Heinkel Tourist: a Rolls Royce das Scooters

Vamos até à Alemanha para vos apresentar a “maxi-scooter” Heinkel Tourist 103 A-0, modelo emblemático de uma marca tristemente desaparecida e que deixou muitas saudades.

andardemoto.pt @ 13-8-2026 21:00:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte

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O seu cognome deve-se aos ingleses que a apelidaram assim, tendo presente serem muito luxuosas à época e excecionalmente bem construídas, sólidas e bem equipadas. Nos Estados Unidos, onde também chegaram ainda que em menor quantidade, foram alcunhadas de Cadillac das Scooters, o que diz muito sobre o seu posicionamento no mercado e preços a condizer.

Aliás, consta que na década de 60 uma Heinkel Tourist já com alguns extras, como por exemplo um pára-brisas, custava no nosso país mais ou menos o mesmo preço que um automóvel da marca Mini!

Mais uma vez a Segunda Guerra Mundial

Por muitas razões a II Guerra Mundial (II GM) mudou para sempre o mundo e, como já vimos em situações anteriores, ao nível dos motociclos essa mudança assumiu contornos de revolução, levando ao surgimento de várias marcas, sendo que muitas delas ainda hoje existem.

Infelizmente não é o caso da Heinkel, como vamos ver de seguida numa pequena viagem ao passado. Por detrás da empresa está o nome de Ernst Heinkel, engenheiro alemão, nascido na Suábia em 1888.

Apaixonado por aviões, quase morreu num acidente quando pilotava um, mas isso não o demoveu de construir a sua própria marca e com imenso sucesso, em especial na II GM. Para os mais distraídos, basta pensar no Bombardeiro He111, que flagelou Inglaterra durante o Blitz ou no primeiro avião a jato da história, o He178, que ajudou a mudar a aviação.

Com o fim da guerra e a vitória dos Aliados, os países do Eixo viram-se forçados a abandonar a indústria bélica, nomeadamente a aviação, e a procurar outros produtos e mercados para sobreviver.

É depois nessa altura que as marcas japonesas começam a sua ascensão meteórica, que nasce a Vespa… e também a Heinkel! Não deixa de ser curioso e até irónico como a indústria motociclística mundial vai, mais tarde, ser quase dominada por estes países que foram derrotados na guerra!


Parte do trabalho de desenvolvimento da futura moto já estava feito, graças a alguns pequenos veículos a motor de construção própria, que já eram usados dentro das instalações militares para transporte de peças e deslocações de pessoal. Porém, fazer um produto final de qualidade iria levar o seu tempo, até porque os recursos eram escassos, tal como o poder de compra das pessoas.

Ainda assim, a Heinkel não baixou os braços e apresentou o primeiro protótipo em 1949 e as vendas começaram em 1953 com a 101-A0. Vinha equipada com motor de 149 cc, a 4 tempos, caixa de 3 velocidades e uma qualidade de construção muito acima da média, nomeadamente se comparada com a Vespa ou a Lambretta.

Na geração seguinte, a 102-A1, que iniciou vendas logo no ano seguinte, era ainda mais luxuosa e refinada: vinha equipada com motor de 4 velocidades, sistema elétrico de 12 volts e arranque elétrico! Puro luxo, tudo embrulhado numa scooter equilibrada, bem construída, com muito espaço para condutor e passageiro, económica, aerodinâmica e de uma fiabilidade inquestionável.

Logo em 1955 surge a geração 103-A0 e é sobre ela que vai ser apresentada a presente crónica, tendo por base um magnífico exemplar de 1957 numa cor azul que lhe fica muito bem. Este modelo, nacional, está em bom estado de conservação e muito próximo do original, de tal forma que o Octávio o usa com frequência, nomeadamente para passeios com outros apaixonados da marca.

Turismo em classe executiva

Numa altura em que a Europa se estava a reerguer dos escombros, a equipa liderada por Heinkel apostou numa linha de orientação específica. Não procurou apenas um veículo fácil e económico de conduzir e manter como as suas concorrentes, mas quis ir mais longe, dando-lhe um posicionamento mais elitista e luxuoso, quase como se fosse uma maxi-scooter, destinada a pessoas mais endinheiradas.

O tempo veio mostrar que esta aposta fazia sentido; que existia um nicho de mercado para estas scooters e as vendas globais de mais de 150.000 unidades entre 1953 e 1965 só confirmaram isso. Por outro lado, o facto de ainda haver tantas em circulação hoje em dia, mostra bem a validade do conceito de optar por um produto muito duradouro.

Um bom exemplo é a plataforma central em alumínio. Além de vistosa, fácil de trabalhar e leve, tem ainda outra vantagem inequívoca: é quase imune ao passar do tempo! Ou seja, consegue manter-se com um excelente aspeto mesmo após muitas décadas, algo bem diferente do habitual na época.


Por outro lado, a marca apostava fortemente na publicidade sempre com cartazes muito apelativos, com jovens de sucesso, bem vestidos e arranjados, tudo para transmitir uma mensagem de sucesso e realização, como se conduzir uma Tourist fosse o equivalente a pertencer a uma classe à parte.

