Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

Enduristas... Esses Marginais das Serras

Há uma história que vos quero contar, algo que aconteceu recentemente e que tem de ser partilhado para incentivar todos os motociclistas e enduristas a lutarem por aquilo que realmente são. Não querendo puxar a “brasa à minha sardinha” (mas já estando a fazê-lo), há algo muito especial que caracteriza a força e a determinação das pessoas do norte.

andardemoto.pt @ 3-6-2019 12:53:45 - Márcia Monteiro

Quando se falou pela primeira vez da proibição de desportos motorizados (motociclismo TT ou enduro) no Parque das Serras do Porto, a notícia caiu que nem uma bomba entre as centenas de praticantes na zona norte. Se para uns foi novidade, para outros nem tanto porque já existem muitos países na Europa onde é expressamente proibido andar de mota TT ou enduro em espaços verdes porque, supostamente, promovem a sua destruição.

As opiniões dividiram-se mas, era evidente que existia uma grande falta de conhecimento sobre o que é praticar motociclismo TT ou enduro. Os enduristas nada mais eram do que marginais das serras que todos os fins de semana saíam em grupos, provocavam uma elevada escala de decibéis às 8h da manhã, poluíam as serras e todos os espaços naturais e eram um risco para todas as pessoas que gostam de fazer caminhadas ou andar de bicicleta pelas serras. Nada mais eram do que potenciais destruidores do meio-ambiente.

Não se revendo na descrição acima descrita, foi gerada uma onda de inconformismo nortenha com esta proibição que estava cada vez mais perto de se tornar real. E o descontentamento tornava-se ainda mais evidente quando os próprios praticantes afirmavam repetidamente que não se identificavam como praticantes de um desporto motorizado (pois esse desporto tem os seus locais e regulamentação própria). Afirmavam-se como praticantes de uma atividade de lazer que usa motociclos devidamente homologados pela legislação em vigor para desfrutar daquilo que a natureza oferece. As Serras do Porto são frequentadas há décadas por praticantes desta atividade de lazer considerada por muitos como uma tradição.

Assim, em 2016, André Ferreira, criador do “Movimento pelas Motos nas Serras”, sentiu-se na obrigação de combater uma proibição que achava absolutamente injusta. Juntaram-se também o Moto Clube do Porto e o Clube Extreme Lagares que prestaram um apoio fundamental e começaram a marcar presença em reuniões públicas de discussão e esclarecimento do regulamento que iria gerir esse parque nos concelhos que o abrangem: Valongo, Gondomar e Paredes. Foi uma jornada árdua pois foi preciso combater fundamentalismos estigmatizados de que todo o motociclista praticante de enduro é um marginal e potencial destruidor do meio ambiente. Seguiram-se petições públicas, ações de sensibilização, criação de páginas nas redes sociais e aos poucos e poucos o “Movimento pelas Motos nas Serras” foi ficando cada vez maior. Mais do que abolir esta proibição, este grupo tinha objetivos ainda maiores que foram mostrando e colocando em prática: vigiaram os parques, preveniram incêndios, resgataram animais, preveniram o vandalismo nas serras e nas sinaléticas existentes, mantiveram os trilhos abertos para a passagem de motos, pessoas e até de camiões dos bombeiros. Tudo isto foi retratado em vídeos e imagens. Mas a “cereja no topo do bolo” aconteceu, infelizmente, o ano passado. No dia 15 de dezembro, com a trágica queda do helicóptero do INEM nas encostas da Serra de Sta. Justa, dois enduristas receberam indicações para se dirigirem a esta zona juntamente com os bombeiros onde rapidamente iniciaram as buscas. Não havia melhores conhecedores destas serras do que estes enduristas. A sua missão era percorrer as difíceis leiras dessa zona que tendo sido elas há pouco tempo trabalhadas por maquinaria, tornava o progresso das suas motos bastante difícil e penoso. Depois de as percorrerem, aperceberam-se de diversos reflexos metálicos entre a vegetação, produzidos pelas suas luzes individuais. Tinha sido descoberto o local onde o helicóptero se tinha despenhado.


Os responsáveis da associação que gere o Parque foram confrontados com a determinação deste Movimento no combate a essa proibição. Também as centenas de formulários de consulta pública foram postos à disposição de todos os cidadãos que desejavam participar nessa discussão e depressa se aperceberam que a proibição não era a melhor solução. De salientar que nesses formulários participaram não só motociclistas, mas também a população que sempre viu estes praticantes como parte integrante das Serras. 

Perante tudo isto, a proibição foi abolida do regulamento... Este foi o culminar da luta em tornar esta prática como atividade regulamentada mas nunca marginalizada. Esta vitória demonstra a união, o companheirismo e entreajuda que personifica o que é ser endurista... é de louvar todos aqueles que lutaram contra esta proibição e que mostraram a todos os que criticaram e marginalizaram o motociclista endurista... afinal não somos os marginais que muitos acreditavam ser.... Nada disto teria sido possível sem o apoio do Dr. José Carlos Mota e da Arq. Elisabeth Andersen, responsáveis pela elaboração do plano de gestão do referido Parque.

Todos nós temos consciência que esta grande vitória foi alcançada, mas a luta está longe de terminar. Cabe a cada um de nós manter os valores que tanto defendemos e adotarmos atitudes e comportamentos responsáveis na preservação da natureza. Para todos aqueles que se encontram numa situação idêntica (sim, é do nosso conhecimento que existem muitas serras e parques em Portugal com essa mesma proibição), não desistam, lutem. Este movimento que começou no norte de Portugal já chegou a ser replicado em Espanha e luta sobretudo para demonstrar que não somos marginais... Somos cidadãos responsáveis. E essa é a nossa maior luta.

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