Teste Ducati Multistrada V4 S - Uma aventura tecnológica

A casa de Borgo Panigale criou para 2021 aquela que define como a derradeira moto desportiva de aventura. A nova Ducati Multistrada V4 S impressiona pelo pacote tecnológico, mas o motor e comportamento “off-road” não nos deixam indiferentes!

andardemoto.pt @ 29-3-2021 18:47:36

Faça uma consulta e veja caracteristicas detalhadas:

Ducati Multistrada V4 S | Moto | Multistrada

Olhando para trás, percebemos que a Multistrada faz parte da história da Ducati há já quase duas décadas. Foi em 2003 que a casa de Borgo Panigale apresentou a primeira geração da “Multi”, então com um design bastante fora do comum e que, apesar de na altura ser criticado, hoje em dia se tornou num símbolo do mundo das duas rodas.

Mas a primeira Multistrada, com o seu motor bicilíndrico arrefecido a ar e com 992 cc, não era uma trail conforme imaginamos hoje em dia uma moto deste tipo. Foi necessário esperar até 2010 para que a Multistrada ganhasse as capacidades de moto polivalente.

Aliás, a Ducati estreou nesse momento o primeiro sistema de modos de condução do mundo das duas rodas, e a Multistrada 1200 passou a ser um verdadeiro “canivete suíço”.

Ao longo dos anos o conceito de trail desportiva da Ducati tem vindo a evoluir, e na última geração, a 1260 DVT, a marca italiana inclusivamente utilizou um sistema de abertura variável das válvulas. A popularidade deste modelo Ducati está bem patente nas mais de 110.000 unidades vendidas em todo o mundo, e hoje em dia a Multistrada está no topo do segmento em que enfrenta rivais bastante bem equipadas.


Este ano, e com toda a “maluquice” que temos visto devido à pandemia, a Ducati decidiu fazer algo mais “fora da bolha” para os seus parâmetros. E a Multistrada V4 nasceu com o propósito de ser uma moto bastante mais polivalente. Mais potência, mais eletrónica, um design mais encorpado, e o fim de alguns detalhes que sempre fizeram parte da história deste modelo como são o caso do quadro em treliça ou, principalmente, o motor sem distribuição desmodrómica!

Quando a Ducati anunciou os detalhes do motor V4 Granturismo, os fãs da marca italiana bradaram aos céus, incrédulos: uma Ducati sem ser “Desmo”? Não é possível! Porém, a Ducati mostrou um pragmatismo surpreendente, não teve receio de selecionar a tecnologia que melhor se adapta a uma moto deste tipo, e assim o motor V4 conta com distribuição por um convencional sistema de válvulas.

Esta mudança, para além de outros fatores, garante que o motor está mais fiável e apenas necessita de afinação de válvulas a cada 60.000 km! Um recorde na indústria das duas rodas. Além disso, a utilização de um sistema convencional de válvulas permitiu reduzir o peso, mas oferecer um comportamento refinado a baixas rotações, sendo que o sistema Desmodrómico se destaca principalmente nos regimes mais elevados.


Por exemplo, a Desmosedici GP21 com que a Ducati compete em MotoGP utilizada distribuição “desmo”, e faz frente, como bem sabemos, às rivais equipadas com sistema de válvulas pneumáticas! Porém, numa aventureira desportiva este sistema é demasiado agressivo.

Esta unidade motriz deriva do V4 Desmosedici Stradale que podemos encontrar nas poderosas Panigale V4 e Streetfighter V4. Claro que os engenheiros da Ducati optaram por trabalhar as curvas de potência e binário, garantindo assim que a Multistrada V4 oferece uma performance mais contundente nos baixos e médios regimes em comparação com os a Panigale ou a Streetfighter.

Às 5.000 rpm o motor V4 da Streetfighter estará a produzir pouco mais de 60 cv. A essa rotação, o V4 Granturismo da Multistrada estará já acima dos 90 cv! E se compararmos com a anterior 1260 bicilíndrica, a nova Multistrada V4 também ganha em potência, embora o binário a essa rotação seja favorável à bicilíndrica.


