Teste Ducati Scrambler Nightshift - Inspiração noturna

A Ducati simplificou a gama Scrambler com a introdução da variante Nightshift que une elementos das antigas Full Throttle e Café Racer. O resultado é uma scrambler italiana de inspiração no lado mais escuro da noite.

andardemoto.pt @ 12-8-2021 11:23:46 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: Luis Duarte

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Ducati Scrambler Nightshift | Moto | Scrambler


Anunciada no final de 2014, a gama Scrambler da Ducati tornou-se num enorme sucesso e tem vindo a garantir à casa de Borgo Panigale uma rentabilidade muito assinalável. Basta verificar que a Ducati anunciou que junho de 2021 foi o melhor mês de sempre em termos de unidades vendidas, e as Scrambler têm uma importância muito relevante para este excelente resultado.

O fator “cool”, o agradável estilo neo-retro, a imagem rebelde das scrambler preparadas para aventuras fora de estrada, tudo isto contribuiu para que a gama Ducati Scrambler se tornasse numa favorita do público e, principalmente, conseguisse atrair para dentro da família da marca de Borgo Panigale uma enorme quantidade de novos Ducatisti.

Agora, e depois de inúmeras variantes, a gama Scrambler simplificou-se para 2021. Os responsáveis da Ducati anunciaram o fim das versões Café Racer – que já testámos aqui – e também da Full Throttle.


Chegou então a nova Ducati Scrambler Nightshift, que para além de aproveitar alguns elementos das duas variantes que desapareceram do catálogo, inspirou-se no lado mais escuro da noite através de uma opção cromática muito apelativa denominada Aviator Grey, um cinzento acetinado que combina com as formas esculpidas desta scrambler, particularmente com os porta-números da Full Throttle e que aqui encaixam na perfeição num conjunto que se destaca na estrada pela simplicidade e, simultaneamente, por uma presença inconfundível na estrada.

Como qualquer scrambler que se preze, a Ducati Scrambler Nightshift dispensa qualquer elemento supérfluo e aposta na simplicidade, quer em termos estéticos, quer ainda em termos mecânicos. É por essa razão que a equipa que criou a Nightshift optou por manter relativamente intocado o motor L-Twin de 803 cc.

Se o caro leitor se conseguir lembrar – e eu estou certo que se lembra! –, podemos traçar as origens deste motor à Monster 796, moto que também desapareceu do catálogo da marca italiana. É um motor esbelto do ponto de vista estético, com um acabamento em preto brilhante e no qual se destacam detalhes maquinados em ambos os lados, o que acaba por criar um contraste muito interessante.


Do ponto de vista mecânico, o L-twin refrigerado por ar e óleo não vai impressionar aqueles motociclistas que procuram potência “pura e dura”, números de performance que impressionem os amigos nas conversas de café. Mas aquilo que este motor bicilíndrico em L oferece é um comportamento muito linear, progressivo e fácil de explorar, sem esquecer o fator diversão que associamos sempre a um modelo scrambler.

Para cumprir com as mais restritivas normas Euro5 a Ducati foi obrigada a alterar alguns dos componentes internos. É verdade que o diâmetro e curso dos pistões manteve-se inalterado para uma cilindrada de 803 cc. Mas válvulas, injetores, sistema de escape, admissão e a caixa de ar são tudo elementos novos. Adicionalmente, os parâmetros da injeção foram também redefinidos.

Quando colocamos o motor a funcionar e está frio, devido às muitas restrições Euro5, o bicilíndrico apresenta um funcionamento bastante rude. E muitas vezes vai abaixo! Mas não é avaria. É apenas até ganhar alguma temperatura.

Não podemos chegar de manhã à Nightshift e esperar arrancar com ela assim que carregamos na ignição. Será necessário aguardar um pouco até sentirmos o tom da sonoridade viciante que emana das ponteiras laterais mudar ligeiramente. A partir daí, a pequena italiana está pronta para a diversão.


