1945-2020 - A história dos 75 anos da Montesa

A marca espanhola fundado por Pere Permanyer e Francesc Xavier "Paco" Bultó, celebra este ano 75 anos desde que produziu a sua primeira moto. Conheça a incrível história da Montesa desde 1945 até 2020.

andardemoto.pt @ 2-5-2020 13:25:39

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Logótipo da celebração dos 75 Anos da Montesa

Logótipo da celebração dos 75 Anos da Montesa

Mais conhecida atualmente pelas suas motos de Trial, a espanhola Montesa é uma marca que na realidade tem já uma longa história de vida, com motos para todos os gostos.

Fundada em 1944 por Pere Permanyer e Francesc Xavier "Paco" Bultó, a Montesa, cujo nome reporta a uma antiga ordem militar do século XIV, nasceu numas pequenas instalações de 100 m2 na rua Córcega, em Barcelona.

Apesar de ter nascido em 1944, a Montesa apenas começou a fabricar a sua primeira moto um ano depois. A cumprir em 2020 o seu 75º aniversário, está na altura de revisitarmos a história desta reconhecida marca espanhola.


O INÍCIO E A PRIMEIRA MOTO

Montesa A45 de 1945

Montesa A45 de 1945


Nascido em 1911, Pere Permanyer dedicou-se, desde finais da Guerra Civil Espanhola (1936 a 1939), ao desenvolvimento de gasógenos, gases que serviam de alternativa combustível para os motores a gasolina, para compensar a falta de combustível originada pela guerra.

Permanyer percebeu que, depois da Segunda Guerra Mundial, este tipo de combustível tinha os “dias contados”. O regresso à normalidade permitiria acesso fácil aos combustíveis fósseis, e por isso os gasógenos seriam uma coisa do passado.

Foi assim que decidiu dedicar-se à criação de um motor capaz de ser acoplado a uma bicicleta.

Por conselho de Juan Antonio Soler, Permanyer chegou ao contacto de Francesc Xavier Bultó. Claro está que ambos ficaram imediatamente ligados um ao outro e em 1944 começaram a trabalhar naquela que seria a primeira Montesa.


Montesa A45 de 1945 variante para senhoras

Montesa A45 de 1945 variante para senhoras


O primeiro protótipo nasceu depois de desmontarem e analisarem uma Motobecane de 100 cc. Denominado de XX, esse protótipo foi utilizado numa prova de regularidade em 1945. Infelizmente para Permanyer e Bultó, problemas elétricos impediram que a XX terminasse a prova.

A dupla não desistiu. Em junho de 1945, mais precisamente no dia 17, a Montesa apresentou numa exposição em Barcelona a sua primeira moto: a A45, uma moto que tinha um motor a 2 tempos de 98 cc, caixa de 3 velocidades e uma suspensão dianteira por paralelogramo.

Para além da versão normal, a Montesa idealizou também uma variante para senhoras, com um depósito de combustível mais curto e um quadro recortado para facilitar a subida e descida da moto. Nesse primeiro ano form fabricadas 21 unidades da Montesa A45.



COMEÇA A EVOLUÇÃO... E A COMPETIÇÃO!

Primeira corrida internacional da Montesa foi o Assen TT em 1948

Primeira corrida internacional da Montesa foi o Assen TT em 1948


Em 1946 os dois empresários apresentaram uma nova moto, a B-46/49, que usava um motor de 125 cc.

Como acontece tantas vezes no mundo dos motores, a marca tinha de provar o que valia, enfrentando as suas rivais em pista. Foi assim que, ainda em 1946, a Montesa participou na sua primeira corrida, e a nível nacional venceu os campeonatos de 100 cc e 125 cc. O projeto desportivo da Montesa prosseguiu. Em 1948 participou no Assen TT. Não venceu, mas para uma primeira experiência, o 5º lugar conquistado na categoria 125 cc foi quase como uma vitória.

Para acompanhar o crescimento das vendas e conseguir responder atempadamente aos pedidos dos clientes, a Montesa viu-se obrigada a mudar para umas instalações maiores.

Assim, em 1950, a Montesa, então já detida em diversas percentagens de capital por diferentes investidores, ocupou uma fábrica na rua Pamplona. Dividida em três andares, a fábrica tinha um total de 1500 m2. Mais de dez vezes maior que a primeira fábrica na rua Córcega.