Apesar de ser um quatro cilindros em V, a Ducati quis que este motor seja o mais parecido possível com um bicilíndrico. Adotaram uma ordem de ignição Twin Pulse, que faz com que os cilindros disparem numa rápida sucessão de ignições. Primeiro os cilindros 1-2, e depois os 3-4.

Isto é o mesmo que termos dois motores bicilíndricos lado a lado a trabalhar em conjunto.

O tempo que um cilindro demora a disparar novamente é bastante longo, e isso traduz-se numa entrega de potência e binário bastante suave e linear, permitindo que a roda traseira recupere do esforço de digerir os 170 cv e 125 Nm, maximizando a tração e ganhando em aceleração.

Ganhou dois cilindros e ostenta uma cilindrada de 1158 cc, mas o motor da nova Multistrada é na realidade mais compacto e mais leve do que o anterior bicilíndrico, e dá uso a uma cambota contrarrotante, uma tecnologia usada em MotoGP, e que, por efeito giroscópico, ajuda a manter a roda dianteira em contacto com o solo.


A Ducati destaca o facto do motor ser 85 mm mais curto, 95 mm mais baixo e apenas ganha 20 mm em largura. Isto permitiu à equipa de engenheiros de chassis da Ducati posicionar o motor dentro do novo quadro Front Frame em alumínio de forma a otimizar a centralização de massas, garantindo que a Multistrada V4 é muito mais equilibrada dinamicamente.

Apesar do motor estar agora 46 mm mais afastado do solo, o que melhora significativamente a distância livre ao solo, uma vantagem principalmente em “off-road”, a verdade é que o centro de gravidade desta aventureira tecnológica está mais baixo.

Um motor tão compacto abriu depois uma série de outras oportunidades no desenvolvimento do chassis. O braço oscilante, que adota um formato mais convencional em detrimento de um monobraço, é bastante mais longo, embora a distância entre eixos seja mais curta do que a anterior 1260.

Os cilindros dianteiros não interferem com a roda frontal e o seu movimento, enquanto os traseiros não ficam demasiado próximos do condutor, o que previne o aquecimento da zona do assento. Aliás, neste aspeto a Ducati Multistrada V4 é uma clara evolução: a bancada de cilindros traseiros desliga-se sempre que o motor está ao ralenti (num semáforo).

Para além de poupar no combustível, reduz a transferência térmica para o assento e pernas do condutor.


Mas todas estas alterações no motor alteram assim tanto a dinâmica da Multistrada? De facto alteram, conforme descobrimos nas estradas nacionais perto de Valência, onde estivemos a convite da Ducati Ibérica.

O programa desta apresentação incluiu mais de 230 km em estradas de asfalto, aos quais se somaram ainda cerca de 40 km em percursso “off-road”.

À nossa disposição tivemos uma Multistrada V4 S, a variante de asfalto com suspensões eletrónicas e sistema de radar duplo, equipada com jantes normais e pneus Pirelli Scorpion Trail II. Para o percurso fora de estrada trocámos para a Multistrada V4 S em formato Enduro. Ou seja, jantes de raios, pneus cardados Pirelli Scorpion Rally, e uma série de proteções de motor e outros componentes.

A primeira coisa que devemos ter noção quando enfrentamos a Multistrada V4 S é que esta não é uma moto pequena. Já a anterior 1260 não era, mas esta geração V4 nota-se mais encorpada, principalmente ao nível do depósito de combustível que ganha 2 litros de volume e passa a guardar no seu interior 22 litros.



Com o assento a 840 mm de altura, na sua posição mais baixa, podendo chegar aos 860 mm na mais alta, o condutor sente-se bastante melhor integrado no conjunto, e as pernas ficam agora perfeitamente encaixadas no depósito, protegidas do vento, mesmo a velocidades muito elevadas. Aqui destaco as “guelras” laterais que a nova Multistrada V4 S incorpora, e que para além do efeito estético bem conseguido, têm também a função de desviar o ar quente emanado pelo motor das pernas do condutor, melhorando a temperatura nessa zona, o que se traduz em maior conforto.

Com a posição de condução muito bem conseguida, os primeiros quilómetros aos comandos da Multistrada V4 S foram realizados com modo de condução Urban ativo. A potência desce para os 115 cv, e todas as ajudas eletrónicas ficam bastante reativas, fazendo-se sentir de forma frequente cada vez que aceleramos no asfalto mais polido dos meios urbanos.

