Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Atouguia da Baleia - Quando o mar recua...

Toda a gente fala sobre “alterações climáticas”. É o tema e causa da moda. Muito se discute. Os comos, os quandos, os porquês...mas o mais relevante será a preocupação com as consequências, porque essas afectam directamente o nosso modo de vida. Uma das principais será a elevação do nível médio das águas dos mares devido ao degelo das calotas polares, que provocará a inundação de largas zonas costeiras. As praias de areias brancas de que hoje desfrutamos poderão desaparecer e os núcleos habitacionais poderão ficar submersos.Mas...e como era antigamente?  Será que o mar sempre esteve onde hoje se encontra?Afinal....o que tem isto a ver com viagens?

andardemoto.pt @ 18-1-2020 16:21:53 - Henrique Saraiva

A Atouguia que era Tauria e os terrenos que outrora foram mar

A Atouguia da Baleia e o território que a rodeia é um excelente exemplo de que nem sempre a linha costeira se situou onde hoje a conhecemos.

E as alterações que ao longo dos séculos foram acontecendo tiveram um papel essencial na história desta simpática vila, situada a meio caminho entre Peniche e Óbidos, hoje bem mais importantes. Mas nem sempre assim foi.

Atouguia da Baleia, que vive na sombra da cidade de Peniche a meia dúzia de quilómetros, e do corrupio balnear e surfista das praias das redondezas – sendo o Baleal talvez a mais conhecida e de certeza a mais bonita e original – tem no seu passado uma riqueza muito interessante, onde a história, a lenda e a geografia se entrelaçam

Peniche é considerada a cidade mais ocidental da Europa Continental. Mas nem sempre assim foi.

Na realidade a geomorfologia deste pedaço de território sofreu imensas transformações ao longo dos tempos. E se há alguns milénios a linha de costa se situava a cerca de meia dúzia de quilómetros a oeste da actual Peniche, já no segundo milénio da era Cristã, situava-se a oriente do maciço rochoso que antes era ilha e hoje constitui a península de Peniche. E também o Baleal era uma ilha.

À época, o que hoje conhecemos por Atouguia da Baleia, chamava-se Tauria pela grande quantidade de touros selvagens que aí havia. E dominava o estuário de S. Domingos, sendo este o principal porto da região.

O açoreamento progressivo do triângulo situado entre Peniche, Baleal e Atouguia, visível na imagem que ilustra esta evolução ao longo dos últimos séculos, não só alterou significativamente a morfologia do terreno como também teve significativo impacto na importância relativa entre estas povoações.

Evolução da linha de costa

Evolução da linha de costa

A História da Atouguia

No Sec XII, D. Afonso Henriques outorgou estas terras – chamadas de Tauria pois nele abundavam touros selvagens - aos irmãos Guilherme e Robert de Corni, cruzados franceses, em agradecimento a serviços prestados nas lutas contra os Mouros, nomeadamente a conquista de Lisboa.

A denominação actual – Atouguia - deriva de sucessivas evoluções daquela designação ao longo dos séculos.

Ainda hoje, defronte da Igreja Matriz é possível ver alguns dos pilares que circundavam o Touril onde esses touros bravos eram depois exibidos nas festas medievais (e provavelmente as antepassadas das touradas actuais…).

Pilares do Touril

Pilares do Touril

História diferente tem o acréscimo “da Baleia”. Conta-se que por volta de 1526 terá dado à costa, num lugar então chamado Areia Branca, uma baleia que “tinha de comprimento 30 côvados” (cerca de 15 metros). Daí a Atouguia…da Baleia. Na Igreja de São Leonardo (cuja história curiosa conto mais à frente) pode ser vista uma grande costela de baleia petrificada que, diz a lenda, pertenceria ao tal cetáceo.