Protótipo da Montesa XX 1945

Protótipo da Montesa XX 1945


Na mesma feira catalã onde tinha apresentado a original A45, a Montesa voltou a mostrar novidades. Em 1951 foi a vez da D-51, e em 1953 foi apresentada a Brio 90. A grande novidade foi que a Montesa decidiu utilizar um sistema de distribuição derivado das motos de competição. A Brio 90 foi uma das estrelas do Salão de Genebra de 1953, e perante o espanto dos motociclistas, a Montesa passou a ser considerada como uma marca verdadeiramente internacional.

A evolução da gama de motos Montesa continuou nos anos seguintes. A Brio 80 (1954), uma moto de cariz utilitário, a Brio 91 (1956), com suspensão melhorada e, em 1958, a Montesa revela no Salão de Genebra o protótipo de uma scooter, a Fura, que Infelizmente nunca passou de protótipo.

Ao nível da competição, as Montesa continuaram a brilhar. Regressaram ao TT na Ilha de Man e venceram a primeira edição das 24 Horas de Montjuic com a Brio 90.


A DIVISÃO E O NASCIMENTO DE UMA ENORME RIVALIDADE

Fábrica da Montesa de 100 m2 em 1945 na rua Córcega de Barcelona

Fábrica da Montesa de 100 m2 em 1945 na rua Córcega de Barcelona


Numa altura complicada para Espanha, a nível económico, Pere Permanyer decidiu que a sua marca tinha de reduzir custos e cancelou os planos desportivos. Paco Bultó não aceitou essa decisão, mas ao estar em posição minoritária, acabou por ceder e decidiu abandonar a Montesa.

Com um dos fundadores da empresa fora do caminho, Leopoldo Milá foi nomeado responsável técnico. Simultâneamente a sigla “B&P” foi removida do logótipo da Montesa. Milá tinha pela frente um enorme desafio para recuperar a marca.



Montesa Brio 91 de 1956

Montesa Brio 91 de 1956


Claro está que, pela forma como foi obrigado a abandonar a Montesa, marca que tinha fundado, Paco Bultó não perdeu muito tempo a criar uma rival para a Montesa. A Bultaco Tralla 101 foi apresentada em 1959, e nesse mesmo ano a Tralla S participou no XV Grande Prémio Internacional de Barcelona.

A Bultaco apareceu com uma equipa de luxo nesta corrida, mas a Montesa não fugiu da luta, e também participou na prova.

Juan Elizalde, aos comandos de uma Brio 125, conseguiu bater por uma escassa décima de segundo o melhor piloto da Bultaco, John Grace. Foi um duelo intenso, que deu mais força a uma rivalidade que se tornou histórica, e que, para além dos duelos na estrada, estava intensa no mundo da competição.

Na gama de estrada, a Montesa apresentou a Brio 110 como resposta à Bultaco Tralla 101. Ao mesmo tempo, Leopoldo Milá decidiu redesenhar por completo o motor monobloco, trabalhando então no que seria o motor da futura Impala.


NA FASE MILÁ NASCE UMA NOVA FÁBRICA E A IMPALA

Montesa Impala 175 de 1962

Montesa Impala 175 de 1962


Leopoldo Milá demorou três anos até apresentar a sucessora das Brio. A Montesa viu-se privada dos seus especialistas que entretanto se transferiram para a rival Bultaco. Milá, como responsável, teve de promover uma verdadeira revolução. A nova equipa respondeu afirmativamente aos pedidos de Leopold Milá e à sua ideia de Milá de criar um motor fiável e que, ao mesmo tempo, tivesse uma aparência pouco comum. 

O novo projecto mantinha o motor do tipo monobloco com a parte térmica e a transmissão fundidas num mesmo bloco, sendo projetado para suportar cilindradas superiores a 175 cc.

Este motor acabou por ser montado num novo quadro que serviu de base para a Impala. Ágil, rápida, mas também com um design apurado, a Impala 175 destacava-se pela forquilha hidráulica, pela corrente coberta e por diversas peças em plástico.


Fábrica da Montesa na rua Pamplona de Barcelona em 1958

Fábrica da Montesa na rua Pamplona de Barcelona em 1958


O êxito do trabalho realizado por Leopold Milá e a sua equipa ficou bem patente naquela que ficou conhecida como “Operação Impala”.

