Teste Morbidelli T1002VX - Água na Boca
A apresentação europeia desta nova Big Trail deixou-me água na boca. A meteorologia não ajudou. Ficou a faltar alcatrão seco, e uns raios de sol, para poder avaliar melhor esta novidade Italo-Chinesa. Mas abriu o apetite para um próximo contacto.
andardemoto.pt @ 9-4-2025 18:03:41
As primeiras impressões foram positivas. A Morbidelli apostou forte neste modelo. Bons acabamentos, boa ergonomia, bem equipada, linhas atrativas e um posto de condução confortável e desafogado, a par com diversas mordomias, deixaram-me efectivamente com água na boca para poder ficar a saber até que ponto é que o reduzido preço desta Morbidelli T1002VX é uma verdadeira pechincha! Porque apesar de o contacto que tive com ela ter sido bastante escasso, revelou um grande potencial.
A marca do grupo Keeway (que também detém as marcas Benelli e Benda) com sede em Xangai, valendo-se de um motor de 997cc com dois cilindros em “V” a 80º (estreado na estonteante cruiser Morbidelli C1002V) que oferece um elevado binário disponível desde baixa rotação, mantendo-se vivo até debitar 87,2 cv às 7500 rpm, criou a base para uma “Papa Quilómetros” que permite andamentos vivos mesmo com bagagem ou passageiro.
Para mais, conta com ajudas eletrónicas avançadas como o sistema Bosch ABS Pro, e acelerador “Ride-by-wire” disponibilizando quatro modos de condução que ajustam a entrega de potência e a intervenção do ABS e do controlo de tração.
No modo Standard, a potência máxima é reduzida para 75%, ideal para uso diário, o ABS e o CBC (Corner Brake Control), tal como o controlo de tração (TCS) estão ativos para maior estabilidade. Em modo Sport o motor debita a potência máxima, a resposta do acelerador é mais rápida e o controlo de tração é desativado para uma condução mais agressiva.
Em modo Off-Road a resposta do acelerador é mais brusca, mas com a potência máxima reduzida, enquanto o ABS e o TCS são desativados.
No modo Rain a entrega de potência é reduzida para melhorar a tração em superfícies molhadas, e o ABS e o TCS ficam muito mais sensíveis. No entanto, em modo Rain a eletrónica torna-se bastante castradora, e apesar das más condições encontradas, acabei por nunca o usar, preferi o modo Standard que se mostrou extremamente competente para ultrapassar os desafios impostos pelas condições meteorológicas, permitindo ritmos interessantes com elevada segurança, graças à suave resposta do acelerador e boa dosagem da travagem.
A suspensão, assinada pela Kayaba e ajustável em ambos os eixos, apresenta-se firme, quase desportiva, com uma forquilha invertida de 43mm de diâmetro e um curso de 184mm, e com a traseira a usar um mono-amortecedor com pro-link oferecendo um curso de 77,4mm num braço oscilante em alumínio.
A travagem, a cargo de material JJuan, conta com discos de 320mm e pinças de 4 pistões de instalação radial na frente e um disco de 260mm com pinça simples na traseira, revelando-se forte e doseável, beneficiando ainda do excelente desempenho dos pneus Pirelli Scorpion Rally que deixam brilhar o cornering ABS.
Jantes raiadas tubeless de 17 polegadas atrás e 19 polegadas na frente, ecrã pára-brisas facilmente regulável em altura, punhos e assento aquecidos, manetes reguláveis, comandos retroiluminados, cruise control, espelhos retrovisores firmes e com boa visibilidade, proteções de punhos, de cárter e de carenagem, cavalete central, tomada USB, tomada de 12V e um painel de instrumentos TFT a cores de 7 polegadas com alta luminosidade, são mordomias que muito se agradecem, sobretudo nas grandes viagens.
Em termos de segurança, a região da Emilia Romanha, nos arredores de Bolonha, ajudou a comprovar o excelente desempenho geral da T1002VX, graças ao piso molhado das retorcidas estradas, extremamente degradado e sujo, com muitas obras e desabamentos frequentes, por onde fui levado no teste da apresentação europeia que a marca recentemente proporcionou aos media especializados.
