Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Brotas – O segredo escondido do Alentejo

Num País com 9 séculos de história, fora o que fica para trás, não é difícil que a cada passo tropecemos em pequenas histórias, geralmente pouco conhecidas, mas que são curiosas e fazem parte da nossa herança enquanto povo.Não tenho convicções religiosas mas reconheço a influência profunda que desde a fundação da nacionalidade, o cristianismo tem como pedra fundamental da nossa cultura: desde o necessário reconhecimento papal para a nossa existência enquanto nação – a bula papal Manifestis Probatum na qual o Papa Alexandre III reconheceu Portugal em 23 de Maio de 1179 – até à consagração de Nossa Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal e sua Rainha na sequência da Restauração da Independência. Em 25 de Março de 1646, D. João IV consagrou o Reino a Nossa Senhora, razão pela qual nenhum outro Rei tornou a usar a coroa real na cabeça.

andardemoto.pt @ 11-12-2019 19:21:29 - Henrique Saraiva

A caminho de Brotas

A caminho de Brotas

Vem esta introdução a propósito de uma referência que a certa altura me foi feita. Para mim, como para a generalidade das pessoas, quando se fala no culto mariano da Igreja Católica em Portugal, recordamo-nos imediatamente de Fátima, dos 3 Pastorinhos e das aparições. E no entanto, tudo aconteceu em 1917, há pouco mais de 100 anos.

Dessa vez, contaram-me que há um sítio no Alentejo profundo em que a veneração à Virgem Maria subsiste desde o Século XV! 500 anos antes... ou seja, o suficiente para me despertar a curiosidade. Tanto mais que ficava num local por onde tinha passado há cerca de 1 ano e me tinha escapado completamente.

Em Brotas, me disseram, subsiste o culto a Nossa Senhora desde os anos de 1400 e existe um Santuário a ela consagrado. Não foi preciso mais nada, uma história perdida, um Santuário esquecido... tinha que lá ir.

A Caminho de Brotas

Afinal, onde fica Brotas? Esta era a pergunta que todos me faziam quando dizia o meu destino.

Por acaso, por lá passei algumas vezes na minha adolescência mas então não deixava de ser apenas mais uma aldeia no caminho.

Voltei a lá passar recentemente, quando percorri a Estrada Nacional 2. Sim! Brotas fica na EN2. Mais propriamente, pouco antes do marco dos 500 quilómetros que fica na vizinha aldeia do Ciborro. E a cerca de uma dúzia de quilómetros depois de Mora. Alto Alentejo, portanto.

E para lá chegar, é necessário encontrarmos a EN2. O que não é difícil já que atravessa o País de alto a baixo!

Brotas e o milagre de Nossa Senhora

O local hoje chamado de Brotas pertencia aos domínios da vila de Águias que era sede de concelho por volta de 1520. Mas a nossa história começa antes...

Brotas (vista panorâmica)

Brotas (vista panorâmica)

Vamos à história! E aqui a morfologia do terreno é importante. Assim, estamos perante um pequeno vale bastante cavado e com paredes íngremes (embora não muito altas). Um anfiteatro natural a que chamariam Brotas da Barroca. Era agreste e inabitável por ser bastante húmido e esta cova estava rodeada de ribanceiras a que chamavam Inferno, Inferninho e Purgatório... esclarecedor sobre a rudeza daquele pedaço!

Pois foi precisamente aí que nos princípios dos anos de 1400, um pastor pastoreava a sua vaca. Este animal era precioso porque assegurava o sustento do pastor e dos que lhe eram próximos.

Todavia, a dada altura o animal precipitou-se pelo barranco e veio cair na parte mais baixa do tal vale. Partiu uma pata que teria que ser cortada e iria matá-la. O pastor cortou a pata, ciente que a sua a vida já miserável ia acabar! Face a tal desdita, prostrou-se e implorou pela salvação.

E então dá-se o milagre!

Nossa Senhora aparece aos olhos do pastor e face ao desespero e aflição do mesmo, diz-lhe que serenasse e fosse dizer aos seus vizinhos para ali lhe construírem um local de devoção que quando regressasse, a vaca estaria viva.

O pastor fez o que Nossa Senhora lhe disse e, quando regressou com os seus vizinhos, o milagre tinha ocorrido: a vaca pastava como se nada tivesse acontecido. Da pata amputada pelo pastor tinha surgido uma imagem da Virgem feita em osso, à qual faltava o braço direito, pois dele tinha vindo a pata renascida da vaca do pastor.