Os pilotos Oriol Regás, Tey Elizalde, Enrique Vernis, Rafael Marsans e Manuel Maristany, com três Montesa Impala 175 e com o apoio de um Land Rover, atravessaram África em 1962, de Sul para Norte, passaram para França de barco, e finalmente prosseguiram por estrada até Barcelona.

A Operação Impala durou 100 dias e percorreu mais de 20.000 km, por todo o tipo de terrenos e caminhos. O sucesso desta aventura demonstrou que Leopold Milá tinha feito um bom trabalho.

Um sucesso de vendas, a Impala 175 mereceu também destaque pelo seu design. E recebeu o prémio ADI-FAD.

Ao mesmo tempo que a Impala 175 estava em desenvolvimento, a Montesa lançou os alicerces daquela que seria, a partir de 1963, a sua nova fábrica em Esplugues, Barcelona. A nova fábrica tinha 10.000 m2, dava trabalho a cerca de 500 trabalhadores e, no final desse ano, a Montesa contou mais de 10.000 motos a sair da sua linha de produção.

A gama Impala saiu de produção em 1970.



ALARGAR O CAMPO DE AÇÃO

Mini Montesa

Mini Montesa


A diversificação de produtos obrigou a marca espanhola a olhar com mais atenção para o segmento dos ciclomotores.

Em 1966 e 1968 lançou, respetivamente, a Montesa 50 e a Indiana 50, modelos que pareciam miniaturas das bem sucedidas Impala. Depois chegou a Mini Montesa, parecida com a Super Cub da Honda. Por falar em motos de dimensões reduzidas, a Montesa fabricou ainda uma moto que ficou para a historia: a Mini Mini.

Quanto ao “Off Road”, e apesar de algumas participações esporádicas em eventos deste tipo nos anos 50, foi na década de 60, e depois da criação do primeiro campeonato de Motocross em Espanha, que a Montesa decidiu efetivamente conquistar notoriedade neste tipo de motos.

Montesa Impala Cross de 1963 a primeira moto TT da marca espanhola

Montesa Impala Cross de 1963 a primeira moto TT da marca espanhola


Contratou Pere Pi para o desenvolvimento das motos “off road”, e em 1961 foi campeã nas categorias 125 e 250 cc. Em 1962, então com uma Impala modificada, a Montesa voltou a conquistar o título em 250 cc. As vitórias, e todo o trabalho realizado no mundo da competição, levaram à primeira moto de TT em 1963: a Impala Cross disponível em cilindradas de 175 e 250 cc.

A Montesa contratou pilotos de renome, aproveitou o potencial do enorme mercado Norte-Americano, e foi alargando a gama de modelos de todo-o-terreno para o motocross, trial e enduro.

Nesse momento e segmentos, a Montesa brilhava mais forte através de motos como a Impala Cross 250, a Cross 66, a esbelta Cappra 250 GP, a Cappra MX 250 de 1971, e a Cappra VR – Vehkonen Réplica em honra do piloto finlandês com o mesmo nome, e muitos outros modelos que foram posicionando a Montesa como uma referência no motocross.


Montesa Enduro H6 (1980)

Montesa Enduro H6 (1980)


No enduro, a Montesa apresentou também modelos relevantes: a Texas, a King Scorpion, que derivava da Cota 247, para o Trial, e a Enduro 250, que era basicamente uma Cappra VR modificada para o Enduro, a Enduro 127L que estava disponível numa variante de 75 cc para os jovens de 16 anos, ou ainda a Enduro 360 H6 de 1978.

No Trial, talvez a modalidade que atualmente mais associamos à marca, a Montesa estreou-se em 1967 com a 250 Trial. Pouco competitiva para esta prática, a 250 Trial acabou suplantada pela bem sucedida Cota 247 que chegou ao mercado em 1968, e permaneceu em produção até 1980! Para além de outros detalhes inovadores, a sua característica mais interessante foi o desenho do depósito, unido ao assento, num elemento fabricado numa peça única.

O primeiro título mundial da Montesa surgiu em 1980, pelas mãos do piloto sueco Ulf Karlson, aos comandos de uma Cota 349.

Entretanto a competição no Trial ia-se tornando mais renhida do que nunca. Marcas italianas apareceram em cena, mas foi preciso esperar até 1992 para a Montesa apresentar mais uma novidade importante.



