Paula Kota
OPINIÃO
Chuva civil não molha Motard
Lá fora chove. Forte. Saio de casa já com o fato de chuva vestido. Tenho de pôr o capacete para fazer o caminho até à garagem e não molhar o cabelo. O vento empurra-me. A minha mãe diz que nunca conseguiu perceber porque ando de moto com este temporal.
andardemoto.pt @ 3-3-2018 18:21:00 - Paula Kota
No trajeto até ao trabalho a estrada está entupida de carros. Todos parados. Todos apitam zangados como se isso os fizesse andar mais depressa. Vou-me esgueirando por onde posso e consigo entrar na autoestrada. Parece uma pista de carrinhos de choque. Mesmo em marcha lenta, os automóveis mudam de faixa, travam violentamente, conduzem à chuva como se estivessem numa pista. Depois o trânsito pára e ficam ali a olhar para o relógio. Vão chegar atrasados. A minha vermelhinha (o nome da minha moto) vai circulando por entre os carros, por vezes na berma, por onde consegue.
Nos troços mais abertos a moto cede às rajadas de vento e tenta mudar de faixa. Agarro-a com firmeza. Não vais por aí, vais por aqui. E o vento vinga-se e obriga-me a conduzir de lado. Mas não me vence. E a chuva não pára. A água vai escorrendo pelo fato de chuva e fustiga-me a viseira. É a única coisa que me incomoda. Deviam inventar uns limpa para-viseira para capacetes. Melhorava a visão.
Páro nos semáforos e observo os peões que caminham a lutar com os guarda-chuvas, cabeça baixa, cabelos em remoinho. Sinto-me privilegiada porque me desloco de moto, vou agasalhada e protegida. Interiormente até sinto uma satisfação maquiavélica quando atravesso um rio de água que se acumula na estrada ou junto aos passeios. As botas não deixam entrar uma gota. Passo por ali como se estivesse debaixo de uma qualquer cascata no verão. Com prazer. (nem vou falar sobre as saias protetoras das scooters pois isso é um suprassumo de conforto).
Quando chego ao trabalho estaciono num qualquer cantinho. Eles não. Eles, os automobilistas que vieram no conforto do ar condicionado a ouvir rádio ou a falar ao telemóvel, estacionam o carrito, assentam o pezito na poça de água, lutam com o guarda-chuva e o vento, chegam à porta do escritório molhados. Bastam uns 50 metros.
No átrio do edifício, é sempre um acontecimento quando chego e dispo o fato de chuva, ali mesmo, e o enrolo para dentro do saco. Todos olham para mim com um sorriso desdenhoso. Coitada, com esta chuva deve estar encharcada. Enganam-se, pois eu estou seca, sequinha que nem um cacto no deserto.
Entro no elevador e vejo sobretudos molhados, sapatos ensopados e caras desanimadas. As conversas giram em torno do tempo que demoraram a chegar. Mais de duas horas, diz um …. demorei meia hora a subir a rua X …. houve um acidente na AE e estivemos parados quase uma hora … desventuras de um automobilista. Os meus olhos riem às gargalhadas silenciosas. Passaram 15 minutos desde que saí de casa. Mal consigo esconder o ar de satisfação. Baixo a cabeça para não perceberem. Coitados.
Deixo as calças e o casaco de chuva no bengaleiro, a escorrer. Sento-me à secretária e, discretamente descalço as botas e calço os sapatos de salto. Estou pronta. As minhas colegas começam a chegar, olham para o capacete em cima da secretária e para o blusão nas costas da cadeira.
- Vieste de mota? Com este tempo? Não estás toda encharcada?
- Não (respondo descontraidamente)
- Como não, eu só de vir do carro até à porta molhei-me toda …
Encho o peito de ar, faço um ar de guerreira do asfalto e digo orgulhosamente:
- Chuva civil não molha motard!
Abanam a cabeça e desistem. Não conheço nenhuma forma de responder sem demorar horas. Como vou conseguir explicar que ainda sinto um bocadinho dos suores frios quando fui empurrada por aquela rajada em cima do viaduto, mas nem por isso vou deixar de vir de moto? Vou ter de dissertar sobre como os equipamentos de motociclista nos permitem estar quentes e secos? Como dizer sem melindrar ninguém que ganhei uma hora de preguiça na cama esta manhã e, ao final do dia, quando já estiver de pantufas, ainda eles estão a olhar para o carro da frente, atolados no trânsito. E, acima de tudo, … como explicar esta paixão por andar de moto?
Boas chuvadas
Paula Kota
Nota. Perdoem-me os militares que são os autores da frase original (quase igual a esta). Adaptei-a, pois acho que se encaixa perfeitamente aos motociclistas.
andardemoto.pt @ 3-3-2018 18:21:00 - Paula Kota
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