Norton Dominator 88: diretamente das Terras de Sua Majestade
Vamos agora até à Grã-Bretanha. Temos agora a oportunidade de apresentar uma moto verdadeiramente especial, de uma marca com um palmarés incrível.
andardemoto.pt @ 4-8-2026 21:00:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
Infelizmente, a Norton, apesar do seu passado fulgurante acabou por capitular nas últimas décadas do século passado, apesar de agora, nas mãos dos indianos da TVS Motor Company, estar a dar passos rápidos rumo à ressurreição. Será que vai ter sucesso como ocorreu, por exemplo, com a Royal Enfield?
Um pouco de história
A marca surgiu no mercado ainda no século XIX, mais precisamente quando, em 1898, James Lansdowne Norton, em Birmingham, se começou a dedicar a produzir peças para desenvolver bicicletas com motor, sendo que a sua primeira verdadeira produção ocorreu em 1902 com a inovadora Norton Energette.
Vinha equipada com um pequeno motor de 143 cc, produzido pela francesa Clément e tinha duas velocidades, pouco mais de 2 cv e atingia uns estrondosos 50 km/h, um valor muito interessante para a época.
Pode afirmar-se que foi o começo de uma história inacreditável em que inovação, velocidade, competição ou criatividade andaram sempre de mãos dadas, tal como os problemas financeiros e de gestão, mas já lá vamos.
Foi preciso chegar a 1907 para que a Norton desenvolvesse o seu primeiro motor e foi assim que surgiu a Norton Big Four ou Model 1. Equipada com um motor de 631 cc era um verdadeiro colosso e ajudou muito a marca a cimentar a sua fama também na competição. Teve uma longa carreira de quase 50 anos e até foi usada pelo exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial, já com várias atualizações.
Já agora “Big Four” tem apenas a ver com a taxação a que estava sujeita pela elevada cilindrada. Não tem qualquer relação, por exemplo, com os quatro construtores japoneses de motos que chegaram mais tarde e mudaram a ordem mundial reinante.
Em 1952, numa altura em que vários países europeus ainda recuperavam das feridas da guerra, a Norton lança a sua Dominator 88, com clara inspiração na concorrente Triumph Speed Twin. Equipada com um bicilíndrico paralelo de 497 cc, debitava cerca de 30 cv às 6500 rpm e tinha performances verdadeiramente assombrosas, sendo capaz de atingir mais de 160 km/h. Marcou uma época e ainda hoje é muito apreciada, sendo que o seu puro charme britânico permanece intocável. É ela a rainha desta crónica.
Principais destaques
Vamos ser honestos. Apreciar e conduzir esta moto é algo que tem de ser feito de acordo com os padrões da época e não nos moldes atuais porque só assim se consegue verdadeiramente desfrutar do momento e não querer parar.
Aliás, os travões, dois enormes tambores, são um dos seus pontos mais fracos, mas depois de iniciar a marcha não apetece mais parar! Só mesmo gozar a moto e tudo o que tem para nos oferecer, incluindo uma estética muito bem conseguida, com destaque para as superfícies de reluzentes cromados ou um binário omnipresente, além de uma melodia dos escapes que nos encanta a cada toque no acelerador!
A Dominator 88 sucedeu à Model 7 e rapidamente se tornou num sucesso de vendas, apesar de algumas falhas crónicas, caso da malfadada tendência para pingar óleo, algo comum a praticamente toda a indústria britânica de motociclos da época.
O modelo que apresentamos, com um especial agradecimento ao Octávio, que também serviu de modelo para as fotos, tem matrícula de 1959 e é já das últimas antes da 88SS, essa já com carburador duplo e ainda superior performance.
O seu estado é manifestamente bom, sem chegar a ser de concurso, sendo que já foi alvo de várias melhorias, mas está bastante próxima do original e andar nela é diversão em estado puro, desde que se tenha em atenção a sua personalidade very british.
Nesta altura o Reino Unido ainda tinha as suas particularidades e como potência mundial também no mundo das motos podia dar-se ao luxo de impor as suas regras. Por exemplo, o pedal do lado esquerdo é o travão de trás (bastante incisivo, por sinal) e o pedal das mudanças é à direita e invertido, como na competição: a primeira relação é para cima e as outras três são para baixo! É só ganhar o jeito e curtir!
Já agora no manómetro circular da Smiths, ainda que a agulha se mova da esquerda para a direita, está em km’s e não em milhas e a explicação é muito simples: trata-se de um modelo destinado à exportação, provavelmente destinado à Europa Continental, tal como veio a ocorrer.
Curioso que quando o Octávio adquiriu este exemplar, já lá vão uns anos, o quadro estava torcido. Fruto, provavelmente de uma queda ou, hipótese mais plausível, esta moto participou em corridas, algo perfeitamente comum e destino habitual de muitas destas motos! Usar durante a semana… correr ao sábado ou ao domingo e depois ir repetindo, vezes sem conta!
