Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

De Estremoz a Monsaraz, ninguém fica para trás!

Viajar de moto a solo ou em grupo é completamente diferente. La Palisse não diria melhor!

andardemoto.pt @ 24-4-2022 09:30:00 - Henrique Saraiva

Quando vamos sozinhos gerimos à nossa vontade o tempo, o ritmo, as paragens. Se acompanhados, a gestão do tempo tem que ser mais elaborada: deve-se alinhar horas de partida ou de chegada e o ritmo deve ser o adequado para garantir que todos vão confortáveis (a regra é que o ritmo do mais lento regula o dos restantes - cada paragem, nem que seja para uma simples fotografia, é sempre mais demorada).

Viajar em grupo é, sobretudo, um exercício permanente de consenso. E de respeito mútuo: salvaguardar as distâncias, não ultrapassar ou efectuar manobras desnecessárias, alertar quem vem atrás sobre obstáculos, não perder de vista o elemento que vai à nossa frente nem o que nos segue, etc. A segurança do grupo e de cada um é o valor principal a salvaguardar. Para que todos desfrutem. E assim dar razão ao título desta charla: “ninguém fica para trás!”.

Há, todavia, uma outra diferença não menos substancial. Quando viajamos em grupo temos a tendência natural de nos fecharmos sobre nós próprios e acabamos por reduzir a convivência com o mundo que nos rodeia ao mínimo indispensável. É como se viajássemos numa bolha muito nossa.

Já quando estamos sozinhos, a socialização é um imperativo. De forma natural, porque sentimos o impulso de comunicar e algo que necessitemos terá que ser sempre procurado junto das outras pessoas.

E nesta situação, o contacto é também mais fácil: um motociclista apenas acompanhado da sua moto dificilmente é encarado com hostilidade. Pelo contrário, o respeito ou a curiosidade, alguma aura de aventureiro se calhar, fazem com que as pessoas se aproximem. E é particularmente gratificante quando são crianças e exclamam: “Eh! Ganda mota!!!”. Ou algo parecido...

Este passeio que vos conto foi em grupo.

Como era para fechar o ano, o interesse junto do grupo de amigos e companheiros habituais foi grande. Mas as preocupações sanitárias afastaram alguns. Com vacinas em dia e testes negativos obtidos em prazo útil, lá fomos 5.

Destino: algumas estradas do Alentejo, que contrariamente aos boatos que por aí circulam, não é totalmente plano nem sempre a direito. Sempre encontramos algumas bem sinuosas (só é preciso saber procurar!) como foi o caso desta vez.

Os preliminares - de Lisboa a Estremoz

Comecemos pelo princípio, como convém. Como em qualquer actividade desportiva, é importante um adequado aquecimento dos corpos e dos veículos. Até porque alguns quilómetros nos separavam do primeiro objectivo.

Saída de Lisboa

Saída de Lisboa

Quando saímos de Lisboa rumo ao Alentejo, existem dois locais absolutamente inevitáveis para tomarmos o cafezinho matinal: Alcácer do Sal e uma esplanada com o Rio Sado defronte ou o Couço e as empadas do JL Snack Bar junto à bomba de gasolina, que dizem ser excelentes (não sou apreciador..., mas geralmente os pastéis de nata são uma boa alternativa). Ideais para começar uma jornada.

Desta feita, parámos no Couço.

Depois, rumo a Estremoz e para quebrar a monotonia da EN251, resolvemos passar pela barragem de Montargil e depois pelo Cabeção. Para quem por aqui venha, fica a recomendação de uma visita ao Fluviário de Mora e ao Parque Ecológico do Gameiro.

Regressámos à EN251 mais adiante e, até ao destino, atravessámos sem parar Pavia (a tal que, como Roma, não se fez num dia) e Vimieiro. Aqui entrámos na EN4 e logo depois chegámos a Estremoz. Já levávamos quase 180 quilómetros.


Serra D’ossa: de Estremoz ao Redondo

Café Águias d’Ouro

Café Águias d’Ouro

Desde muito jovem me recordo que sempre que as viagens familiares passavam por esta cidade alentejana, a paragem era obrigatória. E sempre numa verdadeira instituição de Estremoz: o café Águias d’Ouro, que já conta 112 anos de existência.

É uma reminiscência dos antigos cafés de tertúlia que eram o centro da vida das nossas terras nos inícios e meados do Séc. XX. E um dos poucos sobreviventes.

O mesmo não pode dizer o “Plátano” de Portalegre, por exemplo, que virou agência bancária e depois loja chinesa... afinal, um certo paradigma da economia portuguesa.

