Teste Triumph Speed Triple 1050 RS - Gentleman Hooligan

Com mais de 25 anos de existência, a Speed Triple tem sabido adaptar-se às exigências dos tempos modernos. Testámos a mais recente geração desta “gentleman hooligan” na sua variante mais exótica RS.

andardemoto.pt @ 5-5-2020 08:30:00 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: Luis Duarte

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Triumph Speed Triple RS | Moto | Roadsters

Introduzida no mercado mundial há mais de um quarto de século, mais precisamente em 1994, a original Speed Triple ajudou a Triumph a moldar o que conhecemos hoje como o segmento streetfighter.

Naturalmente que ao longo de tantos anos a marca de Hinckley teve de reformular um pouco a sua naked de maior porte, e a Speed Triple conseguiu sempre adaptar-se às exigências dos tempos modernos sem perder a sua essência. Mas transformou-se numa naked roadster em vez de uma streetfighter pura e dura. Está aquilo que eu gosto de chamar uma “gentleman hooligan”.

Com o aparecimento de tantas opções no segmento powernaked, mais potentes, mais agressivas em termos estilísticos, e apresentadas coma as derradeiras “track weapon”, é natural que por vezes a Speed Triple seja esquecida por muitos motociclistas.

Mas esse é um erro que, como vou explicar, não deve ser cometido! Em particular se tivermos em conta a variante mais exótica RS, que a Triumph Portugal gentilmente me cedeu para um dia fantástico aos seus comandos e que serviu para carregar as energias antes de entrar em isolamento social devido à pandemia Covid-19.



Vou então começar por explicar os detalhes que tornam a Speed Triple 1050 RS numa moto tão especial. E a primeira indicação está no nome do modelo. 1050 tem sido a cilindrada que a Triumph tem defendido nos tempos mais recentes, resistindo assim à tentação de aumentar para outras cubicagens maiores como fazem as rivais.

Claro está que estamos perante, e tal como o nome deixa a entender, de um motor tricilíndrico de 1050 cc e 12 válvulas por cilindro, com os cilindros dispostos numa linha perfeita.

Nesta geração mais recente, e fruto da utilização de mais de 150 novos componentes, a Triumph conseguiu extrair deste Triple uma potência maior, com a marca britânica a anunciar que a Speed Triple RS atinge agora uns muito saudáveis 150 cv às 10.500 rpm. O binário também melhorou, sendo agora de 117 Nm às 7.150 rpm.

O motor recebeu novos pistões, árvores de cames de perfil redesenhado para maior abertura das válvulas, para ajudar à maior taxa de compresão que passa a ser de 12.92:1, e um cárter que permite uma circulação mais fácil do óleo e assim garante uma lubrificação perfeita do motor.



O motor fica instalado bem no interior de um quadro tipo dupla trave. Esta estrutura em alumínio tem-se revelado uma verdadeira jóia, com as dimensões certas em termos de geometria, e uma rigidez torsional perfeita para uma condução desportiva e ágil. Neste particular a Triumph não realizou qualquer alteração. E ainda bem, pois em equipa que vence não se mexe. Mas a ciclística desta RS é verdadeiramente especial!

Começamos pelas suspensões. Ao contrário da versão base S, a Speed Triple RS conta com elementos da Öhlins. A receita não é muito diferente do que outros fabricantes usam nas suas motos, mas a forquilha NIX30 com bainhas de 43 mm, totalmente ajustável, e o amortecedor traseiro TTX36, também totalmente ajustável, são garantia de uma qualidade acima de qualquer suspeita e de uma eficácia ao nível de uma superdesportiva.

Depois temos ainda os travões. Apesar das pinças monobloco de quatro pistões não serem as mais recentes Stylema, são ainda assim pinças Brembo que eram usadas nas melhores superdesportivas há poucos anos. Mordem discos de 320 mm de diâmetro, e são acionadas através de tubos em malha de aço por uma esbelta bomba radial Brembo MCS19, que permite ajustar o “feeling” da travagem e a distância em que a manete fica do punho direito.



Agora que já deixámos para trás os pontos de destaque desta Speed Triple RS, está na hora de vir dar uma voltinha comigo aos comandos desta “gentleman hooligan”. O primeiro contacto com a atualizada Speed não é o mais agradável. Para ser honesto, o sistema de ignição “keyless” da Triumph deixou-me à beira de um ataque de nervos em diversas ocasiões.

Carrego no botão e o sistema não responde. Confirmo que tenho a chave no bolso, mas nada acontece quando carrego novamente. Tiro a chave do bolso e coloco-a mesmo ao pé do guiador. Carrego no botão, e a eletrónica lá decide desbloquear a ignição e finalmente posso colocar o tricilíndrico a trabalhar. Não aconteceu sempre, apenas de forma esporádica. O suficiente para tomar nota disto.

Felizmente, assim que o motor de 1050 cc começa a aquecer, tudo isto fica para trás. O som que emana das ponteiras Arrow, em titânio, é perfeito.

O uivar da admissão, tão típico dos tricilíndricos britânicos, está ainda mais pronunciado, e enquanto vou ajustando o ângulo do painel de instrumentos TFT ao meu gosto, vou-me apercebendo que tenho à minha escolha diferentes modos de condução – Rain, Road, Sport, Track e Rider – que permitem adaptar o carácter da Speed Triple RS às necessidades.




Para ser honesto, será nos modos Sport e Track que esta naked britânica mais vezes deve andar. É aí que usufruímos de uma ligação mais direta do punho direito, um acelerador “ride-by-wire”, ao motor, que responde de forma imediata aos impulsos mas sem se tornar demasiado reativo como acontece por vezes. A afinação do acelerador é perfeita, uma delícia! Sentimos mesmo que os três cilindros estão diretamente ligados à mão direita, e fazem precisamente aquilo que queremos.

