Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Borba – A filha alentejana de um deus menor

Dista 3 km, se tanto, de Vila Viçosa. Se algum partido tira da proximidade, esse é também o seu sortilégio. Do esplendor da terra do Paço Ducal, dos jardins, do Castelo ou da Igreja da Padroeira de Portugal, a vizinha Borba ficou com a muito mais prosaica fama de terra produtora de bom vinho e da extração dos mármores cuja beleza do produto final se esbate quando vislumbramos as gigantescas escombreiras de pedra que resultam dos excedentes do esventrar do solo e das imensas crateras cuja dimensão e profundidade apenas são perceptíveis em vista aérea. Mas a viagem começou antes!

andardemoto.pt @ 22-6-2020 14:00:00 - Henrique Saraiva

Até Borba pelo caminho mais longo

A estrada e a planície alentejana

A estrada e a planície alentejana

Mora ficou para trás, Pavia foi rapidamente atravessada e segui em direcção ao Vimieiro. Aí atravessei a EN4 e rumei a Evoramonte. Estrada conhecida, bom piso e sem movimento.

Ao fundo Evoramonte

Ao fundo Evoramonte

Aqui se recorda a Convenção que lhe leva o nome e que em 23 de Maio de 1834 (há 186 anos) pôs fim à guerra fratricida entre os Absolutistas (ou Miguelistas) e os Liberais, liderados respectivamente pelos irmãos D. Miguel e D. Pedro.

Castelo de Evoramonte

Castelo de Evoramonte

Seguiu-se o Redondo. Uma pequena paragem para reconfortar o estômago veio revelar-se fonte de uma curiosa história. 

O jovem empregado de uma pastelaria, senhor de um característico e bem cantado sotaque alentejano, tinha acabado de ser eliminado de uma das fases de um concurso daqueles dos chefs de cozinha.

Pelos vistos a sua sopa de tomate, um prato bem característico do Alentejo ao qual ele tinha dado o seu cunho pessoal (tão bem o descreveu... que fiquei a salivar!) foi insuficiente face a outros “atributos” de algumas concorrentes. Deu para constatar na primeira pessoa que estes concursos são…pouco concursos!

Simpático o rapaz, não viu o seu sonho seguir caminho mas estou certo que terá tirado a sua lição de vida. E se a paixão de cozinhar lá está, nada melhor que o Alentejo tradicional para lhe dar asas.

A viagem prosseguiu e a próxima paragem foi no Alandroal. O passeio pelo centro desta vila fundada no Séc XIII foi a pé. E incluiu a exploração do Castelo com a sua Torre de Menagem característica pois foi-lhe acrescentada a torre sineira da Igreja Matriz.

Do Alandroal, rumei em direcção à fronteira. Juromenha, a Sentinela do Guadiana, impunha um regresso (e lá voltarei sempre que possível).

A fortaleza em ruínas mas ainda imponente e magnífica, debruçada sobre um cotovelo do Guadiana tem algo de muito especial.

A carga histórica por do outro lado estar Espanha…que por acaso até é Portugal (a história de Olivença...), a beleza da paisagem e a própria estrutura fortificada tão mal estimada, obrigam que dediquemos alguns momentos à contemplação.

Antes de Borba....visita à Princesa do Alentejo

Cheguei a Vila Viçosa e rumei directamente ao Paço Ducal. O monumento maior desta terra tão ligada à História de Portugal.

Largo do Paço Ducal

Largo do Paço Ducal

Percorri-o em excelente visita guiada. Muitos pormenores e uma revisão in loco de mais de metade da História de Portugal: a história da Casa de Bragança. Cuja sede foi, a partir do Séc XV, em Vila Viçosa. Duzentos anos antes de o então 8º Duque de Bragança ser aclamado Rei de Portugal na sequência da Restauração de 1640: D. João IV.

Paço Ducal

Paço Ducal


Magnificamente preservado, com um espólio dos Séc. XVII e XVIII riquíssimo, a antiga residência real e agora museu, conserva a imponência dos seus tempos mais áureos. Merecem destaque a exposição de inúmeros quadros a aguarela e pastel da autoria do Rei D. Carlos, que bem atestam a veia artística do nosso penúltimo Rei. Também as antigas cozinhas são memoráveis pela enorme bateria de cozinha toda em cobre.

Paço Ducal - Pormenor dos jardins

Paço Ducal - Pormenor dos jardins

Para lá dos jardins cuidados que conseguimos vislumbrar, visitei ainda a secção do Museu Nacional dos Coches que está instalada nas antigas cocheiras, onde entre outras carruagens, se pode admirar o landau que transportava a Família Real no dia do regicídio.

Daqui, parti para a visita ao Castelo. Altaneiro e bem cuidado, é presença imponente e dele se domina uma significativa parcela da planície alentejana.

