Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Sobe e desce na Serra da Estrela

Tenho memória da Serra da Estrela desde a a mais tenra infância. Via-a imponente, por vezes carregada de branco, desde a casa dos avós em Belmonte. Talvez por isso, a porta de entrada na Serra sempre foi pela Covilhã e, desta vez, não foi diferente.

andardemoto.pt @ 7-7-2019 18:39:54 - Henrique Saraiva

Chegado à cidade serrana, desde logo percebi que em pouco se diferencia de tantas outras no nosso país: sinalização ausente ou pouco esclarecedora que nos leva a hesitar várias vezes. E afinal, apenas queria chegar ao centro, ao Largo do Município. Deixo uma sugestão, pode ser que alguém aproveite:  quando for necessário rever a sinalização de uma terra, peçam a alguém que não conheça! Porque quem conhece, de certeza que fará um mau serviço...ao conhecer, está viciado nos seus hábitos de circulação e não naquilo que interessa ao viajante.

Aos soluços, lá cheguei.  Oportunidade para a foto da praxe a marcar o momento!

Dia 1 - Da Covilhã à Torre...pelo caminho mais longo...e divertido!

Penhas da Saúde

Penhas da Saúde

A partir do Largo do Município, começa-se desde logo a subir e de forma pronunciada pela EN339. Passamos o Parque de Merendas, o Parque de Campismo do Pião e chegamos à Varanda dos Carqueijais. Miradouro em local privilegiado com uma vista magnífica para a Covilhã logo abaixo e para toda a Cova da Beira com a Gardunha em fundo.

Prossegui a subida e passei pelo antigo Sanatório dos Ferroviários, majestoso edifício que tendo sido no antigamente uma unidade hospitalar, esteve abandonado durante décadas. Recentemente foi restaurado de forma brilhante, seguindo a traça original do Arquitecto Cottinelli Telmo (mantendo-a também no interior), numa Pousada com muito requinte. O edifício e os jardins fronteiros merecem uma visita, até porque a vista é também espectacular.

Continuando a subir, passei por mais uma unidade hoteleira já tradicional – a Pousada da Serra da Estrela – e mais um pouco, já a 1600m de altitude, cheguei às Penhas da Saúde.

Penhas da Saúde

Era tempo de breve paragem. Efectuar o registo, alijar carga desnecessária para o resto da jornada deste dia, e verificar as instalações na Pousada da Juventude, a opção escolhida para a estadia. Uma estreia que se revelou insuperável na relação qualidade/preço. De facto, se o objectivo for a economia, sem luxos e com o conforto estritamente necessário para quem se propõe jornadas algo cansativas, não há dúvida que é uma solução convincente. Acresce a extraordinária simpatia do pessoal, o ambiente informal a convidar ao convívio, os pequenos requisitos hoje habituais como sejam o wi-fi gratuito em todo o edificio e com boa performance. Na manhã seguinte, o pequeno almoço também muito agradável, com tudo o que é habitual numa unidade hoteleira. Excelente!

Pousada da Juventude

Pousada da Juventude

Tudo tratado, segui viagem. Até aos Piornos, onde depois da foto da praxe para a Nave de Santo António, virei à direita em direcção a Manteigas pela EN338. Começava a diversão!

O sinal para “Teste de travões” não enganava. A descida era pronunciada. Ía a caminho da primeira paragem, num sítio que é para mim obrigatório: o Covão d’Ametade. Aqui nasce o Rio Zêzere que depois ganha força a descer o vale glaciar até Manteigas. Segue o seu percurso, contornando a Serra a nascente e depois, pelo lado sul na Cova da Beira até, muito mais tarde e mais longe, vir desaguar no Rio Tejo em Constância. Entretanto, encheu a albufeira de Castelo do Bode.

Covão d’Ametade


O Covão d’Ametade, situado mesmo por baixo dos três picos a que alguém chamou Cântaros – o Raso, o Gordo e o Magro – dois deles acima dos 1900m – é um local frondoso, com um parque de merendas. Lindíssimo, não fora o facto de estar ao abandono… culpa das entidades oficiais que dele não cuidam, dizem uns, culpa dos utilizadores que o degradam e mal estimam, dizem outros. Uma pena!

Foi aqui também que tive o privilégio de encontrar e trocar algumas palavras com um simpatiquíssimo pastor serrano que cuidava do seu rebanho de cabras – o início da fileira do saboroso queijo da serra! Conhecedor profundo e muito orgulhoso da sua Serra da Estrela, numa profissão que se calhar caminha para o desaparecimento, pois duvido que haja pretendentes a calcorrear os caminhos abruptos e perigosos da Serra.