O motor é o coração de qualquer moto, mas nesta Triumph ganha uma dimensão ainda mais relevante.

Os 150 cv podem não estar ao nível dos 180 cv (ou mais) das rivais, mas a forma como espalham os 117 Nm de força pela gama de rotações é suave, linear, e a Speed Triple RS movimenta-se de curva em curva com uma delicadeza sem rival, sem esforço e com o tricilíndrico a responder sempre mesmo quando deixamos as rotações baixarem das 3500 rpm.

Tenho no entanto de registar que nos regimes mais elevados não senti o motor tricilíndrico com o mesmo fôlego das rivais mais potentes, e para lá das 8.500 rpm a Speed Triple RS sente algumas dificuldades.



Embora eu acredite que os modos Sport e Track são os melhores, tenho também de falar nos restantes modos de condução disponíveis na RS. Em Road, o motor continua a disponibilizar toda a sua potência, mas entrega-a de forma muito mais suave, sem cortar na rapidez.

Provavelmente numa estrada de curvas menos familiar será o modo de condução indicado, pois é mais perdulário, mantendo a potência.

Em Rain o motor não oferece a sua performance total, fica amestrado. Mas mais do que a menor potência disponível, neste modo de condução notam-se bastante as intervenções das diversas ajudas eletrónicas, em particular o controlo de tração, que passa a fazer-se sentir de forma mais intrusiva desde baixas rotações impedido a roda traseira de deslizar por mais que se rode o punho sem misericórdia.



Não posso também de deixar de falar no “quickshift”. Nos primeiros momentos em que arranquei da Triumph Lisboa aos comandos da Speed Triple RS achei estranho as trocas de caixa serem tão bruscas, em particular nas reduções. Rapidamente percebi que quem andou antes de mim desligou o “quickshift” (porquê?).

Recorri aos menus intuitivos através do colorido painel TFT e do “joystick” no punho esquerdo e liguei novamente o sistema.

A partir daí a caixa de seis velocidades revelou-se suave, precisa, com um ocasional ponto-morto nas passagens mais agressivas entre 2ª e 3ª. Mas acima de tudo destaco a precisão nas reduções de caixa, com a embraiagem deslizante a fazer um trabalho extraordinário para absorver todo o binário negativo nas reduções.



Se o motor e as respetivas ajudas eletrónicas estão num patamar de performance e eficácia elevado, muito elevado até, o mesmo posso dizer da ciclística. Ao longo dos anos tenho podido, felizmente, testar grande parte das motos do segmento powernaked.

Mas poucas são as motos que me dão uma confiança tão elevada para conduzir no limite em estradas secundárias como a Speed Triple RS.

O quadro e as suspensões Öhlins transmitem um “feedback” perfeito em inclinação, aceleração, e mesmo nas travagens mais fortes, quando os travões Brembo decidem mostrar a sua raça e abrandam a Speed num curto espaço. O ABS atua mas sem se notar na manete, e sentimos sempre que quadro e suspensões estão a trabalhar em uníssono, e não que um dos elementos está a trabalhar mais para compensar as falhas do outro.

É a demonstração do excelente trabalho realizado pela Triumph e que neste particular continua a ser dos melhores. Apenas de notar que em asfalto irregular a afinação de série das Öhlins pode resultar numa condução mais desconfortável.




Tudo isto resulta numa condução intuitiva, imediata, com o guiador bem posicionado a permitir uma posição de condução dominante sobre a dianteira que vai entrando nas trajetórias conforme vamos olhando para a curva seguinte. As correções que eventualmente necessitamos de fazer em curva acontecem sem dramas. Um pequeno impulso no guiador e a Speed Triple RS rapidamente recupera a compostura.

Em condução, e depois de umas horas a dançar de curva em curva, apenas me posso queixar do assento, que apesar de redesenhado acaba por se tornar desconfortável e oferece menos apoio.

Também não sou fã dos espelhos fixos nas extremidades dos punhos, não porque não permitam visualizar com clareza o que está atrás de nós, mas porque a passar no meio dos carros obrigam a cálculos extra para evitar bater nos espelhos.


VEREDICTO TRIUMPH SPEED TRIPLE 1050 RS


Apesar de batida pela potência de muitas das suas rivais atuais, a Speed Triple RS continua a revelar uma vitalidade invejável para uma moto que ao longo de mais de 25 anos sofreu alterações menos profundas do que seria expectável.

O motor tricilíndrico continua uma delícia! Suave e linear, mas simultaneamente potente e agressivo quando puxamos por ele em modo Sport ou Track. As ajudas eletrónicas estão lá, sentem-se a trabalhar mas sem serem intrusivas. O nível de equipamento e qualidade de construção não deixa dúvidas da atenção que a Triumph dá aos detalhes.

Confesso que não é fácil encontrar coisas que não gosto nesta moto. Os espelhos retrovisores e o irritante sistema “keyless” são talvez o que menos gosto. Mas nem isso posso dizer que seja demasiado negativo.



É uma moto que claramente soube “envelhecer”, e com o passar dos anos está a tornar-se numa moto ainda melhor. Perdeu alguma da alma “hooligan” que ajudou a definir o segmento, mas ganhou um cariz de “gentleman” que nenhuma rival consegue ter.

A Speed Triple RS pode ser muitas vezes esquecida, mas, como expliquei, não deve ser subestimada, e merece um lugar de destaque nas escolhas dos motociclistas que procuram adrenalina.

NESTE TESTE UTILIZÁMOS OS SEGUINTES EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO:

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