E desde então nasce a devoção a Nossa Senhora, a partir daqui chamada de Brotas e que em todas as representações se apresenta sem o braço direito.

É erguida uma ermida em sua honra (sabe-se que em 1424 já existia), culto que se acentuou posteriormente, determinando a ampliação do templo original e a criação de um núcleo urbano adjacente, dando origem ao Santuário de Nossa Senhora das Brotas.

O declínio da vila das Águias ocorreu progressivamente, à medida que o lugar de Brotas se ia tornando uma povoação mais importante, levando a que, em 1535, o Cardeal-infante D. Afonso, Bispo de Évora, lhe concedesse independência eclesiástica, transferindo a sede paroquial de Águias para Brotas. 

A lenda propagou-se e o culto espalhou-se pelas terras vizinhas, primeiro, e para mais longe depois. Foram criadas, em diversos locais de Portugal, Confrarias de fiéis devotos. E estes, regularmente deslocavam-se até esta pequena aldeia alentejana para aí darem corpo a essa devoção.

É evidente, que séculos atrás, estas deslocações duravam dias, senão semanas, pelo que ao chegarem a Brotas aí permaneciam por algum tempo, até finalmente regressarem à origem. Daí a necessidade de terem albergue.

Cada Confraria mandou construir a sua casa, sendo que o conjunto de casas era ocupado à vez por cada uma. Por essa razão, foram designadas Casas de Confraria.

O Santuário fica localizado ao fundo do anfiteatro natural e no local onde terá ocorrido o milagre. De um lado e do outro da rua que desagua no largo fronteiro ao Santuário – Rua da Igreja - situa-se a maioria das Casas de Confraria (ou também designadas por Casas de Romaria) edificações de dois pisos erguidas como hospedaria para as várias confrarias de fiéis. Muitas dessas casas ainda hoje apresentam as lápides das confrarias respectivas (como as de Setúbal, Mora, Lavre, Cabeção ou Cabrela).


Com os Descobrimentos nos finais do século XV e seguintes, que originaram a diáspora portuguesa, naturalmente o culto também foi levado para além mar. Há registos da sua prática na Índia (existe no Santuário uma imagem proveniente da Índia) e em diversos locais do Brasil.

Mais recentemente, dois factos – ou milagres – revelam a protecção que os crentes acreditam existir relativamente à sua terra: nos dois conflitos armados ocorridos no Séc. XX, onde homens de Brotas se fizeram militares – 1ª Grande Guerra e Guerra do Ultramar – nenhum por lá ficou. Todos regressaram a salvo e apenas no primeiro conflito um regressou ligeiramente ferido. E este facto – ou milagre - é motivo também para a sua referência em pleno Santuário de Nª Srª de Brotas.

Homenagem dos militares de Brotas

Homenagem dos militares de Brotas

A ermida inicial foi sendo sucessivamente ampliada à medida do crescimento do culto transformando-se no Santuário que hoje conhecemos. Edifício bonito e bem cuidado, com interior rico em azulejaria e repleto de memórias e imagens deste culto secular.

Lenda ou realidade, à medida da crença de cada um, facto é que Brotas é uma pequena pérola escondida em pleno Alentejo.

Brotas hoje

Actualmente, Brotas é uma freguesia do concelho de Mora de onde dista cerca de 11 quilómetros.

Fica em plena EN2 e esta estrada corta a aldeia mesmo a meio. À sua beira fica um fontanário datado de 1699.

Na realidade, a construção da estrada, que levou a que tivessem que ser destruídas algumas casas, alterou substancialmente as características do povoado, dividindo-o e dessa forma perdeu-se um pouco daquela configuração das ruas que desaguam no largo do Santuário. Todavia é ainda possível perceber como era originalmente.

Tem, registados pelos Censos, pouco mais de 400 habitantes, que na realidade serão bastante menos.

O envelhecimento da população e a desertificação do interior são realidades com as quais somos permanentemente confrontados. E esta tendência apenas pode ser contrariada (ou adiada pelo menos) se dermos conhecimento da História e das muitas histórias destes locais tantas vezes esquecidos no nosso País.

Mencionei atrás as Casas de Confraria (ou de Romaria). Hoje, fruto de uma obra meritória, algumas  estão recuperadas e, melhor ainda, disponíveis a quem as queira visitar e nelas pernoitar. E para lá do conhecimento da terra e da sua lenda, aí dormir é imperdível. É verdadeiramente mágico escutar o silêncio dos campos que nos rodeiam. E na madrugada seguinte ouvir o acordar da natureza...