Igreja de S. Leonardo

Igreja de S. Leonardo

O primeiro foral de Atouguia data de 1167! Veja-se que o foral de vila é atribuído a Peniche apenas em 1609…mas, apenas dois séculos passados, em 1836, o concelho da Atouguia é extinto e integrado no de Peniche.

O exemplo de como a alteração geomorfológica do território que atrás mencionei alterou significativamente as relações de importância entre as duas povoações.

A lenda de S. Leonardo

Fachada da Igreja de S. Leonardo e Pelourinho

Fachada da Igreja de S. Leonardo e Pelourinho

S. Leonardo não é santo de devoção habitual em Portugal, sendo este templo o único devotado a tal santo.

No Séc V, Leonardo de Noblac era um nobre gaulês que consagrou a sua vida a Deus em vez de seguir os caminhos da guerra, como seria habitual à época, para a sua condição social. Estabelecida em terras da Gália a devoção a este S. Leonardo, era ele o padroeiro de navio francês que, séculos mais tarde, enfrentou terrível tempestade ao largo da Atouguia (recorde-se que na Idade Média, Atouguia era porto de mar) tendo procurado aqui protecção da fúria dos elementos.

Toda a tripulação abandonou o navio e acolheu-se numa capela que ali existia. Com eles vinha a imagem do santo padroeiro.

Algum tempo passado, a tempestade desvaneceu-se e era tempo de os marinheiros voltarem ao navio e fazerem-se ao mar, só que…sempre que procuravam transportar a imagem do santo para o navio, o mar alterava-se e a tempestade regressava.

Finalmente desistiram de se fazerem ao mar e acabaram por se estabelecer naqueles domínios.

Mais tarde, no local onde se abrigaram veio a ser construída a que é hoje a Igreja de São Leonardo, cuja origem remontará ao Séc XIV.

O Castelo de Atouguia

Igreja de S. Leonardo e a Casa do Castelo ao fundo

Igreja de S. Leonardo e a Casa do Castelo ao fundo

Sendo um porto importante, para mais dominando um estuário que era abrigo muito procurado por quem por ali navegava, Atouguia tinha uma fortificação que era o principal reduto de protecção das suas gentes.

Hoje pouco sobra desse Castelo, que se diz ter sido mandado erigir por D.Dinis mas com origens mais remotas da época mourisca (Séc XII), e toda a alteração da morfologia do terreno torna difícil imaginarmos o seu destaque e a importância que tinha. Existe apenas uma pequena parte da muralha que está integrada no património da Casa do Castelo.

Situada mesmo defronte da Igreja de São Leonardo, a Casa do Castelo foi construída no Sec. XVII e sofreu profunda transformação e ampliação nos princípios do Séc XIX, como aliás é comum nestas casas senhoriais que cresciam à medida que as familias aumentavam e reflexo da sua própria prosperidade.

Hoje, integralmente recuperada e magnificamente adaptada à sua nova função de Turismo de Habitação, enquadrada na oferta dos Solares de Portugal, foi nela que fiquei alojado. E muito bem, diga-se!

O Castelo, bem como a Igreja de São Lourenço, situa-se no cimo de um monte e tem à sua frente, o que hoje é um vale onde corre um fio de água chamado S. Domingos (domesticado por barragem do mesmo nome situada ligeiramente a montante). Mas antigamente, esse vale fazia parte do estuário de S. Domingos e nele se situava o porto da Atouguia. Naturalmente, o Castelo e suas muralhas faziam parte essencial das defesas do porto. Da janela do quarto era possivel perceber todo este enquadramento, com a muralha logo ali e a vasta planície que se estende até ao Baleal e que outrora foi o já referido estuário de S. Domingos.

A este Castelo anda ligada uma curiosa lenda: a lenda das duas arcas que certo Rei, por maldade, mandou um dia guardar num dos subterrâneos, abarrotando uma delas de um tesouro maravilhoso e enchendo outra de peste. Depois ofereceu a mão da Princesa sua filha ao primeiro que quisesse tentar a oportunidade de abrir a arca do tesouro.

