Ducati Cem Anos de Paixão: Uma história de rádios e lendas do Motociclismo
Da destruição da fábrica na 2ª Grande Guerra ao renascimento com o Cucciolo, da genialidade desmodrómica de Taglioni à beleza intemporal da 916 de Tamburini, passando pela chegada ao Grupo Volkswagen através da Audi e da Lamborghini, decorreu um século de história que transformou uma pequena empresa de rádio em Bolonha na marca de motos mais apaixonante do mundo.
andardemoto.pt @ 2-8-2026 18:48:12 - Texto: Rogério Carmo
A história da Ducati começa muito antes de qualquer motor ribombar em Borgo Panigale. A 4 de julho de 1926, em Bolonha, Adriano Cavalieri Ducati, juntamente com os seus irmãos Bruno e Marcello, constituiu a Società Scientifica Radio Brevetti Ducati, nascida do talento de Adriano para as telecomunicações. Recorde-se que, em 1924, este jovem físico já se tinha destacado ao estabelecer a primeira ligação por rádio entre Itália e os Estados Unidos.
Como tal a Ducati nada tinha a ver com motociclismo: dedicava-se a produzir componentes elétricos e de rádio, condensadores e tubos de vácuo, começando por fabricar o pequeno condensador Manens e equipamentos como máquinas fotográficas, máquinas de barbear e projectores de cinema.
O crescimento foi vertiginoso e em poucos anos a firma passou de uma pequena oficina familiar a um dos grandes nomes da eletrónica europeia, chegando a empregar mais de 11.000 trabalhadores, com escritórios e filiais em cidades como Londres, Paris, Nova Iorque, Sidney e Caracas.
Esse período de expansão foi brutalmente interrompido pela Segunda Guerra Mundial. A fábrica de Borgo Panigale tornou-se alvo dos bombardeamentos aliados, que a destruíram a 12 de outubro de 1944.
Das suas ruínas, porém, nasceria a Ducati que hoje conhecemos: a empresa reinventou-se e, em 1946, na Feira de Milão, os irmãos Ducati lançaram uma bicicleta equipada como o Cucciolo (que em italiano significa "cachorrinho"), um pequeno motor auxiliar que podia ser instalado numa bicicleta e cujo nome derivava do som peculiar do seu escape.
O Cucciolo era um motor a gasolina, com ciclo de quatro tempos, concebido durante e logo após a Segunda Guerra Mundial por Aldo Farinelli, um advogado de Turim que colaborou com o engenheiro autodidata Aldo Leoni. O primeiro protótipo circulou nas ruas de Turim em 1944, ainda em plena guerra.
O sucesso do motor Cucciolo da Ducati foi tal que, poucos anos depois, a marca decidiu dar o passo definitivo: já com mais de 200 mil unidades do motor Cucciolo vendidas, a Ducati apresentou, em colaboração com a SIATA, a sua primeira moto concebida de raiz.
Simplesmente chamada de Cucciolo, era uma moto de 48cc que marcou a entrada oficial da marca no mundo das duas rodas. Sucedeu-lhe a Ducati 60, que com um peso de apenas 44kg, podia percorrer 100 quilómetros com apenas um litro de gasolina.
Foi, no entanto, a chegada de um engenheiro de Lugo di Romagna que mudaria para sempre o destino da marca. Fabio Taglioni entrou para a Ducati em 1954 como diretor técnico e, dois anos depois, dava o seu primeiro grande golpe de génio: o motor 125 Desmo, equipado com o sistema desmodrómico, uma solução mecânica que dispensava as tradicionais molas de válvulas, evitando a sua flutuação a altas rotações e garantindo maior potência e fiabilidade.
Ao longo de mais de trinta anos ao serviço da marca, Taglioni assinaria mais de mil projetos, entre os quais se destacam o icónico bicilíndrico em L a 90 graus e o quadro em treliça, soluções que ainda hoje definem a identidade técnica da Ducati.
Décadas mais tarde, a marca voltaria a reinventar-se, desta vez através do design. Em 1985, a Ducati, à beira da falência, foi resgatada pelo Grupo Cagiva, comandado pelos irmãos Castiglioni. Foi Claudio Castiglioni quem, a partir de 1988, desafiou o designer Massimo Tamburini, antigo cofundador da Bimota apelidado por muitos de "Michelangelo das duas rodas", a criar uma nova geração de superbikes que devolvesse à marca o seu brilho competitivo.
A resposta veio em 1993, apresentada no Salão de Milão: a Ducati 916, desenvolvida ao longo de cinco anos no Centro de Investigação Cagiva em San Marino, com o seu monobraço oscilante, o assento monolugar e o duplo farol integrado na carenagem, um desenho tão marcante que ainda hoje é considerado por muitos como a moto mais bela alguma vez construída.