Mal sabia eu que algum tempo depois nos voltaríamos a encontrar. Mais ou menos...ao ler um livro cujo tema até é a EN2:

“...João Direito,76 anos, magro e franzino, chapéu cinzento, patilhas abaixo da orelha, pele tisnada e olhos azuis, do mesmo tom do pullover, impecável sobre a camisa aos quadrados, gere com competência toda a erva da Serra da Estrela...

...Depois de todas as tarefas, João cobria-se com uma capa de lã, encostava-se ao cajado ou a uma pedra, para dormir. De pé. Porque a serra é imprevísivel, de um momento para o outro levanta-se uma tempestade. No Verão não é provável que neve, mas o vento e a chuva não têm época própria. E se apanham um pastor deitado, empapam-no de lama e água gelada. Afogam-no ou arrastam-no por uma ribanceira. É muito perigoso dormir deitado...

...Em toda a sua vida, o pastor já fez várias viagens, esteve em França, visitou uma vez Lisboa, outra a Guarda e outra Folgosinho.Ao cinema foi uma vez, em Manteigas, quando era novo....”

In “Longe do Mar” de Paulo Moura / “Um pastor dorme de pé”


Manteigas e o Vale Glaciar

Vale glaciar

Vale glaciar

À minha frente vislumbrava-se agora um dos cenários mais monumentais de Portugal: o vale glaciar de Manteigas. O antigo glaciar há muito desaparecido cavou este vale profundo por onde corre o (ainda) pequeno Zêzere a caminho, bem lá ao fundo, de Manteigas.

A estrada corre quase (um quase muito relativo!) rectilínea sempre a descer pela encosta sul do vale. Estrada estreita, bom piso, a convidar a algum empenho na condução…mas cuidado, que a aparente visibilidade para as curvas seguintes não iluda: a estrada não tem escapatórias!

Entrei em Manteigas, vila serrana conhecida pelos seus têxteis, pelo Queijo da Serra e também pelos viveiros de trutas. Um pouco antes, o desvio para o Poço do Inferno. Local que merece obviamente uma visita pela beleza da sua cascata. Optei por não fazer o desvio: no final do Verão, terá um caudal mínimo que lhe retira espectacularidade e também a estrada recomenda cuidados acrescidos – estreita e mau piso. Estive lá recentemente pelo que desta feita passei… mas a recomendação fica: merece a visita!

Em Manteigas segui em direcção às Penhas Douradas (sugiro a ajuda do GPS porque as placas de sinalização apontam para uma estrada que não é aquela que pretendemos, embora até mais curta, não tem a espectacularidade da EN232 que iríamos seguir). A meio da subida tinha agora uma perspectiva diferente do vale glaciar, com Manteigas no sopé e bem lá ao fundo, os Cântaros majestosos a contemplarem-nos. Quanto à estrada....uma delícia. Curva e contracurva, sempre a ganhar cota, por patamares, vislumbrando mais abaixo o pedaço anteriormente percorrido.

A subida continuava, íngreme e sinuosa. Um espectáculo!!! À nossa volta, arvoredo e vegetação frondosa a contrastar com a aridez que tínhamos presenciado anteriormente nas Penhas da Saúde e na descida para Manteigas.

Cerca de 20km de diversão depois, cheguei ao planalto onde se situam as Penhas Douradas. A altitude estava mais uma vez acima dos 1800m e voltava a paisagem agreste e rude. Quando consegui vislumbrar um pouco mais, desta vez para Norte, uma nova realidade: uma planície a perder de vista no sentido de Gouveia ou um pouco mais longe, Celorico da Beira. A Beira Alta estava à frente dos olhos!

Penhas Douradas, Casa da Fraga e Vale do Rossim

Virei à esquerda para o Vale de Rossim. Logo a seguir uma construção curiosa: a Casa da Fraga:

“A Casa da Fraga foi construída no meio de nenhures, num ermo da Serra da Estrela, lugar que hoje tratamos por Penhas Douradas. Parece estranho mas não é: muito provavelmente, as Penhas Douradas, lá do alto dos seus 1500 metros, não seriam nada não fosse a Casa da Fraga existir. Ou pelo menos não seriam aquilo que são agora.

Tudo começou com uma expedição organizada pela Sociedade de Geografia de Lisboa à Serra da Estrela. O objectivo era nobre: fundar sanatórios que, como já era feito noutros países, como por exemplo a Suíça, pudessem curar doenças de foro pulmonar.

