Yamaha XT 500: a Primogénita

Talvez possa parecer um pouco exagerado apelidar assim a Yamaha XT 500, mas o título é perfeitamente merecido. 

andardemoto.pt @ 2-8-2026 21:32:32

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Talvez possa parecer um pouco exagerado apelidar assim a Yamaha XT 500, mas o título é perfeitamente merecido. Deve-se ao seu caráter inovador nas motos trail e de aventura, pelo seu palmarés desportivo e também pelo facto de quase parecer uma moto atual, com níveis de conforto invejáveis em pleno século XXI. Uma moto que fez história e que vai ficar na história.

Uma viagem no tempo

Quando foi apresentada, ainda em 1975, criada sob a liderança de Shiro Nakamura, a Yamaha ainda não tinha a real perceção de como iria mudar o paradigma mundial das motos de aventura e do impacto global que iria causar. 

A primeira versão desta trail era uma pura moto de off-road, denominada TT 500 e nem sequer tinha ainda luzes ou matrícula! A própria Yamaha estava a desenvolver os seus primeiros motores a 4 tempos, quando até aí a sua especialidade eram motores de ciclo a 2 tempos, nomeadamente as populares DT.

Percebendo a apetência por este tipo de motos, e depois de vários testes em competição e corrigidas várias falhas, a Yamaha tomou a decisão de lançar uma versão mais “civilizada”, preparada para circular na via pública, equipada com um enorme monocilíndrico a 4 tempos. Estavam lançadas as raízes para o sucesso!

O mercado e os consumidores foram apanhados de surpresa! A XT 500 era uma moto bastante à frente do seu tempo e não tinha concorrência direta, fosse europeia, norte-americana ou japonesa! Era diferente de tudo o que existia, e para melhor!

Vinha com várias peças fabricadas em alumínio, caso do minúsculo depósito de 9 litros, para reduzir o peso. O motor, refrigerado a ar, possuía um enorme pistão, com uma relação diâmetro/curso bastante “quadrada” de 87 mm x 84 mm, com uma cilindrada de 499 cc, uma única árvore de cames, apenas duas válvulas e arranque apenas por pedal.


Juntava-se uma boa posição de condução, aspeto aventureiro, suspensões de longo curso, elevada altura ao solo (120 mm) e saída de escape em posição mais elevada e lateral, depois de perceber que a proposta inicial com a ponteira “por baixo” não era adequada.

Debitava cerca de 32 cv às 6.500 rpm e 40 Nm de binário às 5.500 rpm, um valor fantástico para a época. Além disso, o seu peso, em ordem de marcha, era de apenas de 150 kg, uma verdadeira peso pluma, ao nível das melhores motos a 2 tempos, muito abaixo das pesadas e exigentes 4 tempos da sua época!

Com um aro dianteiro de 21 polegadas e um traseiro de 18, medidas ainda hoje standard para as motos mais aventureiras, proporcionando uma ampla escolha de pneus, estavam lançadas as bases para uma moto capaz de brilhar no asfalto e fora dele e vencer corridas. 

Destaque para o Rally Paris-Dakar, onde venceu as duas primeiras edições, 1979 e 1980, pelas mãos de Cyril Neveu e os segundos lugares, respetivamente, pelas mãos de Gilles Comte e Michel Merel.

Rainha da suavidade

Este espetacular exemplar de 1981, que aqui lhe apresento importado da Alemanha e propriedade do Octávio Sousa, a quem se agradece a simpatia e conhecimento do modelo, encarna todas as caraterísticas do modelo original. Está num estado francamente bom, tendo sido alvo de alguns mimos, caso dos novos autocolantes, mas nunca foi restaurada e apenas a jante traseira destoa ao não ser original.

A estética da moto é uma delícia, com o guarda-lamas dianteiro de plástico em posição elevada e o traseiro metálico, ambos pintados de branco, piscas com hastes de borracha, farol dianteiro redondo, ótimos comandos, que a marca usou durante décadas, manómetros completos e muito mais.