Claro que, no receio de vir justamente a ser destapada a arca cheia de peste, ainda hoje certamente, por aqui se encontram escondidas as duas arcas... E a lenda não diz se a princesa chegou a casar-se....    

Uma visita pelas ruas da Atouguia

Num périplo pela vila, para lá de outros monumentos – a fonte medieval, a Igreja Matriz, o pelourinho…e até a sede do Vespa Clube do Oeste – foi possível ver os resquícios do Touril.


Onde nos cruzamos com a trágica lenda de Pedro e Inês

O Touril junto onde foi construída a Igreja Matriz, virá da época em que D. Pedro e D. Inês por aqui viveram alguns dos tempos do seu trágico romance.

Estávamos a meio do Séc XIV, quando D. Pedro se veio a acolher no Paço situado na então designada povoação de Serra d’Atouguia e que a partir daí passou a ser Serra d’El-Rei.

Paço Real em Serra D’El Rei

Paço Real em Serra D’El Rei

Sendo ainda a relação entre ambos ilegítima, D. Inês estava na povoação vizinha hoje denominada Coimbrã (alusão ao facto de os apaixonados amantes virem de Coimbra onde antes residiam?).

E foi precisamente D. Pedro, grande apreciador da caça e dos touros que terá renovado o interesse por esta espécie na Atouguia da Baleia cuja história vinha já há muito tempo atrás.

Uma volta pelas redondezas

Centrados na Atouguia da Baleia, não é necessário percorrer grandes distâncias para encontrarmos muitos locais de interesse.

A cidade de Peniche, um dos mais importantes portos piscatórios nacionais é um local de eleição para degustarmos peixe e marisco.

Peniche - Fortaleza

Peniche - Fortaleza

Mas também para visitar a sua fortaleza, antiga prisão e hoje convertida em Museu da Resistência e a Papôa com o seu recorte de costa por obra da erosão do mar e do vento.

Papôa

Papôa

Um pouco mais à frente e temos o Cabo Carvoeiro, local de grande valor patrimonial (geológico e paisagístico), com grande variedade de falésias calcárias fortemente erodidas e campos de lapiás.  A Nau dos Corvos surpreende-nos com os recortes das falésias e os contornos das rochas moldados pela fúria do mar.

Rumo a norte, pela marginal, rapidamente cheguei ao Baleal. Atravesso o istmo arenoso que separa as duas praias, do Norte e do Sul e uma volta é dada rapidamente.


Mantive o rumo. Praia D’El Rei surge logo a seguir. Depois a Praia do Rei Cortiço. Finalmente cheguei à margem sul da Lagoa de Óbidos. À frente, do lado de lá, a Foz do Arelho.

Contornei a Lagoa até chegar a Óbidos (uma sugestão: se o objectivo for calcorrear as ruas empedradas da vila, nada como chegar cedinho pela manhã...antes de os autocarros começarem a despejar ordas de turistas...).

Vila Literária lhe chamam. E as bibliotecas pelas quais passamos atestam-no. Ou o magnífico castelo, hoje Pousada e baptizada Josefa d’Óbidos. Bem...e a Ginjinha também não desmerece.

Mas Óbidos vale sobretudo pela sua beleza e excelente estado de conservação de todo o conjunto urbanístico.

900 anos separam estes equipamentos de segurança...

Dois “cavaleiros” separados por 9 séculos

Dois “cavaleiros” separados por 9 séculos

Depois de Óbidos, muito mais há para ver....Caldas da Rainha, Foz do Arelho, um pouco mais a norte S. Martinho do Porto e Nazaré. Ou, avançando para o interior, Alcobaça e Batalha e os seus Mosteiros, verdadeiras jóias arquitectónicas que celebram a nossa História.

Mas isso são contas de outro rosário...

Aqui fica mais uma sugestão para ANDAR DE MOTO, numa Viagem ao Virar da Esquina!

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