BMW R 51/2: o regresso do boxer

De novo na Alemanha, trazemos agora um modelo icónico da casa bávara. A BMW R 51/2 é o primeiro modelo pós II Guerra Mundial, quando a marca volta a produzir motores com a sua tradicional e ainda hoje muito apreciada arquitetura boxer.

andardemoto.pt @ 18-8-2026 21:30:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte

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Em bom rigor, esta BMW R 51/2 não representou uma grande inovação. Era, na sua essência, a mesma moto que a BMW produzira durante vários anos e usara exaustivamente durante a II Grande Guerra como veículo militar, ou seja, a R 51.

De tal forma que, mesmo tendo tido uma produção muito limitada, cerca de 5.000 unidades, a R 51/2 também vinha preparada para ser equipada com um sidecar do lado direito. Facilmente nos traz à memória as imagens dos soldados alemães da Wehrmacht em que além do condutor tínhamos outro soldado no sidecar, muitas vezes com uma metralhadora na frente e, em alguns casos, ainda com um pequeno atrelado atrás!

Um pouco de história

A Segunda Guerra Mundial foi um conflito em que as motos tiveram um papel importante, nomeadamente na sua primeira fase, quando a Alemanha desencadeou a sua “Guerra Relâmpago”, no original Blitzkrieg.

As suas motos BMW R 51 revelaram-se uma peça importante dessa estratégia sendo rápidas, muito fiáveis, com uma enorme capacidade de carga e capazes de operar em praticamente todos os teatros de guerra, que iam desde as miseráveis estradas da europa, até às escaldantes areias do Norte de África.

Porém, com a derrota do Eixo (em especial a Alemanha, a Itália e o Japão) pelos Aliados (nomeadamente os Estados Unidos, a Inglaterra, a França e a Rússia) a Alemanha pagou um preço bem caro, acabando por ser “retalhada” em quatro pedaços. 


Com os vencedores a imporem as suas regras, foi das limitações que surgiram as oportunidades. Foi o caso do nascimento da indústria dos motociclos no Japão ou de várias marcas em Itália e até mesmo na Alemanha, como foi o caso da Henkel.

No caso da BMW não foi assim tão simples e a marca, que lutava por sobreviver, numa fase inicial, não tinha permissão para construir motos acima dos 250 cc (daí a R24 produzida entre 1948 e 50), sendo que esta R 51/2 foi a primeira moto em que foram autorizados a subir de cilindrada. Como os recursos eram escassos a opção foi ir buscar um projeto que já existia antes e relança-lo para “preparar” o mercado, antes da chegada da mais evoluída R 51/3.

Os olhos também se alimentam

Olhar para este magnífico exemplar de 1951 (as R 51/2 só foram produzidas durante 1950 e 1951) é um regalo para os nossos olhos. Mesmo aqueles que não são fãs de motos clássicas facilmente admitem que este modelo tem imenso charme e as suas linhas são quase intemporais, sendo que o preto com alguns apontamentos em branco lhe assenta particularmente bem.

Nota-se que há um equilíbrio nas proporções e que o cuidado estético com que foi construída faz dela uma moto em que tudo faz sentido e nada foi deixado ao acaso, a ponto de parecer que nos está a convidar para irmos dar uma voltinha juntos, sabendo que ela dificilmente nos vai deixar ficar mal.

Naturalmente que este modelo, nacional, já foi integralmente restaurado e nem podia ser de outra forma. Afinal de contas, são mais de 70 anos de vida e se é verdade que nas mãos do proprietário atual é mimada com todos os cuidados e o carinho que merece… nem sempre foi assim! Esta moto teve uma segunda oportunidade, mas a maioria ficou pelo caminho, com muito poucas à espera que alguém olhe por elas e tenha recursos para tal.


Numa inspeção mais detalhada, facilmente vemos que não há marcas de ferrugem, que a pintura está em bom estado, que os cromados têm um brilho fantástico e que, de um modo geral, toda a moto está num estado de conservação muito fiel ao original. 

Ver pormenores como o estilizado e envolvente guarda-lamas dianteiro, a minúscula luz traseira ou o egoísta selim que mais parece o de uma bicicleta, fazem-nos viajar no tempo. Aquelas duas longas ponteiras de escape são uma obra prima e pensamos sempre que se conduzirmos de forma mais empenhada, ao curvar, há sempre o risco de alguma roçar no asfalto!

