ou alterações XPTO … Caríssimos, esses não vão de certeza à inspeção. Dotem a polícia de meios e os artistas ficarão na 1ª operação stop.

Sim, é verdade que há por aí alguns poucos jovens inconscientes com as motos todas “escafeadas” (e outros menos jovens mas com idade para ter juízo). Mas esses são uma minoria e não definem nem caracterizam uma Comunidade de milhares de Motociclistas.

Por outro lado, não me faz sentido inspecionarem motos com cilindradas maiores quando são as que têm melhores sistemas de amortecedores, travões, estrutura/peso face à velocidade. O Sr. Ministro, os decisores políticos e os “experts” no assunto estão a esquecer-se de um factor fundamental: O maior interessado em proteger a sua integridade física é o motociclista.

Todos nós sabemos que em caso de queda, o nosso corpo está exposto, mais que num automóvel. Nenhum de nós está a pensar em cair de moto e tudo fazemos para o evitar. E isso implica Segurança, ou seja, ter as motos em excelente estado. No mundo motociclista, as motos são as “nossas meninas”, bem tratadas, bonitas e muito, mas muito funcionais e segurasUma inspeção não adiciona mais-valia à nossa proteção. Só nos traz mais gastos (e eu confio mais o meu mecânico que em qualquer centro de inspeção).

Então porquê? É caso para se dizer “Follow the Money”. Quem vai ganhar com esta intenção? Não são os motociclistas de certeza.

Um “aparte” – Se vamos ser inspecionados, então as bicicletas, as carroças, os quadriciclos e todo e qualquer veículo que circule na via pública também.


A “Lei das 125” (Lei 78/2009)

Desde que a Lei foi publicada que se vêm cada vez mais scooters por aí. Não preciso de estatísticas para ver Lisboa a pulular de novos utilizadores de veículos de 2 rodas. Um simples exercício de lógica: mais veículos na estrada, mais probabilidade de haver acidentes. Se a relação fosse ao contrário viveríamos num mundo perfeito. É um facto inquestionável que com uma moto se ganha mobilidade, se poupa em tempo no trânsito, se reduz a necessidade de espaço de estacionamento, se reduzem as emissões de gases, … um sem fim de vantagens. E, felizmente, muitos deles ganham “o bichinho” e passam para motos de maior cilindrada.

Citando o Sr. Ministro na entrevista (…) compram uma mota e saem por aí (…). Presumo que o sentido seria não saberem andar numa moto. Aqui entra uma ideia que me entristece profundamente – estão a subestimar as pessoas. Estão a passar um atestado de insanidade aos que compram uma moto até 125cc e “saem por aí”. Dei-me ao trabalho de perguntar a todos os meus amigos e colegas de trabalho como fizeram quando compraram as scooters. Todos eles ou aprenderam com amigos ou compraram algumas aulas de condução. Pois é Sr. Ministro, ninguém “sai por aí” em busca de acidentes ou de deixar este mundo. Não somos suicidas!

Quem conduz mal ou perigosamente uma moto, é também quem o faz de automóvel ou que caminha aos encontrões às outras pessoas. Não é um problema das motos mas sim do condutor.

Qualquer pessoa pode passar numa loja, comprar uma bicicleta e “sair por aí”. Então, esses não são uma preocupação? Andam sem carta e sem seguro …. E os microcarros, conhecidos por “mata-velhos” que podem ser conduzidos sem carta de condução? Porque são as motos as martirizadas? Só por serem diferentes? Ou porque como cada vez há mais, é uma potencial fonte de receitas para alguns agentes de mercado? …. Follow the money