Perto fica também a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a Padroeira de Portugal, tal como reza a História:

Em 25 de Março de 1646, o rei D. João IV organizou uma cerimónia solene, em Vila Viçosa, para agradecer a Nossa Senhora a restauração da independência em relação à coroa de Espanha. Foi até à igreja de Nossa Senhora da Conceição, ofereceu a coroa portuguesa a Nossa Senhora, colocando-a a seus pés e proclamou-a Padroeira Portugal. O acto da proclamação alargou-se a todo o País, com o povo a celebrar, pelas ruas, entoando cânticos de júbilo.

Assim se tornou Nossa Senhora a verdadeira Soberana de Portugal, e por isso, desde este dia, mais nenhum rei português usou a coroa real na cabeça, direito que passou a pertencer apenas a Nossa Senhora. Em cerimónias solenes, a Coroa de Portugal passou a ser colocada em cima de uma almofada, ao lado do rei. Um facto extraordinário e único no mundo.

Finalmente…Borba!

Rapidamente fiz a meia dúzia de quilómetros que por estrada me separava de Borba. Confesso que não tinha, neste caso, particulares expectativas. Foi mesmo pelo prazer da descoberta.

Borba é uma cidade alentejana típica – curiosamente, a mais pequena cidade do Alentejo –  com as suas ruas de calçada estreitas, o casario branco de casas maioritariamente térreas. Foi conquistada aos mouros em 1217 (tal como Vila Viçosa) e um século mais tarde foi-lhe atribuído foral de vila. Muito antiga, anterior à nacionalidade, Borba vive um pouco na sombra da vizinha e faustosa terra dos Duques de Bragança.

Pormenor da muralha de Borba

Pormenor da muralha de Borba

E alguns dichotes não perdoam!

Desde a referência que Borba tem uma fonte muito bonita….porque já não havia sítio em Vila Viçosa para lá a colocar ou o facto mais picante de ser onde os senhores nobres da outrora faustosa Vila (hoje cidade) Ducal alojavam as senhoras da sua predilecção, suficientemente próximas para visitas frequentes e minimamente afastadas para não haver confusões… Estigmas que o tempo não apaga…e razão para o título desta crónica.

Em Borba pernoitei. E aqui talvez a maior surpresa. A Casa do Terreiro do Poço encerra em si a necessidade da descoberta. Porque não é um exemplo de antiga casa mais ou menos senhorial, repleta de memórias de tempos áureos que tando podem deleitar a vista como nos impor o respeito da distância. Não, o que aqui encontramos é uma casa que cresceu com o tempo, inclusivamente pela mão dos actuais proprietários, e que tem em cada um dos seus alojamentos a luz da criatividade e imaginação.


Cada quarto tem um cenário próprio, que nos leva à exploração da nossa própria criatividade de tal forma que cada um de lá trará uma recordação muito própria. À medida da sua imaginação. E tanto assim é, que fica a vontade de lá voltar para poder, noutro quarto vivenciar outra experiência e explorar outro recanto da nossa imaginação.

No dia seguinte...o regresso

Borba - Pedreiras de mármore

Borba - Pedreiras de mármore

Café Águias d'Ouro

Café Águias d'Ouro

À saída de Borba uma visão que nada tem de deslumbrante. A paisagem transformada pela ânsia extrativa dos mármores desta  terra…

De Borba rumei a Estremoz. Fiquei pelo Rossio e resolvi tomar um café no Águias d’Ouro. 

Recordação de miúdo e das viagens familiares, pois sempre que por aqui passava, era local de paragem obrigatória. A arquitectura tão característica da  fachada com as enormes janelas e varandas dos pisos superiores de estilo Arte Nova, construídas com complexas guardas de ferro com motivos geométricos e vitrais executados a verde, castanho e azul.

É um sobrevivente dos antigos cafés de tertúlia portugueses de finais do século XIX, inícios do século XX, daí a importância sociológica, razão da sua classificação.

O regresso impunha-se. Passei Évora, a cidade monumental que só por si justifica visita demorada. Mas desta vez, o objectivo era outro.

Epílogo no Cromeleque dos Almendres

Não conhecem?….Pois deviam!

Saindo de Évora, o caminho faz-se primeiro por estradas municipais estreitas em razoável estado e finalmente por um troço de terra batida com 4 km.

Como é possível que num recinto no meio de um montado tipicamente alentejano possamos sentir uma aura mística à volta de uma conjunto megalítico milenar bastante mais antigo que o famoso Stonehenge inglês? Mas sente-se. Seja pelo silêncio ou pela forma como as pedras estão dispostas. Algo existe…

Foi a forma perfeita de terminar mais uma Viagem ao Virar da Esquina a ANDAR DE MOTO!

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