Montesa Cota 314R (1994) a primeira com motor HRC

Montesa Cota 314R (1994) a primeira com motor HRC


A Cota 311 era revolucionária, com o seu quadro dupla trave e motor de refrigeração por líquido. Em 1994 a Montesa 314R usou, pela primeira vez, um motor preparado pelo HRC, departamento de competição da Honda. Depois de permitir à marca catalã conquistar o seu segundo título mundial, essa 314R chegou ao grande público com a designação Cota 315R.

Esta moto demonstrou estar extremamemente bem concebida, e permitiu a Dougie Lampkin oferecer à Montesa quatro títulos mundiais de Trial consecutivos. Laia Sanz também deslumbrou o público no Mundial de Trial Feminino, e inclusivamente permitiu que o japonês Takahisa Fujinami conquistasse o mundial em 2004.

Mas a Honda abandonou os motores 2 Tempos, e a Montesa foi obrigada a desenvolver uma nova moto. Regressou aos títulos em 2007, e desde então nunca mais houve uma campeã que não fosse uma Montesa Cota com motor a 4 tempos. A partir daí assistimos ao aparecimento de uma verdadeira lenda: Toni Bou, que recentemente conquistou o seu 14º título mundial.


A RESISTENTE MONTESA DE REGRESSO AO ASFALTO

Montesa Crono 350 (1981)

Montesa Crono 350 (1981)


A partir de meados dos anos 70 e início dos 80, uma crise financeira misturada com uma crise política, sem falar na chegada de motos japonesas mais baratas, levou ao desaparecimento de algumas marcas. Mas a Montesa foi resistindo.

E resistiu com o aparecimento de uma nova gama de motos de estrada.

Em 1981 a Montesa apresentou a Crono 350, a moto de estrada com maior cilindrada que a Montesa tinha fabricado até então. Apenas se fabricaram 700 exemplares da Crono, que nunca conseguiu suplantar o interesse demonstrado pelas motos italianas a 4 tempos.

Foi então que a administração da Montesa decidiu fazer renascer uma moto icónica para a marca: a Impala.

Leopold Milá voltou a ficar responsável por esta árdua tarefa. Fácil de utilizar, um cómodo assento com um desenho tipo viola, e um motor que podia ser de 125 ou 175 cc, a Impala renasceu.


Montesa MBX 75 Hurricane

Montesa MBX 75 Hurricane


A produção da renovada Impala começou em 1982 e durou até 1988. E apenas terminou pois os moldes originais usados pela Montesa estavam já demasiado desgastados para permitir fabricar com precisão os componentes necessários para a produção da Impala.

Entretanto o governo espanhol, para ultrapassar a crise e tentar salvar as suas marcas, decidiu permitir a venda de motos japonesas em Espanha. Mas em contrapartida, as marcas japonesas teriam de ajudar as marcas espanholas. A Montesa ficou então ligada à Honda a partir de 1982.

Dessa ligação nasceu a Honda MBX 75 Hurricane. Em julho de 1986 a Honda ficou com 88% do capital da empresa, enquanto que os espanhóis ficaram apenas com 12%.

Com a denominação Montesa Honda S.A., a empresa voltou a deslocar a sua produção, desta feita para a fábrica de Santa Perpétua de Mogoda (2000). Em 2010, em plena recuperação da crise económica, a Honda passou parte da produção para Itália (Atessa), o que obrigou à reorganização das instalações espanholas.


Aqui fica um vídeo que recorda todos os modelos da marca catalã desde 1945 até 2020


Espanha manteve a produção das motos de Trial, tendo grande parte da fábrica alterado o seu propósito, não apenas para servir de base da Honda em solo europeu, como também para produção de componentes.

Com uma produção acumulada de quase 1,3 milhões de motos, a fábrica de Santa Perpétua produz os seguintes modelos: Cota 4Ride, Cota 301RR, Cota 4RT260, Cota Race Réplica e ainda a Honda RTL.

É ali que, hoje em dia, também podemos encontrar as sedes dos departamentos de competição do HRC na Europa e da Repsol Honda de Trial, e também do Instituto de Segurança Honda, que tem uma profunda ligação à Escola de Pilotagem Honda, estrutura que também existe em Portugal, localizada no Kartódromo de Palmela, e que o Andar de Moto visitou recentemente (clique para ver).

A celebrar os 75 anos desde que começou a produção de motos, a Montesa e a Honda estão de parabéns por terem conseguido manter viva uma boa parte da historia do motociclismo espanhol.

andardemoto.pt @ 2-5-2020 13:25:39

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