Em termos de conforto a nova Morbidelli também não desiludiu. A proteção aerodinâmica é boa e a suspensão, apesar de alguns colegas jornalistas se terem queixado de alguma dureza (talvez por serem mais leves que eu) a mim não me molestou. Até mesmo o assento foi bastante simpático com o fundo das minhas costas, mesmo quando as rodas tragavam buracos e ressaltos de dimensões respeitáveis.
No entanto nem tudo são rosas para os mais puristas. Não que sejam defeitos, antes pequenas irritações, há fatores que a Morbidelli pode rever para tornar esta máquina ainda mais competitiva e apetecível. Primeiro, a questão dos modos de condução que não podem ser alterados em andamento. A moto tem mesmo que estar parada para que estes possam ser definidos. Desligando a chave, será necessário voltar escolher outro modo, se não se pretender continuar em modo Standard.
A regulação de altura do ecrã pára-brisas, apesar de simples, também deve ser feita com a moto parada, já que necessita das duas mãos em simultâneo para o seu reposicionamento. Também a regulação da pré-carga do amortecedor traseiro podia ser mais fácil, com a instalação de um regulador remoto.
Apesar de a caixa de velocidades ser suave e precisa, e de a embraiagem deslizante de comando hidráulico ser extremamente leve, a Morbidelli T1002VX não tem quickshifter, nem como opcional, o que podia elevar ainda mais a experiência de condução. Felizmente o bom escalonamento da caixa de velocidades e a grande disponibilidade de binário não exigem muitas passagens de caixa.
O peso de 265 quilos (em ordem de marcha e com as malas incluídas) nota-se apenas em manobra, mas é facilmente contornável pela razoável altura do assento ao solo que, para estaturas superiores a 1,75 metros, permite apoiar confortavelmente ambos os pés no chão.
Relativamente a autonomia, o depósito de combustível com capacidade para 20 litros e um consumo a rondar os 6 litros/100km em ritmos pouco aconselháveis para mototurismo, é suficiente para paragens de reabastecimento a intervalos superiores a 300 quilómetros.
Não sendo uma moto específica para um fora de estrada radical, apesar da posição de condução em pé ser bastante boa e de as peseiras de borracha poderem ser facilmente convertidas para maior aderência, está limitada pela dureza, pouco curso das suspensões e pela altura livre ao solo (150mm).
No entanto, a escolha de pneus indica que se deve esperar um comportamento bastante honesto em estrada de terra, algo que infelizmente não pude experimentar apesar de, durante os cerca de 150 quilómetros feitos nesta apresentação, ter enfrentado asfalto tão molhado, degradado e sujo, que era igualmente exigente.
A experiência de condução é extremamente agradável, com uma grande sensação de controlo e uma grande disponibilidade do motor, beneficiando da ausência de vibrações aberrantes, da agradável nota de escape, do acelerador bem doseável, da boa precisão da direção e facilidade de inserção em curva, da excelente estabilidade e até das suas linhas agradáveis, com pormenores bastante cuidados.
Nem sequer falta conetividade 4G integrada e a App Morbidelli Connect que oferecem a possibilidade de definir lembretes de manutenção, receber notificações de qualquer movimento não autorizado da moto (funcionalidade que também permite o rastreio em caso de perda ou roubo, proporcionando aos motociclistas um nível adicional de segurança).
Tudo somado, justifica a apreciação positiva que faço desta moto, e do esforço que a marca demonstrou ao produzir um conjunto tão completo, mas sem entrar em excessos que penalizassem o custo de produção.
Como disse no início, deixou-me com água na boca para poder fazer mais quilómetros com ela. O seu preço, comparado com a concorrência mais direta, permite que sobre muito dinheiro para muitos e muitos quilómetros a rolar. Um argumento imbatível, na minha perspectiva!
Neste teste usámos o seguinte equipamento de proteção e segurança:
Capacete Schuberth C5
Blusão IXON Ragnar
Calças IXON Ragnar
Luvas IXON MS LOKI
Botas TCX Climatrek Surround GTX
andardemoto.pt @ 9-4-2025 18:03:41
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