Contraponto CFMoto 800 MT Explore vs Ducati Multistrada V2 S - Dilemas existenciais

Se inverterem esta expressão, irão entender onde queremos chegar. Conseguirá o Bom, ser inimigo do Óptimo? Serão os mais de 5k € de diferença que separam estas duas motos, suficientes para impossibilitar a sua comparação? Vamos provar-vos que não, nas próximas linhas…

andardemoto.pt @ 29-11-2023 10:43:59

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CFMOTO 800MT Explore | Moto | Touring
Ducati Multistrada V2 S | Moto | Multistrada

Bem sabemos que o ditado original se refere à eterna busca de perfeição, que no seu extremo, poderá bloquear a capacidade produtiva ao ponto de os mínimos não serem atingidos. Pegando na sua antítese, alcançamos um silogismo completamente diferente: a comparação de duas realidades que se encontram em patamares distintos. Neste caso específico, uma das motos que gerou mais interesse no seu ano de lançamento (a CFMOTO 800 MT), busca alcançar a a fama entre modelos que atingem efemérides bastante importantes. A Ducati Multistrada fez 20 anos de “carreira” este ano, e esta versão V2 permanece como porta de entrada nessa família. Ambas são máquinas prontas para viajar de modo despachado, propondo o conforto e a capacidade de carga de uma trail. As jantes de 19” dianteiras que montam, sugere uma polivalência capaz de sair do asfalto sem problemas de consciência. 

A CFMOTO 800 MT Explore, representa o porta-estandarte da gama MT, alavancado todo o seu potencial num nível de equipamento (sobretudo electrónico) pouco comum para este segmento. A sua receptividade no mercado foi surpreendente, tanto pelas críticas positivas ao fim de longas jornadas (podem ler o nosso teste aqui), como pelo interesse gerado pelo público. Um produto sólido, bem construído, de estética apelativa e com um preço acessível para o que propõe. Convenhamos que um radar traseiro e um ecrã táctil de 8” (não temos como não chamar de tablet) são artifícios pouco comuns numa moto que custa menos de 13k euros. A chamada “cereja no topo do bolo”, nunca fez tanto sentido.

Nascida num mundo mais elitista, a Ducati Multistrada V2 S é um portento de bom gosto estético e de eficácia dinâmica. Sem complexos por ser o membro menos poderoso da família, tem bastante orgulho na sua personalidade própria (podem ler o nosso teste aqui), e tem razões para tal. O seu bicilíndrico em L mantém o perfume da distribuição desmodrómica, exalando uma alma muito genuína. As suspensões electrónicas com tecnologia Skyhook dão o mote para o grande “S” pintado a vermelho, e a excelência que carrega aos ombros, a exclusividade da marca, coloca os valores marginalmente acima dos 18k €. Mas como dizem os italianos: “La bellezza non basta!”

Qualidade de vida a bordo

Começando pela posição de condução, eis que surgem as primeiras grandes diferenças. As formas mais esguias da Multistrada proporcionam um encaixe quase perfeito de toda a nossa estrutura física, sentimos que estamos “dentro” da moto, e não “em cima” dela. Os braços seguem bem esticados graças à largura generosa do guiador, e a atenção ao detalhe surge em pormenores como os bonitos comutadores retro iluminados (também presentes na EXplore…) ou até mesmo as hastes dos espelhos estilizadas. A Ducati sente-se compacta e leve (são 199 Kg a seco contra os 231 Kg da 800 MT), factor que se revela também nas manobras a baixa velocidade. Isto, claro, se ignorarmos o mau humor do Testastretta a baixas rotações…

A CFMOTO é bastante mais angulosa no design, e os indícios da sua inspiração estão à vista de todos (o farolim traseiro e os farois auxiliares são “emprestados” pela Husqvarna Norden 901). A suas linhas mais insolentes casam na perfeição com o espírito aventureiro do grupo Pit Beirer. Esta aspereza sexy só enaltece a identidade da MT, porque a sua génese tem uma reputação sólida. A sua ergonomia mantém o registo mais polivalente, promovendo tanto o controlo em pé, como sentado. Muito embora tenha um tacto - marginalmente - mais mecânico, o bicilíndrico paralelo tem uma comunicação bastante saudável nas toadas mais tranquilas. 