A suspensão eletrónica Skyhook também adapta automaticamente as suas afinações, revelado uma capacidade de amortecimento bastante suave, e mesmo com o sistema eletrónico a responder de forma imediata aos “inputs” fornecidos pela evoluída plataforma de medição de inércia de 6 eixos, a frente revela sempre uma tendência para baixar mais do que o desejado se formos demasiado ambiciosos com o travão dianteiro.


Mas o tempo passado em cidade foi curto, e rapidamente demos por nós a rolar confortavelmente em autoestrada. Pensei “ótimo! Finalmente podemos soltar os cavalos e testar o inovador sistema de Cruise Control Adaptativo e outros sistemas associados aos dois radares”.

Ao toque de um botão específico para trocar de modo de condução rapidamente passei para modo Touring.

Os 170 cv fazem-se então notar, o acelerador denota uma sensibilidade mais agressiva, e a Multistrada V4 S atinge facilmente velocidades acima do permitido pela lei. Com o para-brisas na sua posição mais alta (pode ser ajustado apenas com um dedo!) a proteção aerodinâmica é surpreendente.

Vamos sentados bem alto em comparação com os automóveis, e isso permite ao condutor visualizar com antecedência eventuais obstáculos e definir o melhor caminho a seguir por entre o trânsito.


Claro que em autoestrada a Ducati Multistrada V4 S destaca-se da concorrência direta pela utilização de um conjunto de radares. A base do sistema é da Bosch, mas os parâmetros eletrónicos que controlam o sistema são definidos pela Ducati.

Graças aos radares esta aventureira abre um leque de opções tecnológicas nunca antes vistas em motos. A principal opção é o Cruise Control Adaptativo (CCA). Este sistema adapta automaticamente a nossa velocidade em relação ao veículo que segue à nossa frente. Para viajar não há nada melhor! E se precisarmos de ultrapassar, basta fazer “pisca” e a eletrónica permite ao motor um ligeiro “boost” para garantir a ultrapassagem rápida e eficiente.

O CCA – clique aqui para conhecer mais em detalhe este sistema – é uma enorme mais-valia e de facto funciona muito bem quando rolamos atrás de um automóvel ou veículo de dimensões maiores.

Em grupo de motos o sistema por vezes confunde-se, principalmente porque em grupo adotamos uma formação desfasada, mais segura, e por vezes o CCA deteta a moto que segue mais longe em vez da moto que está imediatamente à nossa frente. Ainda assim os benefícios conferidos pelo sistema superam largamente este ponto.


Depois o radar traseiro, que tal como o dianteiro tem um alcance de 160 metros, deteta veículos que se aproximam da Multistrada V4 S. Nos espelhos retrovisores, que oferecem uma excelente visibilidade traseira, pequenas luzes amarelas indicam que temos um veículo no nosso ângulo morto. Este sistema funciona na perfeição.

Essas mesmas luzes também podem piscar incessantemente caso o radar detete um veículo que se aproxima a alta velocidade da nossa traseira. Esta função de segurança passiva não conseguimos testar, pese embora as muitas tentativas dentro do grupo de jornalistas portugueses em ativar o sistema.

Não foi preciso esperar muito até estarmos a rolar em estradas de montanha com Valência já nas nossas costas lá ao longe.


A caminho do Enduro Park e da Multistrada em formato enduro, as curvas encadeadas permitiram levar a V4 S ao seu limite. Ao longo dos anos testei as diferentes gerações da Multistrada. Penso que não terei falhado uma desde 2010.

Conduzir esta italiana aventureira é sempre um prazer, e com o motor em modo Sport, adotando uma parametrização mais agressiva do acelerador, o condutor sente que tem debaixo de si uma verdadeira moto GT que também é capaz de aventuras fora de estrada.

O motor V4 sobe rapidamente de rotações, a entrega de potência é perfeita até quase às 10.000 rpm, e a ponteira emana uma sonoridade que fica a meio caminho entre um V2 e um V4. Com um peso de 243 kg, a reação inicial é de que esta italiana é pesada. E os números são indesmentíveis.

