Teste Moto Guzzi V100 S Mandello - Raínha do Charme

Nascida da mais arreigada tradição e herdeira da mais profunda paixão que estiveram na origem da fantástica história do motociclismo europeu, foi num dos mais icónicos locais dessa mesma história que a Moto Guzzi V100 Mandello foi apresentada aos media internacionais. Estivemos presentes e vamos aqui contar-lhe tudo.

andardemoto.pt @ 29-11-2022 06:55:00 - Rogério Carmo

A Moto Guzzi V100 Mandello nasceu para provar que tradição e futuro podem andar lado a lado.A par com o charme inegável do motor bicilíndrico em “V” a 90º montado transversalmente no quadro, uma tecnologia que define a imagem das Moto Guzzi da era recente.

Mas os engenheiros de Mandello del Lario, inspirados na inebriante paisagem das imediações do Lago Como, local que viu nascer a marca da águia há já mais de um século, desenharam linhas e projectaram sistemas que transportam a primeira Moto Guzzi “dos próximos 100 anos” da era da manufatura analógica para a era da tecnologia eletrónica.

E por tudo isso, foi com muita curiosidade que me sentei aos comandos da nova V100, na sua versão mais sofisticada, denominada de Mandello S.

O seu aspecto esguio, as curvas delicadas das suas linhas, o nível de equipamento e a qualidade dos acabamentos, já seriam mais do que suficientes para me deixarem impaciente e lhe querer saltar para cima.

Mas mal premi o botão do arranque e os dois cilindros acordaram, rendi-me ao ribombar do escape que prometia sensações únicas. Agarrado aos comandos, apreciei a leveza do seu acionamento e o conforto da ergonomia.

O exuberante painel de instrumentos em TFT a cores de 5 polegadas é suficientemente discreto, legível e bem organizado para não roubar atenção à condução e o interface de utilizador, extremamente simplificado e intuitivo, permite aceder às principais funções, mesmo em andamento, de forma quase intuitiva.

Intrigado e expectante, comecei a rolar e a digerir todo o arsenal electrónico que a V100 Mandello integra de série e que, pela primeira vez numa moto, inclui aerodinâmica adaptativa.

Duas pequenas asas instaladas por cima do depósito de combustível, accionadas por motores elétricos, abrem-se (ou não) a partir de uma velocidade pré-determinada pelo utilizador, que pode ser diferente para cada modo de condução.

O pacote electrónico inclui ainda uma plataforma de medição de inércia de seis eixos, que proporciona Controlo de Tração e ABS com função “cornering”, e um acelerador eletrónico que disponibiliza Cruise Control e quatro modos de condução (Tour, Rain, Road e Sport), cada um deles com gestão independente dos três tipos de mapa de motor, dos quatro níveis de controlo de tração, dos dois níveis de travão-motor e, como já referi, do momento de abertura dos defletores aerodinâmicos laterais. No caso da V100 Mandello S, permite ainda a regulação da suspensão semi-ativa Öhlins Smart EC 2.0.

Entretanto, ia tentando perceber a resposta e a elasticidade do motor, que após 100 anos é o primeiro a sair da velha fábrica dotado de refrigeração por líquido. 

Denominado de “Compact Block”, a sua dimensão, apesar dos 1042cc de cilindrada, é 103 mm mais curta do que o “Small Block” de 853cc que equipa a V85 TT.

Ao rodarem 90 graus as cabeças dos cilindros, os engenheiros da Moto Guzzi puderam reposicionar diversos componentes, sobretudo ao nível da admissão, escape e do sistema de injeção de combustível, criando um centro de gravidade mais baixo e uma maior carga sobre a roda dianteira, além de aumentar o comprimento do monobraço oscilante, agora colocado do lado esquerdo.

Outra diferença que não deve ter escapado aos Guzzistas está nos coletores de escape, que agora saem directamente para baixo e não para a frente, como antigamente.
Além da mais rápida resposta da roda dianteira e da maior confiança e estabilidade que oferece, também a posição de condução se torna mais racional e confortável, como convém a uma moto com pretensões de viajante.

Com mais espaço para as pernas, as cabeças dos cilindros já não são uma ameaça às rótulas dos joelhos e o calor irradiado pelo motor já praticamente não se faz sentir. Outro ponto que me agradou foi a colocação mais convencional do descanso lateral, agora muito mais acessível.


A suavidade de funcionamento é notável, conseguida com recurso a um veio de equilíbrio que proporciona um nível de vibrações extremamente baixo, apenas ligeiramente mais perceptível ao ralenti, para garantir o charme.

Ao enrolar o punho direito com convicção, a potência máxima de 115 cv e o binário com um pico máximo de 105 Nm, 90% dos quais ficam disponíveis logo a partir das 3.500 rpm, são entregues de forma contundente e rápida, mas muito controlada e sem hesitação, até ao limitador de rotações entrar em ação, às 9.500 rpm.

Confesso que nunca cheguei nem lá perto! A grande elasticidade e o elevado binário permitem retomas perfeitamente convincentes e provocam alguma preguiça nas passagens de caixa, com os regimes médios a serem mais do que suficientes para uma condução bastante animada.

Em abono da verdade, as intermináveis sequências de curvas em gancho que caracterizam as estradas dos arredores de Mandello del Lario e o piso húmido, ou mesmo molhado, devido a uma meteorologia pouco favorável, não eram propícios a grandes correrias.

Em parte graças às condições meteorológicas, mas sobretudo também pelas limitações de tempo causadas pelo caos que reina no tráfego aéreo e que obrigou a organização deste evento de apresentação a operar verdadeiros milagres para conseguir reunir e devolver à procedência os diversos jornalistas convidados, o percurso originalmente previsto para o teste foi reduzido a pouco mais de 100 quilómetros.