Sob a alçada da Cagiva, o grupo geria simultaneamente outras marcas históricas do motociclismo italiano, entre as quais a própria Cagiva e a MV Agusta, que Castiglioni também ressuscitaria mais tarde com a ajuda de Tamburini.
O percurso acionista da Ducati não ficaria, contudo, por aqui. Após a saída da Cagiva em 1996, a marca passou pelas mãos da Texas Pacific Group e, mais tarde, da Investindustrial, até que, a 18 de abril de 2012, chegou o anúncio que mudaria definitivamente o seu destino: a Audi AG anunciou a aquisição, junto do Investindustrial Group, da histórica fabricante italiana Ducati Motor Holding S.p.A.
A operação, avaliada em cerca de 860 milhões de euros, seria formalmente concluída a 19 de julho desse ano, quando a Ducati se tornou a décima primeira marca do portefólio do Grupo Volkswagen. É importante perceber a arquitetura exata desta operação: a compra não foi feita diretamente pela Audi, mas sim pela Lamborghini Automobili S.p.A., subsidiária da Audi, ou seja, a Ducati passou a ser propriedade da Lamborghini, que por sua vez pertence à Audi, que por sua vez integra o Grupo Volkswagen.
Diz-se que esta aquisição terá sido, em grande parte, fruto da paixão pessoal de Ferdinand Piëch por motociclismo e, em particular, pela Ducati. O neto de Ferdinand Porsche, que antes de entrar na Audi tinha gerido a própria Porsche, era então presidente do conselho de supervisão da Volkswagen e, depois de anos antes ter falhado uma oportunidade de comprar a marca de Borgo Panigale, realizou assim o seu sonho.
No terreno desportivo, o palmarés da Ducati é um dos mais ricos de todo o motociclismo mundial. No Mundial de Superbikes, Carl Fogarty tornou-se a grande lenda fundadora da marca, com 59 vitórias, 109 pódios e quatro títulos mundiais aos comandos das suas Ducati, consolidando o domínio italiano na categoria antes mesmo de a marca se aventurar em MotoGP.
Troy Bayliss seguiu-lhe as pisadas, tornando-se também campeão mundial de Superbikes pela Ducati, e viria ainda a surpreender toda a grelha com uma vitória de MotoGP em Valência, em 2006, já depois de a marca ter chegado à categoria rainha.
Foi, aliás, em MotoGP que a Ducati viveu alguns dos seus momentos mais gloriosos: Casey Stoner, o "menino de ouro" da marca, conquistou o título mundial de 2007 com a Desmosedici, depois de uma temporada dominante. Seguiu-se uma longa travessia do deserto competitiva, com Andrea Dovizioso a manter a bandeira italiana bem alta, somando vitórias e lutando por títulos sem, no entanto, conseguir destronar Marc Márquez nos anos em que este último ainda corria para a Honda.
A consagração definitiva chegaria com Francesco Bagnaia, que conquistou os títulos de 2022 e 2023, tornando-se o primeiro campeão italiano em Ducati desde Stoner, e assim a Ducati venceria as coroas de Construtores, Equipas e Pilotos.
Mais recentemente, já em 2025, foi a vez de Marc Márquez escrever um novo capítulo desta história: o seu primeiro campeonato do mundo vestido de vermelho Ducati, que representou também o quarto título de pilotos consecutivo da marca, alcançado com três pilotos diferentes, Bagnaia em 2022 e 2023, Jorge Martín em 2024 e Márquez em 2025, um resultado sem precedentes na era moderna da categoria.
Do ponto de vista dos modelos, a Ducati soube sempre transformar a sua herança em identidade comercial. A Scrambler, nascida ainda no tempo de Taglioni e reinventada com enorme sucesso a partir de 2015, tornou-se um dos pilares do catálogo atual, ao lado de propostas tão diferentes entre si quanto a Diavel, a hyper cruiser que redefiniu o conceito de moto de estrada musculada e confortável e, no extremo mais recente e competitivo da gama, a Desmo450 SM, a primeira Supermotard de competição da história da marca, apresentada precisamente na World Ducati Week do centenário.
Entre o Cucciolo de 1946 e a Desmo450 SM de 2026 vão cem anos de história, mas o fio condutor mantém-se intacto: a mesma paixão pela engenharia, pelo design e pela competição que, há um século, começou numa pequena oficina em Bolonha dedicada a... rádios.
andardemoto.pt @ 2-8-2026 18:48:12 - Texto: Rogério Carmo
Clique aqui para ver mais sobre: MotoNews