Quem organiza …

Um Grupo de Veteranos que dá pelo nome de “GAM” teima em organizar ações de protesto há mais de 20 anos. Alguns de vocês ainda andava de fraldas já os veteranos se manifestavam contra o imposto de luxo nas motos (1990), o preço das portagens (1993), pela Lei dos Rails (ainda há muitos que recordam a junção milimétrica na 2ª circular, das caravanas do Norte e do Sul em 2001), pela Lei das 125 (2005). Para não falar do dia do Motociclista que começou em 1997. Pois, o historial de pro-atividade é longo. São sempre os mesmos casmurros que teimam em defender os interesses dos motociclistas. Ainda eu andava de cinquentinha já os ouvia falar de viagens a destinos longínquos e cidades subterrâneas (ficou no meu imaginário até conseguir lá ir). Merecem-me todo o respeito. Não gostam deles? Não precisam. O que está em jogo é a causa. E a causa respeita a todos nós.

Sim, a manifestação foi organizada num domingo. Ainda bem porque num dia de semana seria muito complicado. E num sábado também seria difícil para os que trabalham neste dia. Sim, não está ninguém na Assembleia da Republica. Nem precisa. Na era da comunicação digital, a pressão faz-se nos media e nas redes sociais. Se formos muitos, provavelmente estará lá a TV. E vão estar centenas de telemóveis que vão encher as redes sociais de vídeos.

Também já ouvi comentários de “As manifs não dão em nada”. Depende. Sim, depende de quantos estivermos lá. Na história há muitos exemplos de manifestações de desagrado que resultaram em alterações legislativas e reposição de justiça. Se não se fizer nada, nada acontece. Ou melhor, acontece …. irem-nos ao bolso.

E por fim …

Tenho um sonho. Mostrar que somos unidos. Mostrar que somos uma grande família que zela pelos seus. Giro, giro era os que não puderem vir a Lisboa, ao Porto ou a Faro juntarem-se na mesma. Na praça principal da vossa cidade, vila, junto das instalações do poder local, onde entenderem. Motoclubes, Grupos Motards, Associações Motociclistas, Grupos de Amigos, Participem!!! Usem e abusem do vosso poder de mobilização que sei ser enorme. Devemos mostrar aos nossos decisores políticos que somos pessoas de respeito, trabalhamos, temos famílias, somos contribuintes, e principalmente, não somos parvos. Não aturamos abusos nem servimos para encher os bolsos de alguns.

Para aqueles mais impetuosos, não é hora de se porem com rateres, bernaus ou outras piruetas. Não são essas atitudes que vão ajudar a causa e os motores agradecem. Impõe-se o respeito e para nos respeitarem temos de nos dar ao respeito.

Cada um contribui para uma causa à sua maneira. Eu escrevi este pequeno texto e vou estar na manifestação. Se cada um de nós der uma pequena contribuição, a força de todos será certamente imparável. Tem sido uma luta longa e exasperante. As poucas vitórias conquistaram-se com muito esforço. De repente vamos perder tudo?

EU VOU!

E vocês?

Abaixo alguns links para informação sobre estes assuntos para quem quiser fazer contas e estatísticas. Tirem as vossas conclusões.

Autoridade nacional Segurança Rodoviária (ANSR) – Principais indicadores de sinistralidade Continente

Portal do Governo – Biografia (CV) de Eduardo Cabrita, Ministro da Administração Interna

European Road Safety Observatory (ERSO) - Road Safety Country Overview - PORTUGAL

European Road Safety Observatory /ERSO) - Traffic Safety Basic Facts 2017 – Motorcycles & Mopeds

MAIDS - Motorcycle Accidents In Depth Study

Motorcycle Safety Foundation & Virginia Tech Transportation Institute - Factors that Increase and Decrease Motorcyclist Crash Risk

Última nota: Não vale a pena acenarem-nos com a redução do preço das portagens, assunto que, coincidentemente (?), veio à baila nesta altura. Trata-se apenas de uma recomendação da Assembleia da República e vamos ver quanto tempo irá ficar na gaveta.

Paula Kota

andardemoto.pt @ 7-2-2018 17:23:27 - Paula Kota


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