Com uma potência de 73 cv às 8.250 rpm e binário máximo ligeiramente superior aos 66 Nm, esta unidade motriz não impressiona pela sua performance. Mas a forma como nos ligamos através do acelerador ao dois cilindros é maravilhosa, e a cada rodar de punho direito corresponde uma subida de rotações previsível e rápida para um motor deste tipo, que não foi pensado para grandes correrias, mas que não se amedronta se o espicaçarmos.

Acima das 6.000 rpm sente-se que o motor começa a perder fôlego e as vibrações aumentam, e é quase irrelevante levar as rotações para cima desse patamar à espera de encontrar algo mais. O melhor mesmo é desfrutar da alegria com que os pouco mais de 70 cv italianos correm nos médios regimes, num ritmo descontraído, amigável e pouco intimidante.

As trocas de caixa podem (e devem!) ser realizadas de forma antecipada em relação ao que habitualmente faríamos noutras motos, surfando então na onda de binário logo a partir das 3.500 rpm e que fica disponível até às 5.700 rpm sem apresentar falhas. Como referi, é um motor simples, mas com bastante caráter, e que nos leva a divertir enquanto exploramos aquilo que tem para nos oferecer.



Outra característica que notei diferença nesta Scrambler Nightshift para outras variantes da gama é a sua posição de condução.

O guiador é plano e bastante estreito, sem ser muito elevado. Uma grande diferença para a variante Full Throttle. Mas também não deixa o condutor “deitar-se” totalmente sobre o depósito em forma de gota e com capacidade para 13,5 litros de combustível. Aos comandos da Scrambler Nightshift ficamos um pouco mais descaídos sobre a dianteira da moto, sem que os braços fiquem em esforço como acontecia na Scrambler Café Racer com os seus avanços baixos.

É uma posição de condução agradável e que se ajusta perfeitamente às capacidades dinâmicas da Nightshift. A estrutura que suporta o motor e todo o conjunto é o bem conhecido quadro em aço tubular, com desenho em treliça. A sua geometria não é agressiva, ou seja, isto garante que os movimentos da Scrambler Nightshift são naturais e a moto revela-se pouco nervosa apesar da curta distância entre eixos de 1445 mm.


Uma característica que notei enquanto desfrutei dos meus dias aos comandos da Scrambler Nightshift, e enquanto me recordava da condução de outras versões desta “oitocentos” que tive a oportunidade de testar ao longo dos anos, foi o facto de sentir-me muito mais confortável a movimentar-me em cima da moto enquanto a moto inclina para a curva.

De facto, o novo assento plano em conjunto com a posição de condução que nos obriga a descair sobre a dianteira da moto, leva a que o condutor, de forma inconsciente, saia do assento para se posicionar em curva de forma a sentir melhor o que a moto está a fazer.

Desta forma maximizamos a velocidade em curva, e sentimos maior prazer de condução pois não estamos perante um conjunto totalmente neutro em termos de “feedback” e reações.

É uma daquelas motos que dizemos que dão “pica” de conduzir. Que nos levam a trabalhar um pouco para retirarmos dela o que queremos.


Com 196 kg de peso a cheio, esta scrambler italiana movimenta-se com graciosidade de curva em curva enquanto trocamos de caixa e descobrimos a leveza da embraiagem hidráulica que substituiu a embraiagem por cabo em 2019.

As trocas de caixa têm um tato algo mecânico, o curso do seletor é um pouco mais longo do que gostaria, mas a engrenagem de cada relação é precisa, e a transmissão está bem escalonada para garantir que temos sempre boa aceleração à saída das curvas e depois temos velocidade máxima suficiente para uns “esticanços” em autoestrada, embora a proteção aerodinâmica seja nula. De qualquer forma, a Nightshift não foi pensada para este tipo de ambiente.

As desacelerações para entrada em curva são acompanhadas por ruidosos “pops & bangs”, algo que contribui, definitivamente, para conferir um fator emocional superior a esta italiana. Apesar de todas as restrições impostas pelo Euro5 e contenção de decibéis, a Ducati consegue sempre ultrapassar esta questão e as suas motos são sempre das mais agradáveis em termos sonoros.