Pacote Tecnológico

Este é um dos pontos fracturantes na análise a estas duas máquinas. Ambas as motos possuem ajudas electrónicas associadas a uma unidade de medição inercial, o que significa que, temos controlo de tracção, anti levantamento da roda dianteira e ABS susceptíveis à inclinação da moto. A Ducati ainda eleva o jogo com umas fantásticas suspensões electrónicas Sachs semi-activas, onde toda a parametrização das mesmas se torna possível no toque de uns quantos botões. A interface deste sistema tem na sua simplicidade um trunfo gigantesco, o ecrã TFT colorido auxilia-nos a percepção do que estamos a alterar com uns grafismos muito bem conseguidos. A ajuda ao arranque nas subidas também se encontra presente, assim como as muito úteis luzes de curva (vulgo “Cornering Lights”).

Do outro lado, temos na CFMOTO um verdadeiro tablet. Existe uma conexão directa ao Apple CarPlay, e o sistema Android tem uma “janela aberta” através da App Carbit Link (possibilitando o espelhamento do telemóvel). Todo um mundo de possibilidades se abre, porque temos navegação com mapa no ecrã, comandos por voz e controlo de multimédia. São 8” de informação pronta para ser explorada e sobretudo…com muita margem de progressão no desenvolvimento de futuras aplicações (o Android Auto estará disponível em breve, garantia da marca). Como se não bastasse, na secção traseira encontramos um radar que serve de sensor de aproximação para os veículos que surgem no ângulo morto ou que se “encostam” em demasia. Os avisos surgem coloridos no painel, sendo que o sistema rapidamente liga o modo de pânico emitindo um estridente sinal sonoro. E sim, senhoras e senhores, esta tecnologia apenas se encontra em modelos que ultrapassam a barreira das duas dezenas de milhar de Euros. Obrigado CFMOTO, por democratizar um suposto luxo (que adiciona uma importante característica de segurança).

Temos mapas de condução para todos os gostos em ambas. Somos capazes de jurar que encontramos um que dizia “N2 ready”, só não nos lembramos em qual das duas.

Emoções ao rubro

Chegada a altura de puxar pelas bielas, ignoramos tudo o que é periférico e concentramo-nos no punho direito. Esta é sempre a parte mais esperada de um teste, a revelação comportamental de um projecto de engenharia perante os seus pares. Surpreendentemente - ou não - não existe uma discrepância gigantesca na performance de ambas. Se esperavam que a Multistrada dizimasse por completo a recém chegada, a verdade é que quando falamos no ganho de velocidade pura, é muito importante perceber como se chega lá. 

Mas sejamos concisos. A Ducati serve-se da sua melhor relação peso potência para ser efectivamente mais rápida, ponto. O Testastretta (um motor bicilíndrico em L com 937 cc, debitando 113 cv @ 9000 rpm e 94 Nm @ 6750 rpm, com accionamento de válvulas por sistema desmodrómico) tem um enorme apetite a subir de regime, é sôfrego pelo ultimo terço de rotação, como se galopássemos em direcção ao apocalipse. Uma verdadeira experiência sensorial, pleno de atitude e raça. 


Sabendo que a Áustria faz fronteira com a Itália, não é de estranhar que a sua habilidade mecânica sorva um pouco desta salutar loucura (o bloco da 800 MT deriva de um motor que deu cartas aquando do seu aparecimento, o LC8c da KTM). Este bicilíndrico paralelo (com 799cc, debitando 91 cv @ 9250 rpm e 75 Nm @ 8000 rpm) tem um pulmão fortíssimo nos médios regimes, bastante mais contundente do que os números revelam, fazendo uivar a sua admissão na tentativa de acompanhar o seu conterrâneo alpino. E não o consegue por muito pouco.

