Teste Piaggio MP3 530 hpe Exclusive - Como largar o automóvel

Testámos a última versão do navio almirante das scooters de três rodas, a Piaggio MP3 530 hpe Exclusive. Mais potente, mais leve e com mais tecnologia, ficámos absolutamente convencidos das suas “extraordinárias” capacidades.

andardemoto.pt @ 21-11-2022 15:05:19 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte

À primeira vista é bastante obvio o porquê deste adjectivo. O duplo rodado dianteiro já não é novidade, mas não é por isso que deixa de ser uma característica que torna a moto diferente aos olhos do comum mortal.

E se esse mero cidadão tiver a infelicidade de viver dependente de um veículo de quatro rodas e sofrer as agruras de um dia-a-dia citadino, este é um teste que não deve perder. A sua vida tem tudo para poder ser melhor…

Façamos o exercício, criemos a fábula triste que de tão real poderia ser contada por qualquer um dos nossos amigos, irmãos, vizinhos, colegas de trabalho…

São 7h30 da manhã e o Jorge (aos Jorges que se sentirem incomodados com a personificação, leiam Aristides) está mais uma vez atrasado. Porque o jogo de futebol acabou tarde, porque a cama estava demasiado confortável, porque a camisa que queria vestir não estava passada ou até porque o raio da máquina de café não quis colaborar, não interessa, o drama é palpável.

A aplicação que lhe diz quanto tempo dura o trajecto até ao trabalho está cheia de pontos vermelhos, dá-lhe uma estimativa com 20 minutos a mais do que gostaria, e ainda por cima choveu na noite anterior, logo há a possibilidade de estarem a acontecer mais acidentes nesse preciso momento.

A viagem faz-se num limbo entre a loucura e o ataque de pânico. Os chicos espertos que furam todo o civismo para ganharem uns metros e os egoístas que não percebem que o trânsito se comporta como um fluido, ao não facilitarem, fazem de rolha…e de bestas. 

O Jorge chega ao trabalho cansado de bufar. Na secretária ao lado está o Paulo (os ofendidos Paulos leiam Fagundes). Veio de moto. Chegou a horas e saiu ao mesmo tempo de sua casa.

Viram ambos o mesmo jogo de futebol tardio e o Paulo ainda diz que levou o miúdo à escola antes de vir para o escritório. Sem ter noção do quanto magoa o colega, ainda comenta que o trânsito estava péssimo.

Esta estória acontece todos os dias. Existe um enorme grupo de automobilistas que querem ganhar qualidade de vida, mas que não fazem questão de abraçar o motociclismo. Querem ter uma máquina que tenha a capacidade de percorrer as vias mais rápidas com segurança, querem estacionar de modo inteligente e prático e querem vencer o trânsito. Tudo isto sem comprar o blusão de cabedal cheio de emblemas ou tirar a carta de condução de motociclos.

Aqui entra a mestria das Piaggio MP3, as primeiras motos que se enquadraram na categoria de triciclos e permitiram a um automobilista infeliz, ver a luz ao fundo do túnel. O modelo que vos trazemos hoje é o porta estandarte, a poderosa MP3 530 hpe Exclusive.

Esta última versão estreia um motor actualizado para o Euro 5, uma câmara de video traseira para facilitar as manobras de marcha-atrás, um sensor de ângulo morto, melhorias na travagem, novas jantes e uma revisão estética para a colocar a par das tendências de mercado.

E sim, continua com as características basilares (a largura do eixo frontal e o travão de pé) que lhe permitem estar homologada como triciclo, podendo ser conduzida com carta de automóvel. 


Muito embora esteja ligeiramente mais leve (perdeu cerca de 7 Kg, pesando ainda uns expressivos 280 Kg), a sua presença continua imponente, a MP3 530 é uma moto volumosa e de silhueta marcante.

Toda a secção frontal foi redesenhada, estando mais elegante e com traços mais finos, e este premissa estende-se pelos restantes elementos (um destaque especial para o largo grupo óptico traseiro, nitidamente uma provocação aos "inimigos” das quatro rodas). 

Aos seus comandos, a qualidade geral é bem vincada, os comutadores têm um toque sólido e não foram sentidas vibrações ou ruídos indesejados nos pisos mais difíceis.

O grande ecrã TFT de 7” domina o enquadramento visual do condutor, e a elegância do design agradou-nos particularmente.

Os três mapas de condução (Sport, Eco e Confort) alteram a personalidade do motor e disponibilizam três gráficos diferentes que acabam por dar uma dose de entretenimento/informação extra ao condutor (entrega de potência, média de consumos e velocidade média, respectivamente).

