Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

Traição

Não tenho tendência para me apegar a bens materiais, aliás, valorizo cada vez menos os bens materiais, físicos, supérfluos. Os anos, e também a maturidade, fizeram com que eu passasse a valorizar outras coisas... pessoas, momentos, experiências, aprendizagens e recordações felizes. 

andardemoto.pt @ 28-12-2021 02:30:43 - Márcia Monteiro

No entanto, apesar de não me considerar uma pessoa que se apega a bens físicos ou materiais, quando falamos de motos (e de carros também) a coisa muda de figura. Não é porque eu valorizo o status, também não é porque sou aficionada pelas características técnicas dos veículos aliás nesse aspeto considero-me até muito simples porque desde que o veículo seja do meu agrado e me permita ter uma boa condução, está tudo certo. 

Detalhes demasiado específicos passam-me completamente ao lado porque no fundo eu só quero ser feliz a conduzir a minha moto. Mas aqui é que se encontra a questão chave de tudo isto.

As motos já me trouxeram momentos tão felizes, recordações que jamais vou esquecer, pessoas incríveis que agora fazem parte da minha vida, uma bagagem repleta de histórias e experiências que fazem parte daquilo que eu sou. 

Não é por ser aquela mota, com aquela cor nem com aquela cilindrada... é por causa de ser a minha moto, aquela que me permitiu viver e sentir tudo isto. Para mim foi muito fácil equacionar a hipótese de vender a moto e eventualmente trocar por outra. 

A verdade é que já fiz isso e sabem que mais? Doeu tanto. Olhar para ela uma última vez partiu-me o coração... aliás, dias antes de saber que ela iria partir para outro dono, já me doía o coração. Passava pela garagem, fisgava-a e sentia-me triste. Cheguei ao ponto de falar com ela, como se de uma pessoa se tratasse, e disse-lhe: “perdoa-me... isto não é uma traição”. Quão estranho pode isto parecer? Serei a única?

Chego à conclusão que existe um conjunto de emoções, sentimentos e histórias que por muito que queiramos, não conseguimos esquecer e talvez por isso nos faça doer tanto quando nos despedimos das nossas motos, aquelas que proporcionaram tudo isso. 

Claro que há casos e casos e algumas exceções à regra mas no geral, quando somos tão felizes com as nossas motos, dói sempre um bocadinho. Não seria ótimo se pudéssemos ficar com todas elas? 

Na tentativa de diminuir um pouco esta pequena dor e saudade, tento convencer-me que não estou a trair a minha moto nem tão pouco a abandona-la mas a vida segue e nós temos de seguir com ela.

andardemoto.pt @ 28-12-2021 02:30:43 - Márcia Monteiro


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