Ficou a saber a pouco, mas como a V100 Mandello vai chegar a Portugal ainda durante 2022, hei-de ter oportunidade de a explorar mais a fundo. Até porque achei o desempenho da caixa de velocidades um pouco rústico, com o ponto-morto a ser algo difícil de engrenar e a passagem de caixa entre primeira e segunda a ser bastante violenta, tendo-me sido dito pelos técnicos da marca que este facto se deve à pouca quilometragem dos modelos usados nesta apresentação e ao facto de se tratarem de unidades de pré-produção, que são uma espécie de rascunho da versão final, que ainda irá receber alguns ajustes.

No entanto, tirando isso, o seu desempenho é excelente, com um accionamento leve e preciso, e o “blipper” do quickshifter a proporcionar um encanto extra em todas as reduções.Para já, fiquei convencido que esta nova Moto Guzzi é uma daquelas motos que se adapta perfeitamente a vários tipos de utilizações e utilizadores. É uma gentleman’s bike que não passa despercebida e cuja missão é potenciar o prazer de condução. 

A relativamente baixa altura do assento ao solo, a sua agilidade e o conforto, aliados a uma grande facilidade de manobra graças ao centro de gravidade bastante bem conseguido, que disfarça perfeitamente os 233 Kg de peso em ordem de marcha (com todos os fluidos e 90% de combustível), permitem evoluir facilmente no meio do trânsito, desfrutar de uma boa estrada de montanha, ou chegar rapidamente e com estilo a qualquer lugar, com ou sem passageiro e bagagem, independentemente das condições meteorológicas.

Neste capítulo entra a proteção aerodinâmica adaptativa que, pelas razões já mencionadas, não consegui avaliar condignamente.

A marca anuncia, com base em simuladores de software CFD (Computational Fluid Dynamics), em túnel de vento e em testes de estrada, que estes defletores laterais, quando abertos, reduzem a pressão do ar sobre o condutor em 22%, proporcionando à V100 Mandello os níveis de proteção aerodinâmica de motos com maior envergadura e menos desportivas. 

Programado de fábrica, o sistema activa-se aos 70 km/h mas (como, já referi, pode ser alterado entre 30 e 95 km/h) o seu efeito é bastante subtil, e tinha sido interessante poder rolar mais tempo em estrada aberta e a velocidades mais elevadas para poder avaliar a sua eficácia. No entanto, indiscutivelmente, é um argumento incontestável em qualquer picanço de esplanada!

O ecrã pára-brisas regulável eletricamente em altura e o engenhoso sistema integrado de fixação das malas laterais tornam a sua utilização muito prática. A autonomia também é bastante aceitável.

A ficha técnica menciona consumos de 4,7 litros/100km que, na prática, ao longo do dia de teste, a subir e descer montanhas e a provocar o acelerador e a abusar do quickshifter para poder desfrutar da encantadora melodia do escape, segundo o computador de bordo, se converteram numa média de 6,0 litros/100km.

Perfeitamente aceitável e previsivelmente melhorável com a adopção de uma condução menos exuberante, como convém em ritmo de viagem, este valor traduz-se, graças à capacidade de 17 litros do depósito de combustível, em autonomias práticas confortavelmente superiores a 250 quilómetros.



Também importante para quem viaja é o facto de todas as versões contarem com intervalos de manutenções programadas de 12.000 quilómetros.

A suspensão é irrepreensível, com regulação semi-activa nesta versão S, a cargo de uma forquilha NIX e um monoamortecedor TTX, ambos assistidos pelos sistema Öhlins Smart EC que proporciona dois modos de funcionamento (Comfort e Dynamic), que fazem precisamente aquilo a que se propõem, mantendo a moto nivelada tanto em travagem como em aceleração, para extrair a maior performance possível dos pneus Pirelli Angel GT2, Grand Turismo, que estão montados em ambas as versões.

Na travagem também não há nada a argumentar. Assinado pela Brembo, o desempenho do material de fricção é surpreendente e a bomba hidráulica do conjunto dianteiro, também ela radial, garante uma grande capacidade de dosagem.

Além da vasta gama de acessórios de fábrica disponível, esta versão “premium” V100 Mandello S ainda conta de série com iluminação integral em LED, que inclui DRL (luzes diurnas de alto brilho que substituem os convencionais “médios”) com desactivação automática em caso de entrada num túnel ou garagem, quickshifter integral, TPMS, o indicador da pressão dos pneus, e uma tomada USB colocada no exíguo compartimento de arrumação situado por baixo do assento do passageiro. 

Como não podia deixar de ser, numa moto vocacionada para longas viagens, a plataforma multimédia Moto Guzzi MIA, também está disponível de série na versão Mandello S e permite a conexão do smartphone via Bluetooth, incluindo a gestão do sistema de infotainment através de assistente de voz para chamadas telefónicas e GPS. 

A Mandello S está disponível em dois esquemas cromáticos, dos quais se destaca o que pode ver nas fotos, o Verde 2121 e Grigio Avanguardia, as mesmas cores da mítica Moto Guzzi 8 Cilindri, desenhada por Giulio Cesare Carcano especificamente para a Moto Guzzi Grand Prix Racing Team competir nas temporadas de 1955 a 1957 e que com os seus 499cc conseguia atingir uma impressionante velocidade máxima de 275 km/h.

Pode ficar a conhecer melhor a história da Moto Guzzi se clicar aqui.

Equipamento

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