Interessante também que no nosso país foram adquiridas várias unidades para serviços públicos, graças à sua lendária robustez e fiabilidade, perfeita para estradas de má qualidade e gasolina ainda pior. O importador, a Simotal, fazia um excelente trabalho de divulgação e as vendas iam surgindo.

De referir que a Heinkel chegou até a produzir um microcarro, o Heinkel Kabine, bastante popular na época e algo raro na atualidade.

 Impressões de condução

Este bonito exemplar de 1957, data confirmada na placa do número do quadro, tem uma cor azul celestial que lhe acentua as linhas e o facto de marcar uns respeitáveis 86.409 km só abona a seu favor, mostrando que está ali para durar.

Aliás, o motor de 4 tempos, com 174 cc e capaz de debitar 9,5 cv às 5.500 rpm, não tem qualquer dificuldade em deslocar os seus 150 kg de peso em ordem de marcha. Mesmo carregada com condutor e passageiro consegue surpreender-nos pela forma ágil e divertida com que se deixa levar, a que não é alheio o leve e robusto quadro tubular em aço.

Ainda antes de a conduzir há mais aspetos que nos chamam a atenção, mas refiro um em particular: o bonito relógio, situado ao lado do conta-kms. Um acessório muito distintivo, com um toque de classe e a particularidade de ser a corda mecânica, ou seja, não é alimentado por uma pilha ou pela própria bateria! Há que lhe dar corda regularmente, como se de um relógio de bolso ou pulso se tratasse!

Chave na ignição e o motor de arranque cumpre a sua função, acordando o motor para a vida! Só mesmo na primeira geração existia o kick! Daí para a frente vem com motor de arranque melhorando ainda mais o conforto! Até existe uma vareta para ver o nível do óleo no cárter do motor! Já agora, o depósito tem capacidade para 11,5 litros e uma longa autonomia.


Ainda sobre a chave existe um pequeno/grande problema, extensivo por exemplo à nacional Casal: a chave, universal, permite colocar em funcionamento muitas outras Heinkel Tourist, bem como destrancar a sua direção! Talvez naquela época não existissem tantos amigos do alheio como hoje e mais não escrevo!

O guiador é perigosamente minimalista, mas o resto não, incluindo uma plataforma perfeita para condutor e passageiro, assento plano e confortável, um ótimo espaço de carga atrás, sobre o pneu suplente e mesmo à frente existe uma plataforma escamoteável que nos permite levar mais carga e ainda temos mais um espaço debaixo do assento… ou não seja esta uma scooter de turismo!

Engrenamos a primeira velocidade com o punho esquerdo rodando para trás, tal como na sua adversária Vespa, e as restantes 3 mudanças são para a frente, sendo necessário algum jeito para as ir engrenando, mas é mais uma questão de prática que qualquer outra coisa. O facto de ser um motor a 4 tempos tem outra vantagem: muito binário desde baixas rotações o que nos permite progredir sem ter de esmagar o acelerador.

A forma como abordamos as curvas deve ser cautelosa, até porque as rodas de 10 polegadas (na primeira e segunda geração eram de 8) não convidam a demasiadas loucuras e mesmo as suspensões não são muito dadas a abusos. Ainda assim, há quem faça com as Tourist as coisas mais incríveis e o modelo até tem um extenso historial de competição, mas certamente que não em modo stock.

O sistema de travagem é o que se pode esperar para uma scooter da época, mas ao ser um motor a 4 tempos já existe algum travão motor e, se necessário, podemos sempre reduzir uma mudança, tornando tudo mais fácil.

Uma chamada de atenção também para o descanso central (não existe outro): para o desativar nada como fixar os braços no guiador e dar um impulso para a frente. Já para o ativar pode ser mais complicado e implica procurar com o calçado um dos seus braços, mas como o peso da scooter é reduzido, depressa se lhe apanha o jeito.

Heinkel faleceu em 1958 em Estugarda e no ano de 1965 a marca acabou por ser engolida pelo gigante VFW (Vereinigte Flugtechnische Werke), numa altura em que ainda se produzia o seu último modelo, a Tourist 103-A2.


Notas finais

Conduzir esta Tourist foi para mim uma nova experiência. Conheço bem a sua concorrente direta, a Zundapp Bella, e admito que a Tourist tem um posicionamento mais refinado e luxuoso, a que não é alheio o facto de vir equipada com um motor a 4 tempos ou a sua estética mais cuidada e aerodinâmica.

Bastante fácil de conduzir, muito requintada, com elevada qualidade de construção e acabamentos de fazer inveja, percebe-se perfeitamente o encanto que cria nos seus felizes proprietários.

Além disso, existem clubes muito ativos da marca, caso do Heinkel Club Deutschland, através do qual é possível obter praticamente todas as peças para a Tourist, o que lhe aumenta ainda mais o apelo, apesar de ter deixado o mercado já lá vão 60 anos!

andardemoto.pt @ 13-8-2026 21:00:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte


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