No fundo, estes dois motores são feitos de uma fibra muito especial, aquela que faz toda a carcaça parecer redundante. Basicamente, só queremos passar o dia a repetir o gesto enrolado do punho direito. Mas como - felizmente - as estradas não são feitas apenas de rectas, existe uma parte muito importante do jogo para ser trabalhada. Neste contexto curvilíneo, as ciclísticas têm um comportamento distinto. Fruto de uma ciclística mais refinada, toda a postura da Multistrada rima com precisão e acutilância, em que a frente incisiva se serve de uma travagem sublime (estão presentes os Brembo M40) para fazer trabalhar o cérebro digital Skyhook das suspensões. Quanto mais abusamos, mais cristalinas ficam as reacções. Até o quick-shifter parece ter mente própria, absolutamente infalível. Já na 800 MT não podemos dizer o mesmo, visto que o funcionamento algo errático deste assistente de passagens de caixa fez-nos ter vontade de o desligar. E fica por aqui o maior defeito electrónico desta moto, porque tudo o resto funciona como se esperava. Existe um comportamento saudável das suspensões (Kayaba totalmente ajustáveis em ambos os eixos) e da travagem (ao serviço da J.Juan), sendo que o paradigma de condução tem um pendor mais fluido e menos agressivo. A estabilidade em ângulo é notável. 

Em suma…quando a Ducati dança o tango, a CFMOTO prefere a valsa.

Até ao fim do mundo?

E as viagens? Podemos rolar até ao horizonte com a pendura e as malas carregadas de sapatos e vestidos? Afirmativo. Qualquer uma delas permite atingir o nirvana turístico com conforto e o entusiasmo de um cruise-control ligado. A protecção aerodinâmica de ambas é bastante satisfatória, sendo que o ecrã da Ducati é mais eficaz (salientando o magnífico ajuste a uma só mão), e o descanso central da CFMOTO permitirá olear a corrente sem recorrer a perigosos números de circo. As capacidades do depósito são semelhantes e os consumos são frugais (obviamente, colocando as emoções fortes para segundo plano), mas se o Norte da Europa for o destino, a Explore tem a capacidade de nos aquecer as nádegas (ambas têm punhos aquecidos) através do assento aquecido. 

E se o fora de estrada entrar na equação, as barras de protecção, a protecção de cárter e os Michelin Anakee Adventure em jante raiada da MT, farão muito mais sentido do que correr o risco de mandar uma preciosidade italiana ao chão. Fica o aviso…


A verdade nua e crua

A Ducati Multistrada V2 S é um produto mais sofisticado do que a CFMOTO 800 MT. E se pensaram que tiveram de ler todas estas linhas para nos verem chegar à vossa impressão inicial, estão redondamente enganados. Esta evidência só enaltece o que a 800 MT conseguiu alcançar. Porque em nenhuma altura sentimos que estamos numa moto menos capaz, porque em nenhuma altura a classe média deixou de acompanhar a realeza. Pelo contrário, os truques e artimanhas que lhe servem a argúcia, fazem dela uma moto com enorme capacidade de vingar no nosso mercado. Por alguma razão, a quase totalidade de Multistradas V2 vendidas no nosso país, são as versões “S”. já que a versão normal oferece uma experiência muito menos interessante. Mas isso são outros tostões…


Opinião Rogério Carmo

Se dúvidas houvesse sobre a evolução dos motociclos de marcas chinesas (porque sinceramente: o que é que nos dias de hoje não é lá produzido?) este contraponto serviu para esclarecer isso mesmo.

Obviamente que ninguém fica indiferente aos pergaminhos de uma marca que já venceu inúmeros campeonatos mundiais de velocidade, nem ao charme de um puro design italiano. 

Claro que também ninguém se pode abster do facto de, apesar de ser uma das mais conceituadas e experientes marcas chinesas, a CFMoto não se veja de certa maneira comprometida pela má fama dos produtos com que, durante décadas, felizmente passadas, o império do meio inundou o mundo capitalista.

Mas como em tudo na vida, para a maioria dos mortais, nem sempre o melhor do mundo é o melhor que se pode ou deve ter, e os produtos chineses têm vindo a cobrir com enorme sucesso as necessidades de consumidores com menos poder de compra… ou com mais visão financeira.

Não há dúvidas que a Ducati Multistrada V2 oferece uma experiência de condução incrível, com um comportamento dinâmico refinado e linhas estonteantes. Mas não deixa de ser verdade que a CFMoto 800MT não lhe fica significamente atrás, nem na qualidade de construção, nem no desempenho dinâmico, nem no design (gostos não se discutem) e ainda acrescenta uns pozinhos no capítulo da tecnologia. Eventualmente será também mais económica em termos de manutenção, tem uma rede de concessionários mais alargada, vem preparada para enfrentar as eventuais desventuras de um offroad ligeiro e ainda sobram cinco mil e tal euros para gastar em gasolina…

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Ducati Multistrada V2 S | Moto | Multistrada

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