Naturalmente que o grande destaque vai também para o motor. Aquela peça de engenharia japonesa que veio surpreender toda a gente e a marca soube ir aprimorando e corrigindo, nomeadamente ao nível da lubrificação da árvore de cames e da corrente de distribuição.

Quando nos sentamos em cima da moto somos surpreendidos pelo facto do assento, a 840 mm do solo, ser de um conforto inesperado, e pelo elevado curso das suspensões a par com uma posição de condução endurista, mas sem exageros. O melhor começa depois de começarmos a andar nela!

Dado ter apenas arranque por pedal e à sua elevada cubicagem, convém cumprir rigorosamente o ritual de arranque, até para não corrermos riscos:

Chave ligada, abrir a torneira de gasolina, puxar a patilha do ar no carburador e, depois, o mais importante: com um dedo da mão esquerda puxar o descompressor para abrir o martelo da válvula de escape e deixar sair alguma compressão, procurar com o pedal o ponto morto superior (PMS) olhando para a pequena escotilha até aparecer a zona branca da respetiva came. Nesse momento, larga-se o descompressor e, com decisão, dá-se uma “patada forte” e a magia acontece!

O grande mono acorda para a vida! Sem grandes queixumes, vibrações ou hesitações! Uma verdadeira delícia que mostra que o trabalho de casa foi muito bem feito!

Quando o ralenti estabiliza podemos fechar o ar no carburador e arrancamos, desfrutando de uma embraiagem modulável e de uma caixa de velocidades que, mesmo para os padrões atuais, não envergonha ninguém. As cinco marchas são todas suaves, bem distribuídas e permitem aproveitar todo o potencial do motor.

Talvez as suspensões sejam demasiado moles e a rigidez do quadro deixe algo a desejar, mas estamos a referir-nos a um projeto com 50 anos! Só mesmo a travagem, estranhamente ainda tambor à frente, nos deve preocupar, até porque o motor atinge facilmente velocidades acima dos limites legais, sempre de forma suave e controlada, quase nem parecendo um grande monocilíndrico.


Mesmo com passageiro, o bem-estar continua a ser de excelente nível e rapidamente as pessoas descobriram isso e tanto a usavam para viajar a dois como para ir competir numa qualquer Baja! Era uma moto verdadeiramente dual purpose! A génese das atuais trail!

Mais detalhes

A Yamaha XT 500 continua a ser uma moto muito apreciada e até venerada. Numa simples paragem para fotos à beira da estrada fomos logo abordados por uma pessoa, fã do modelo, que veio simplesmente meter conversa!

Ou seja, a sua mística continua em altas, tal como as suas sucessoras. Apesar de não ser uma moto perfeita, nem perto disso! Por exemplo, tem boa acessibilidade mecânica e a manutenção não muito complicada de executar, mas tem também 3 filtros de óleo, necessita de afinações de válvulas com regularidade e o seu carburador é muito sensível, inclusive à qualidade da gasolina.

Depois da vitória no primeiro Rally Paris-Dakar, em que a ideia de participar veio do importador francês, liderado por Jean Claude Olivier, a moto foi catapultada para um sucesso de forma meteórica e foram vendidas cerca de 150.000 unidades ao longo da sua extensa carreira, sendo que muitas delas continuam ainda hoje a rolar.

A Yamaha XT 500 é uma daquelas motos verdadeiramente intemporais, cuja comercialização se foi prolongado até 1989, mesmo depois de, em 1983, a Yamaha ter lançado a sua versão mais “Dakariana”, com um motor monocilíndrico de 600 cc: a Ténéré 600!

Ainda mais um pormenor interessante que ajudou a cimentar as vendas e notoriedade do modelo: No filme de 1981 “For your eyes only” (traduzido por “Missão Ultra-secreta”), em que o papel de James Bond é interpretado por Roger Moore, temos a XT 500, logo em dose dupla, como uma protagonista do filme que quase consegue ofuscar o Espião ao serviço de sua Majestade!


andardemoto.pt @ 2-8-2026 21:32:32


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