Daí se concluiu haver condições climatéricas, na encosta norte da serra, antes de chegarmos ao seu topo, para um tratamento bem sucedido às patologias.

Sousa Martins, crente nos estudos optimistas que vários cientistas davam aos ares da Serra da Estrela, enviou para lá um dos seus doentes, Alfredo César Henriques, que sofria de tísica pulmonar, que construiu uma casa lindíssima camuflada na paisagem natural que a envolvia.

Ali permaneceu dois anos e as visíveis melhorias no seu estado de saúde deram alento a outra gente, também com problemas nos pulmões, que lá foi procurar casa. E assim, de uma boa notícia, se fez aquele pedacinho encantado que hoje conhecemos como Penhas Douradas.”

in ncultura.pt/serra-da-estrela-a-incrivel-casa-da-fraga/

No Vale do Rossim exite um eco-resort que beneficia de uma pequena barragem que tem o espelho de água a maior altitude na Serra da Estrela. Paisagem agreste mas de profunda beleza. A convidar a alguns momentos de meditação.

A tarde ia já a mais de meio e ainda havia caminho a percorrer. Retomei a EN 232 um pouco mais à frente. Cumpre salientar que este desvio que tomei para o Vale do Rossim está num estado lamentável!

A estrada que, saindo da EN232, vai directamente para o Sabugueiro, a aldeia a maior altitude em Portugal, é algo perigosa: estreita, piso degradado  e com pouca protecção… A fazer com muita prudência.

Sabugueiro: aldeia transformada num centro comercial de produtos serranos! Para lá dos queijos é também aqui que é possível encontrar à venda os lindos cachorros da raça típica da Serra da Estrela. Aqui tomei a EN339, que de Seia se dirige à Torre, e que seria o caminho até ao objectivo final deste dia.

A caminho da Torre...com passagem na Lagoa Comprida

Comecei novamente a subir, umas vezes de forma mais pronunciada outras menos, até chegar à Lagoa Comprida. Pelo caminho passei por algumas pequenas lagoas e por diversas cambiantes da paisagem.

A Lagoa Comprida é a mais conhecida e a maior das lagoas do maciço superior da Serra da Estrela. Construída a partir de uma lagoa natural, constitui o principal reservatório de água da serra. Na vertente norte da lagoa observa-se um dos mais interessantes campos de blocos erráticos da Serra da Estrela. Estes blocos de granito foram transportados pelos glaciares e abandonados aquando da fusão e recuo do gelo.

Este era um antigo glaciar com um quilómetro de extensão. Aproveitando o covão, iniciou-se em 1912 a construção da barragem. Em 1914 tinha uma altura de seis metros e em 1934 atingia os 15 metros. Actualmente, desde 1965, tem uma altura de 28 metros. Nesta lagoa desaguam dois túneis: o do Covão do Meio, com 2354 metros que desvia a água das encostas do Planalto da Torre e o do Covão dos Conchos com 1519 metros que desvia as águas da Ribeira das Naves

A partir daqui sobe-se mais um pouco, paisagem agreste, quase nua, na aproximação à Torre.

A Torre e o mais belo pôr do sol de Portugal

Sendo o ponto mais alto de Portugal Continental, não tem todavia a configuração de um pico. É um vasto planalto onde se encontra a torre que prolonga a altitude até aos 2000m, as desactivadas instalações de radar da Força Aérea, um pequeno e algo decrépito centro comercial e ainda as instalações do teleférico. De referir que tudo isto tem um aspecto de quase abandono, o que é lamentável a avaliar pela numerosa frequência turística que demanda este local.

A Torre é o ponto mais alto de Portugal Continental (1.993 metros). Ali se encontra implantada a célebre «Torre do Cume» para completar os 2.000 metros de altitude. A actual Torre em pedra foi reedificada em 1949, datando a anterior do Reinado de D. João V (1806). A vista é magnífica: para Sul, alonga-se pela Cova da Beira até à Serra da Gardunha. A Norte, alcança as Serras do Caramulo, da Lapa e Montemuro. A Leste, atinge as Serras da Marofa e da Malcata, e para além da Meseta, as Serras da Gata e de Gredos, marcadas também pela glaciação. A Oeste, estende-se para as Serras do Açor e da Lousã, até ao oceano Atlântico. Abrange as bacias do Douro, do Mondego e do Zêzere/Tejo.