Na realidade, as “Casas de Romaria” são uma unidade de Turismo em Espaço Rural a qual através da recuperação de 6 destas Casas de Confraria permite aos seus visitantes usufruírem em simultâneo dos confortos da vida moderna mas instalados em habitações com mais de 500 anos de história. São casas tipicamente alentejanas, de branco caiadas e com as suas riscas coloridas, que mantêm a traça original e estão decoradas de forma singela com os artefactos típicos que ilustram a vida nesta região.

Ainda em Brotas, existe um outro monumento que merece destaque: a Torre das Águias.

Para lá de algum casario em ruínas que a rodeia, os restos da ancestral Vila das Águias, que atrás mencionei, esta altiva torre foi mandada erguer em em 1520 por D. Manuel I e era utilizada pelos fidalgos para o necessário repouso depois das caçadas de grande montaria na região.

É um edifício em estilo manuelino, de planta quadrada com cerca de 20 metros de altura nos seus 4 pisos.

E se resistiu ao terramoto de 1755, não o tem feito às inclemências do abandono. Apesar de classificada como monumento nacional desde 1910, encontra-se em adiantado estado de abandono e degradação. Também a sua visita não é fácil uma vez que se situa em terrenos particulares e por caminho em idêntico mau estado, razão pela qual não a consegui visitar.    


O que visitar nas redondezas

Referi que Brotas se situa na vizinhança de Mora (aliás, pertence ao município). Logo não podemos deixar de mencionar o Fluviário de Mora. Integrado no Parque Ecológico do Gameiro, é o maior aquário da Europa , uma espécie de “Oceanário de água doce”. Possui 6 galerias onde podemos conhecer mais sobre a vida aquática e os ecossistemas de água doce de Portugal, da Península Ibérica e das regiões tropicais da América do Sul e de África.

As redondezas...

As redondezas...

Mesmo ao lado de Mora fica o Cromeleque do Monte das Fontaínhas Velhas. Constituído por 6 monólitos de alturas entre os 50cm e 1,20m, são mais um vestígio que atesta que estas terras foram povoadas desde a pré-história.

Ainda em Mora, fica a Pista Internacional de Pesca Desportiva, situada na Ribeira da Raia. Com cerca de 1km de comprimento, esta pista é cenário de inúmeras competições nacionais e internacionais de pesca desportiva.

A vila de Mora merece naturalmente um passeio pelas suas ruas. A destacar a Torre do Relógio, a Igreja Matriz de Nª Sª da Graça, a Igreja da Misericórdia e ainda, a Ermida de Santo António.

Um pouco mais a norte, ainda pela EN2, encontramos Montargil e a Barragem a que dá o nome. A sua albufeira é um espaço privilegiado para a prática de desportos náuticos, para a pesca desportiva e outras actividades relacionadas com a Natureza, como seja a observação de aves.

Em direcção a nascente, e a merecer também uma visita, fica Arraiolos. Dominada pelo seu castelo, original na forma com a sua planta circular, não conseguimos fugir à arte que lhe trouxe fama: a Tapeçaria de Arraiolos.

Entre Mora e Arraiolos, passei por Pavia. Não a de Itália, claro...mas não pude deixar de recordar a popular expressão “Roma e Pavia não se fizeram num dia”! Não seria certamente sobre esta Pavia... mais humilde naturalmente, mas caracteristicamente alentejana no seu casario branco e na sua quietude. Pavia é território povoado desde a pré-história e é lar de cerca de 200 monumentos de megalitismo funerário, alguns em estado de degradação. A Anta de Pavia (IV ou III milénio a.C.), transformada em Capela de São Dinis no século XVII, é o ex-libris da vila.

Para terminar, referir que as estradas percorridas neste périplo são geralmente de boa qualidade, com o número suficiente de curvas e contra curvas para não nos deixar quebrar pela monotonia da planície e da paisagem, que consoante a época do ano nos apresenta cambiantes cromáticos de inegável beleza.

Quanto à gastronomia, ela é a típica da região, que merece mais que que se saboreie do que dela se fale. E não é preciso procurar muito. Ainda assim uma referência. Em Mora, o Solar dos Lilases é imperdível (mas com conveniente marcação).

Aqui fica a sugestão para ANDAR DE MOTO, numa Viagem ao Virar da Esquina!

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