Impressões de condução

Há pequenos pormenores que não são completamente originais, como é o caso do conta-quilómetros que é uma réplica perfeita do original, mas o mais importante de tudo é que continua a ser usada e desfrutada. Ou seja, não serve como peça de decoração ou apenas como investimento, mas antes participa em alguns passeios de clássicas ou de pura fruição, sempre que tal é possível.

Tal como alguns de vós, também tirei a Carta de Condução numa vetusta e fiável BMW R 27. A monocilíndrica da década de 60, muito popular, usada por quase todas as escolas de condução durante décadas. Conduzir esta R 51/2 teve um certo efeito de déjà vu, começando logo pelo típico pedal de arranque em posição transversal, situado do lado esquerdo da moto e continuando pelas nítidas semelhanças ao nível estético.

Porém, o motor boxer que equipa esta R 51/2 faz toda a diferença e para melhor. Apesar de ter apenas 494 cc e debitar uns singelos 24 cv às 5.800 rpm as boas sensações estão todas lá e a vibração que emana está no ponto certo. De tal forma que ao conduzirmos uma BMW atual com um boxer de quase 1300 cc e depois passarmos para a sua antepassada 51/2 ainda temos mais simpatia por esta joia de engenharia do meado do século passado.

Já com o motor em funcionamento, deixamos que ganhe alguma temperatura e aproveitamos para nos familiarizar com a posição de condução que é francamente neutra, ainda que a posição do guiador possa parecer algo estranha. Está tudo à mão de semear e o ronronar dos dois escapes é pura música para os nossos ouvidos.


A embraiagem é pesada, mas cumpre a sua função e as 4 mudanças estão lá, mas exigem alguma decisão e firmeza no seu manuseamento para não surgirem falsos pontos mortos. É apenas uma questão de hábito e rapidamente lhe apanhamos o jeito e percebemos que até consegue curvar, mas com alguma moderação pois não é uma moto de corridas, nem o pretende ser.

Não se esperam prestações de eleição, até porque o seu peso em ordem de marcha de 185 kg (incluindo 14 litros de gasolina) não ajuda, mas velocidades na ordem dos 80 km/h são a sua praia e aí apresenta um comportamento soberbo. Mais rápido começam a sentir-se as limitações do quadro, das suspensões e os abrandadores (perdão, travões) chamam-nos à realidade. Já agora, usar a caixa para reduzir de forma intempestiva pode ser perigoso pelo risco de bloquear a roda traseira…

Por outro lado, estar equipada com dois pneus 3.50, de 19 polegadas, também não ajuda muito. Porém, quando a conduzimos em modo de fruição esquecemos tudo isso e simplesmente vamos focados no essencial, apreciando a forma descontraída como se deixa levar. Até arranca muitos sorrisos a quem passa por ela, ou seja, dificilmente se passa despercebido aos seus comandos e isso não é necessariamente mau, bem pelo contrário.

Notas finais

O construtor Bávaro tem uma longa história. Passou por vários altos e baixos desde a sua fundação no longínquo ano de 1921, sendo que a primeira BMW, na pura aceção do termo, foi fruto da genialidade do engenheiro Max Fritz e chegou ao mercado em 1923: a hoje cobiçadíssima R32, com motor boxer, pois claro!

Esta R 51/2 representa mais um passo importante na vida da marca. Embora pouca diferença tenha da sua antecessora R51 (uma das mais visíveis encontramo-la nas tampas das válvulas que continuam separadas, mas têm agora uma peça exterior que as une) significa que na marca alemã não baixaram os braços e mesmo nos escombros da guerra a marca conseguiu sobreviver.

Conduzir este “fragmento de história com rodas” faz-nos também perceber que por muito que a engenharia e a técnica tenham evoluído, partir de uma boa base faz toda a diferença e o boxer é uma excelente base!

No final do test ride a esta moto acabei por confirmar algo que todos nós sabemos, embora facilmente nos esqueçamos: a essência da moto não tem de estar necessariamente focada na potência ou na estética da moto. Todos esses atributos são importantes, dependendo de cada um, mas a moto continua a ser em boa medida um veículo de sensações e as que esta R 51/2 proporciona são ótimas!


andardemoto.pt @ 18-8-2026 21:30:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte


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