Mas o objectivo para este dia era um pouco mais ambicioso:

Chegar à Torre e assistir o pôr do astro rei!

O espectáculo superou as expectativas. o facto de ter todo o horizonte à  disposição, um céu limpo e sem nuvens, proporcionou imagens inesquecíveis e de rara beleza, a que as fotos não conseguem fazer justiça.

A jornada estava a acabar em beleza.

Mais cerca de 150km feitos durante a tarde, a subir e descer as estradas da Serra da Estrela recomendavam um merecido descanso. Um sandwich de presunto e queijo serranos adquirido na Torre seria o merecido jantar (ai o colesterol...), já em modo de pré-repouso porque o cansaço acumulado e o facto de estarmos quase no cimo da Serra não recomendavam grandes deslocações noturnas.

Dia 2 – Contornar a serra por sul e poente e descobrir o Adamastor...

Depois de uma noite retemperadora do cansaço dos muitos quilómetros da véspera, faltava contornar a Serra por sul e poente e descobrir o Adamastor (companheiros destas vidas motoviajantes também lhe chamam Loriga Pass, pela sua semelhança com alguns dos mais famosos “Pass” alpinos), segundo o nome de batismo dado pela malta das bicicletas. Quando nos aproximamos facilmente se percebe o temor...

Convém explicar!

Trata-se de um troço da EN338 quando esta cruza a EN231 (a meio da distância entre Loriga e Valezim), no ponto chamado de Portela do Arão e que sobe vertiginosamente a Serra até pouco depois da Lagoa Comprida.


Rumo a Unhais da Serra

A manhã começou brilhante, radiosa e sem uma nuvem no céu. Pequeno-almoço singelo mas a que nada faltou, terminando assim a estadia na Pousada da Juventude da Serra da Estrela. Recomenda-se, já o referi.

Fiz a descida até à Covilhã, sempre sinuosa e com piso apenas razoável, como tínhamos constatado na véspera. Cruzei a cidade serrana, antiga capital do têxtil, indústria responsável pelo passado esplendor desta bonita cidade, que hoje recupera dinâmica e riqueza (muito devido ao impacto da Universidade da Beira Interior) e segui pela N230 , a antiga ligação privilegiada entre esta zona da Beira Baixa e Coimbra.

Tortosendo ficou para trás. Outro importante centro de indústria têxtil e também longe da anterior riqueza. Estrada com muitas curvas, bom piso, que se faz de forma muito fluente e em bom ritmo. A paisagem é frondosa e o trajecto vai ao sabor das curvas de nível desta face da Serra.

A primeira paragem foi em Unhais da Serra.

Reza a lenda que certo dia andando à caça pela Serra da Estrela, um jovem brasonado e rico, perdeu-se no entusiasmo da caçada. Depois de andar perdido durante muito tempo sentiu-se cansado e com fome. Nestas condições chegou até perto do local onde hoje está situada “Unhais da Serra”. Aqui encontrou um pastor que o vendo com fome, logo lhe deu leite do seu rebanho, foi à ribeira e com as suas grandes “unhas”, apanhou trutas para o jovem senhor. O jovem caçador ficou admirado pela facilidade com que o pastor apanhou as trutas com as “unhas”, e chamou ao local “Unhas da Serra” ou “Unhais da Serra”.

Certa é a sua riqueza termal, muito explorada nos finais do Séc. XIX e princípios do Séc. XX, que lhe valeu à época as alcunhas de “Pérola da Beira” ou “Sintra da Covilhã”. Ainda hoje, esta riqueza é aproveitada inclusivamente com recentes instalações hoteleiras.

Prossegui caminho, agora mais sinuoso e ganhando altitude. Alguns quilómetros à frente, virei à direita para a EN231 em direcção a Seia.

Alvoco da Serra e Loriga

Os vales serranos desfilavam à esquerda à medida que a estrada continuava ora curvando à direita, ora à esquerda, como que antecipando o que me esperava.

Nesta altura, observei mais um exemplo da riqueza toponímica portuguesa, nestes que deverão ser os domínios de um tal Vasco Esteves, personagem importante certamente…

A primeira povoação que encontrei foi Alvoco da Serra, curiosamente a povoação da Serra mais próxima da Torre (em linha recta, claro). É uma localidade de fortes tradições e origens muito antigas, conservando alguns vestígios da presença dos romanos, nomeadamente uma calçada onde foram encontradas moedas da época.