Impressões de condução
Sentamo-nos na moto e estranhamos um pouco a posição, com os braços algo fletidos para a frente, causando alguma carga nos pulsos e ficando com os joelhos muito abertos, culpa do largo depósito de combustível, mas nada que incomode em demasia ou nos impeça de usufruir desta bela peça de engenharia britânica.
Para colocar o motor em funcionamento há que ter alguns cuidados e o carburador Amal é bastante sensível, mas se estiver tudo ok, com a manete do ar em posição de aberto e uma “patada decidida”, depois de encontrarmos o ponto morto superior, ela pega com facilidade.
Por opção e para mitigar as comuns perdas de óleo do motor, foi montada uma pequena torneira no tubo que liga o depósito lateral de óleo ao motor. É uma ótima escolha, mas também um risco enorme: um simples esquecimento de abrir a dita ao colocar o motor em funcionamento é o suficiente para gripar o motor por falta de óleo!
Depois de o motor acordar para a vida, dar alguns toques no acelerador para sentir o seu coração, deixar este ganhar alguma temperatura e podemos fazer-nos à estrada que é o que a moto nos pede! Como se nos sussurrasse:
- Anda comigo, vamos ser felizes!
Engrena-se a primeira para cima numa embraiagem algo pesada e arrancamos com suavidade, sendo que por volta das 2.000 rpm já se sente o motor. Depois é ir metendo mudanças sendo que o escalonamento da caixa ajuda à diversão, embora a quarta velocidade seja muito longa. Podemos facilmente ir dos 60 aos 120 em 4.ª, sem queixumes de motor, embora a vibração comece a ser omnipresente à medida que a velocidade aumenta e o troar dos escapes se torna viciante!
Já agora, no final de cada voltinha, recomenda-se vivamente uma inspeção regular aos parafusos da moto já que há uma tendência crónica para desapertarem, mais ainda se não houver cuidado no binário do respetivo aperto, mas quem tem estas motos cuida delas e sabe isso tudo. Não é defeito, mas antes feitio!
A moto deixa-se levar com uma facilidade estonteante! O quadro Featherbed (Ninho de Pássaro) é o principal responsável, de tal forma que a condução se torna rapidamente entusiasmante e damos por nós a andar mais depressa e a curvar mais rápido do que o previsto, mesmo sendo os amortecedores apenas sofríveis e os travões ainda piores, sobretudo o dianteiro!
Eu próprio, num momento quase de epifania e em que devia ir mais devagar tive de fazer uso dos travões de forma mais enérgica e fiquei com a certeza de que eram abrandadores! Pior ainda! Nessas circunstâncias o nosso cérebro vai querer dizer-nos para usar a bota direita para travar mais rápido e o resultado, no meu caso, foi meter novamente a quarta velocidade quando tinha acabado de reduzir para terceira e me preparava para ir em busca da segunda!!
Ainda assim, nada disso lhe retira a magia e está lá todo o génio criativo do seu criador Ben Hopwood e, ao nível do quadro, o trabalho brilhante dos irmãos Mc Candless faz com que esta moto nos continue a surpreender e a perceber um pouco mais da sua mística.
Durante algum tempo a 88 ainda coexistiu com a sua sucessora espiritual, a Model 99 (já com motor de 596 cc) e até com a 650 SS (motor de 650 cc), mas acabou por deixar o mercado com uma carreira gloriosa e muitos adeptos, também em Portugal.
Aliás, o seu número de fãs continua a ser tão grande que é possível, mesmo nos dias de hoje, encomendar praticamente todas as peças em Inglaterra, onde há artesãos que produzem um pouco de tudo. Já os preços, a que acrescem portes e taxas aduaneiras, são outra história que não interessa para aqui. Também o número de pessoas em Portugal que conhece estas motos vai diminuindo perigosamente.
Naturalmente que os fãs da marca e do modelo têm de fazer uma visita ao National Motorcycle Museum, em Birmingham (mais precisamente em Bickenhill), para conhecerem mais da indústria britânica de motociclos. Até lá podm sempre consultar a Revista Andar de Moto de novembro de 2025. Para aguçar a curiosidade, lembramos que são cerca de 1000 exemplares, das diferentes marcas britânicas.
Notas finais
Durante mais de meio século a Norton teve um papel de destaque na indústria motociclística mundial e a família Dominator, de que a 88 é um ilustre representante, foram verdadeiros líderes na competição e nas estradas.
Na década de 60 o desaire acentuou-se com problemas de gestão, fusões sem nexo, controlo de qualidade deficiente e depois a machadada final veio com a chegada das motos japonesas.
De qualquer modo, mesmo tendo presente todas as suas idiossincrasias, esta Norton 88 era uma daquelas motos que adorava, como muitos de vós, poder ter na minha garagem. Muito charme, estética cativante e doses massivas de diversão são os seus principais atributos.
andardemoto.pt @ 4-8-2026 21:00:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
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