Ao acionarmos a marcha atrás (com a suspensão devidamente bloqueada na posição vertical) a câmara traseira transmite a imagem para o ecrã, e apenas temos que premir o botão de start para dar vida a um pequeno motor elétrico e fazer a magia acontecer. Garanto-vos que os transeuntes ficam doidos. Acho que cheguei a ouvir palmas, mas não tenho a certeza…

Em andamento, o motor sente-se bastante responsivo (monocilíndrico de 530cc, debitando 44 cv às 7250 rpm e 50 Nm às 5250 rpm) nos baixos e médios regimes, e o acelerador electrónico mostra-se bem parametrizado, sem hesitações ou delays dignos de nota. Tem contudo a mola do actuador demasiado forte, o que faz que qualquer distracção na pressão do punho dê origem a uma imediata desaceleração. O hábito evitará tais nabices…

A disponibilidade e pronta resposta do monocilíndrico (chega a fazer uma voz zangada e ríspida, bem divertida), faz dela a rainha dos semáforos com golpes de artista. Conseguimos arrancar primeiro que todos os outros sem pôr os pés no chão, utilizando o bloqueador de inclinação (acionado por um comutador junto ao punho, numa operação fácil e descomplicada) segundos antes de parar e arrancado a fundo logo de seguida. Mais uma vez, juro que ouvi palmas e gritos de euforia!

A Piaggio MP3 530 não tem a agilidade típica de uma scooter, até porque há muita coisa a acontecer no eixo dianteiro, mas não deixa de nos surpreender com a confiança que demonstra a atacar os pisos mais escorregadios e degradados (o auxilio do controlo de tracção entra em cena nestes contextos).

Não se trata de uma atitude desportiva, mas sim de pura sensação de grip mecânico patrocinada pelo dobro da borracha. Depois de nos habituarmos aos timings de inserção em curva, abusamos da velocidade com a consciência de que jamais o poderia fazer numa maxi-scooter convencional. Este é um truque que não cansa. 

Em estrada aberta, o enorme volume da secção frontal (óptima protecção aerodinâmica, provida pelo enorme deflector, não ajustável) e o peso do conjunto fazem com que a progressão do motor nos altos regimes seja algo lenta. Mas mesmo assim conseguimos ultrapassar largamente os limites impostos por lei, o que significa que as ultrapassagens são sempre possíveis de forma segura e eficiente. 


Nestas alturas entra em funcionamento o sensor que nos alerta da aproximação de um objecto no ângulo morto (com um aviso colorido e bem destacado no ecrã digital), um auxílio eficaz e privilegiado neste tipo de contextos. O cruise control é de série nesta versão Exclusive.

No panorama ciclístico, as suspensões (sobretudo as dianteiras) têm um pisar algo rijo, sentindo-se bruscas nos empedrados e noutros ressaltos semelhantes. Gostaríamos de outro refinamento, até porque toda a compostura do conjunto se pauta pela estabilidade geral.

O assento largo para o condutor (é uma moto que onde temos bastante espaço de movimentação) e passageiro casam com um bom funcionamento da suspensão traseira, o conforto é a nota dominante. A travagem é competente, mas gostaríamos de um pouco mais de potência inicial no travão dianteiro, afinal de contas, temos o dobro da pegada de borracha no asfalto!

Em contrapartida, o travão de pé é pouco linear, com uma pressão inicial algo amorfa mas que rapidamente nos apanha desprevenidos se accionado com mais convicção. Todos estes traços de personalidade serão compreendidos com o tempo, sendo muito mais feitio que defeito. 

A nível da praticabilidade do conceito de scooter, temos um espaço de arrumação debaixo do assento capaz de albergar dois capacetes (algo pouco comum no reino das maxi-scooters), ou um integral mais equipamento, e dispomos também de um compartimento bastante espaçoso (infelizmente não bloqueável) com ficha USB, no topo do cockpit. A chave pode ficar sempre no bolso (graças à função keyless), e o conforto do travão de estacionamento permite-nos evitar a utilização do descanso central. 
O Jorge pode ganhar qualidade de vida sem ter de tirar a carta de moto. Ganhará tempo, gastará menos dinheiro em gasolina (os consumos desta Piaggio MP3 530 conseguem manter-se facilmente abaixo dos 5L/100km), e viverá o seu quotidiano de forma muito mais práctica e descomplicada.

Evitando a inscrição na escola de condução, para conduzir esta maxi-scooter carregada de tecnologia e exclusividade terá de desembolsar 13 200 €. E então poderá rivalizar (com orgulho) com os outros colegas que escolhem estas máquinas topo de gama para se movimentarem no tecido urbano. Mas com mais uns truques na manga…

Equipamento:

Neste teste usámos o seguinte equipamento de proteção e segurança:

Blusão RSW N222
Capacete Nexx X.VILIBY Signature
Luvas RSW MSL-008
Calças Ixon Mike
Botas TCX RO4D WP


andardemoto.pt @ 21-11-2022 15:05:19 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte


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