As suspensões Kayaba, bem afinadas para ritmos descontraídos mas com algumas limitações a ritmos mais vivos, digerem bem as imperfeições do asfalto, com o amortecedor traseiro a percorrer os 150 mm de curso de forma controlada, enquanto os pneus Pirelli MT60, de rasto misto, garantem boa aderência, desde que o piso esteja seco. Em piso molhado, naturalmente escorregam um pouco mais, e sem ajudas eletrónicas como controlo de tração, a Scrambler Nightshift torna-se um pouco mais desafiante do ponto de vista da condução em determinadas situações.

Por falar em ajudas eletrónicas à condução, e tendo em conta que a Ducati mantém tudo muito simples a este nível, a Scrambler Nightshift apenas disponibiliza ao condutor a segurança de travagem com ABS e a ajuda adicional da função “cornering”.

Em condução, e apesar do sistema de travagem apenas contar com um disco dianteiro de 330 mm mordido por pinça Brembo de quatro pistões, o que permite visualizar a esbelta jante de raios, a travagem é mais do que suficiente para abrandar o conjunto em distâncias curtas.

O tato dos travões é progressivo e nada esponjoso, e mesmo apertando com algum vigor adicional a manete, o sistema ABS não se faz sentir em excesso, pelo que a consistência na travagem é boa, mesmo em percursos que obrigam a usar com frequência o travão.



Da variante Café Racer a Ducati reaproveitou os espelhos retrovisores fixos nas extremidades do guiador. Há quem não goste deles, e há quem os adore. Pessoalmente, penso que numa scrambler com ligeiras aspirações desportivas como é a Nightshift, os espelhos tipo “bar end” são uma ótima opção.

Por vezes este tipo de espelhos torna-se inútil, pois devido à sua posição extrema deixamos de conseguir visualizar o que está atrás de nós. Para além de que ao passarmos no meio dos automóveis obriga a alguns cuidados extra.

No caso dos espelhos da Scrambler Nightshift nem uma nem outra coisa acontece, pelo que merecem nota positiva em termos funcionais, mas também em termos estéticos, conferindo ao conjunto um certo sabor café racer.

Veredicto Ducati Scrambler Nightshift

A nova variante Nightshift é uma agradável surpresa a vários níveis. Dinamicamente não desilude e é o claro exemplo de que os engenheiros italianos sabem o que fazem no desenvolvimento de uma ciclística que se revela divertida e até certo ponto desafiante.

O motor bicilíndrico pode não ser um portento em performance. Mas é económico, fácil de explorar, particularmente por motociclistas que estão agora a chegar a cilindradas maiores e precisam de um motor menos exigente, e com mais de dez anos de evolução este L-twin tem uma fiabilidade que será muito assinalável.

Depois, e como não poderia deixar de ser, a Scrambler Nightshift é uma moto agradável do ponto de vista estético. Não passa despercebida, a iluminação em LED confere um toque moderno, e os guarda-lamas muito curtos (no caso do dianteiro) ou inexistente (no caso do traseiro) conferem ao conjunto uma imagem de uma certa rebeldia e aventura “off-road”.

Convém ter em conta o seu preço. A gama Scrambler é a mais acessível da família Ducati. São as Scrambler que trazem novos clientes para a marca. Mas esta Nightshift já tem um PVP que ultrapassa os 11.000€. Não é exagerado para a sua qualidade, mas já começa a aproximar-se de outros patamares.

Neste teste utilizámos os seguintes equipamentos de proteção:

Capacete – Nexx X.G100 Carbon
Blusão – REV’IT! Stealth Hoody
Calças – REV’IT! Orlando 2 H2O
Luvas – Ixon RS Slick HP
Botas – TCX X-Blend WP

Galeria de fotos Ducati Scrambler Nightshift

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