Porém, a Ducati conseguiu, através da otimização do centro de gravidade, equilibrar o conjunto, e todos os quilos parecem desaparecer enquanto trocamos de direção de um lado para o outro, sempre à procura das trajetórias mais fechadas e a moto procura sempre puxar por nós.


Neste particular tenho de referir que a troca da roda dianteira de 17 polegadas para uma de 19 polegadas, embora possa ser um benefício fora de estrada, traduz-se numa direção menos ágil, e em inclinação foram várias as vezes que senti a frente a abanar mais do que o desejável.

Com esta alteração a Ducati garante um comportamento mais polivalente, mas a Multistrada V4 S perde um pouco daquela irreverência e desportividade que lhe reconhecíamos.

A chegada ao Enduro Park foi uma mistura de emoções. Por um lado feliz por ter desfrutado de uma manhã a conduzir uma moto verdadeiramente excecional, mas por outro estava algo receoso. Tinha pela frente um percurso de enduro com mais de 40 km no menu.



O guia da Ducati prontificou-se a destacar que tinha selecionado troços com menos estradões, e por isso a Multistrada V4 S teria de mostrar o que vale em trilhos de enduro mais apropriados para motos de outro tipo.

Mas equipada com pneus de tacos da Pirelli, e com o modo Enduro ativado, o que reduz a potência para 115 cv, define parâmetros específicos de controlo de tração e até desliga o ABS na roda traseira, esta italiana não desiludiu!

Apesar do peso, que nestes momentos se faz sentir um pouco mais do que em asfalto, a capacidade de tração do motor V4 é fenomenal. E depois temos a posição de condução (o guiador foi elevado) que mesmo para condutores mais altos se revela muito boa.


No “off-road” tenho de destacar a facilidade com que a Multistrada V4 S digere os maiores impactos. As suspensões Skyhook têm uma função que ajuda a manter a moto equilibrada, e de facto ao passar pelos regos carregados de pedras (algumas mais pareciam pedregulhos!) a moto manteve-se sempre bastante estável, dando confiança para acelerar, mas também para manobrar facilmente o seu peso nas zonas mais técnicas.

Talvez o maior elogio que posso fazer à Multistrada V4 S em configuração enduro é que não me senti atrapalhado, mesmo quando a tração parecia ser nula, e depois de um percurso de mais de 40 km estava pronto para o repetir. E isso quer dizer muito!

Veredicto Ducati Multistrada V4 S


Embora a minha ideia de diversão não seja levar uma moto de 243 kg e que custa mais de 22.000 euros para fazer percursos de enduro, a verdade é que nesta apresentação fiquei ainda mais convencido das reais capacidades da Ducati Multistrada.

É uma verdadeira “4 em 1”, fácil de conduzir, aterradoramente eficaz, e com tantas ajudas eletrónicas que será preciso muito tempo até conseguirmos testar tudo o que esta aventureira tecnológica tem para oferecer.

O motor poderoso e ao mesmo tempo suave, a ciclística que transmite solidez e confiança, a eletrónica que pode ser totalmente personalizada, até mesmo o esbelto painel de instrumentos TFT a cores... a nova Ducati Multistrada V4 S tem tudo.

A única coisa que não gostei mesmo foi a adoção da jante 19 à frente. Preferia manter a 17. Mas assumo que a nova jante torna a Multistrada mais polivalente.

Era divertida em configuração dois cilindros. E continua a ser com quatro cilindros. Mas está mais moto, sente-se mais sólida, melhor concebida para percorrer longas distâncias. Já era uma das minhas motos preferidas. E agora ainda mais fã dela fiquei!

Neste teste utilizámos os seguintes equipamentos de proteção


Capacete – Nolan N70-2 X
Blusão – REV’IT! Horizon 2
Calças – REV’IT! Horizon 2
Luvas – Ixon RS Slick HP
Botas – TCX Infinity Evo Gore-tex

Galeria de fotos Ducati Multistrada V4 S

Faça uma consulta e veja caracteristicas detalhadas:

Ducati Multistrada V4 S | Moto | Multistrada

andardemoto.pt @ 29-3-2021 18:47:36


Clique aqui para ver mais sobre: Test drives