Panoramicamente, é também de uma beleza enorme, principalmente pela encosta serrana onde se insere e que lhe serve de anfiteatro.

A jornada continua e o próximo destino é Loriga. De origem que se confunde com a antiguidade, por ela passaram os romanos (com testemunho numa calçada da época) e o seu foral é de data anterior à da nacionalidade.

É conhecida como a “Suíça Portuguesa” devido à sua extraordinária localização geográfica. Está situada a cerca de 770 m de altitude, na sua parte urbana mais baixa, rodeada por montanhas, das quais se destacam a Penha dos Abutres (1828 m de altitude) e a Penha do Gato (1771 m), e é abraçada por dois cursos de água: a Ribeira da Nave e Ribeira de São Bento, que se unem depois para formarem a Ribeira de Loriga, um dos afluentes do Rio Alva. Os socalcos e sua complexa rede de irrigação são um dos grandes ex-libris de Loriga, uma obra construída ao longo de centenas de anos e que transformou um vale rochoso num vale fértil.

Cruzei a ponte sobre a Ribeira e observei a pequena praia fluvial que aproveita as águas que correm desde a Serra.

Alguns quilometros adiante e aí estava o cruzamento que iria ser o ponto de partida para a “piéce de resistance” de toda a viagem: o já referido Adamastor…

O Adamastor: da Portela do Arão à Lagoa Comprida

Na Portela do Arão cruza-se a EN231 que trazia e a EN338 proveniente de Vide. Estrada concluída em 2006, seguindo um traçado pré-existente, com um percurso de 9,2 km de paisagens de montanha, entre as cotas 960 m (Portela do Arão) e 1650 m, junto à Lagoa Comprida.

A partir daqui, só os olhos e a memória fazem jus ao que desfrutei. As fotos não conseguem reproduzir nem a beleza da paisagem, nem a emoção de fazer uma estrada íngreme – a primeira metade decorre a inclinação média de 14%, atenuado depois para 12% e já no final, “muito menos” a 9%. Fantástico!

Merece referir que se trata de uma estrada em excelente estado, larga e muito bem desenhada, não é uma sucessão sinuosa de curva e contracurva mas vai tendo à medida que subimos alguns “ganchos” quase a 180º.

Outro dos aspectos é que a vegetação é quase inexistente. Apenas algum mato rasteiro o que aumenta (e muito!) a sensação de declive e a visão do precipício mesmo ali ao lado. Confesso que quando cheguei ao topo tinha os níveis de adrenalina (ou seria ansiedade?) ao máximo (e não era pela velocidade ou qualquer outro tipo de risco assumido na condução)!

Sinceramente, a estrada que fiz que mais emoção me criou. Não é dificil em termos de condução mas….a envolvente condiciona e muito!!! IMPERDÍVEL!!!

Não resta nenhuma dúvida no final. Chamemos-lhe Loriga Pass, Adamastor ou o que mais quisermos, é absolutamente fantástica.

E agora...o regresso!

Terminado o Adamastor, estava um pouco à frente da Lagoa Comprida (por onde passei na véspera) e a caminho da Torre, na minha já bem conhecida EN339. Desta feita, não valia a pena voltar lá.

Depois, iniciei a descida a caminho das Penhas da Saúde (ponto de partida da jornada de hoje) e depois novamente a Covilhã.

Era o regresso e o final de 2 dias fantásticos na Serra da Estrela. Um paraíso para quem anda de mota e um deslumbre para quem gosta de paisagens que nos esmagam. Na realidade, é na Serra da Estrela que melhor podemos ter a verdadeira noção da nossa pequenez.

E esqueçam aquela ideia de que a Serra é boa é no Inverno. Corro o risco de dizer que é ao contrário! Porque com as ineficiências que nos caracterizam, estas estradas ficam, na sua maioria,  intransitáveis sempre que a neve aperta (um contrasenso para uma zona que poderia ser um mini centro de desportos de inverno). Na Primavera, no Outono ou mesmo no Verão (atenção, que ele é bem quente aqui!), a Serra é sempre um deslumbre para o olhar.

Uma nota final: desta vez não fui a Seia. Tinha lá estado recentemente e optei por outro percurso. Ainda assim fica a recomendação. E a visita ao Museu do Pão é imperdível!

E assim foi: um carrossel pelas belas e sinuosas estradas da Serra da Estrela, onde a moto é rainha. E, a ANDAR DE MOTO fica logo ali...ao Virar da Esquina!

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andardemoto.pt @ 7-7-2019 18:39:54 - Henrique Saraiva