Ou o célebre Arcada situado na Praça do Giraldo em Évora, que também fechou alguns anos depois do 25 de Abril, fruto das mudanças sociais vividas na região, mas com sorte afinal diferente: cervejaria famosa da capital adquiriu-o e, mantendo o nome de sempre e algumas das características que o tornavam único, adaptou-o aos tempos modernos das cadeias de restauração e cafetaria.

O Águias d’Ouro de Estremoz resistiu à voragem do tempo, honra lhe seja feita!

O edifício, construído entre 1908 e 1909, foi inaugurado como café a 4 de Abril de 1909. Tem uma arquitectura muito peculiar, nomeadamente a sua fachada que reproduz as tendências da época - a designada Arte Nova - e tem a característica única de cada uma das suas janelas ou varandas ser diferente das restantes.

Por motivo que nos escapou, algo se preparava e não pudemos ser servidos. Fomos ao lado.

No grande terreiro em frente estava uma feira: mistura de feira de Natal com venda de antiguidades e velharias, artigos típicos ou produtos alimentares da região. Breve olhar e seguimos viagem rumo a Sul.

De Estremoz ao Redondo são cerca de 26 quilómetros. E que magníficos são!

A travessia da Serra d’Ossa brinda-nos com uma estrada sinuosa onde, apesar dos mais de 650 m de altitude, não somos confrontados com grandes declives, mas antes com sequências encadeadas de curvas para todos os gostos.

O piso é bom e a paisagem que vamos desfrutando a cada curva e contracurva é ainda melhor. Muito, muito divertida… só é pena acabar tão depressa.

Nesta altura, 3 dos “momentos do dia” estavam atingidos: a empada no Couço, a visita ao Águias d’Ouro e o percurso pela Serra d’Ossa.

Era tempo de Almoço.

Em busca do repasto e depois até Monsaraz

Uma das vantagens de dispor de um telemóvel com um grau de inteligência mediana é a possibilidade de rapidamente encontrarmos um local onde solucionar as situações de carência alimentar. Só que desta vez não... e acabámos por resolver a questão “à antiga” já em Reguengos de Monsaraz.

Pequena paragem para reabastecimento de combustível e perguntámos como não poderia deixar de ser, “onde se come bem e barato?”.

Como, por questões de objecção de consciência, o Núcleo Sportinguista não era opção para alguns de nós (os tais consensos que referi no início), a segunda hipótese foi no Núcleo de Reguengos da Liga dos Combatentes.

Atendimento simpático, ambiente agradável em esplanada interior, relativamente barato, excelente quantidade e confecção adequada. De lá saímos devidamente atestados. E prontos para o que faltava da jornada, até porque já levávamos cerca de 230 quilómetros percorridos.

A paragem seguinte foi logo ali, 15 quilómetros à frente: lá bem no alto, com vista magnífica para o Alqueva, chegámos a Monsaraz.

Castelo altaneiro, como quase todos, bem recuperado e com o casario típico, alvo de branco caiado, dentro das muralhas, oferece-nos uma paisagem magnífica: se olharmos para Poente ou Norte, desfila à nossa frente a planície alentejana, quilómetros a perder de vista.

Mas ao invés, se o nosso olhar procurar os outros pontos cardeais, vemos um enorme lago feito pela mão do Homem à custa das águas do Guadiana, que contrasta com a secura que caracteriza estas terras.

Seja qual for a orientação escolhida, será sempre de uma enorme serenidade. A serenidade do Alentejo!

De Monsaraz se sabe que é terra muito antiga, povoada desde a pré-história. A sua localização privilegiada, no topo de uma colina com vista desafogada para o Guadiana e a fronteira com Espanha, fez dela um alvo cobiçado pelos muitos povos que por aqui passaram.

Os Mouros que lhe chamavam Saris ou Sarish, perderam-na em 1167 para o célebre Geraldo Geraldes, O Sem Pavor, conquistador de Évora, mas voltaram a recuperá-la. Para definitivamente a perderem para Portugal em 1232, para o exército de D. Sancho II.

Se o actual castelo foi construído no tempo de El-Rei D. Dinis já as muralhas que a rodeiam foram erguidas durante as Guerras da Restauração (Séc. XVII).

A cerca muralhada de Monsaraz tem quatro grandes portas por onde se entra na vila. A principal, a Porta da Vila, está protegida por dois torreões semicilíndricos e tem, a encimar o seu arco gótico, uma lápide consagrada à Imaculada Conceição em 1646, por El-Rei D. João IV.

A Porta d’Évora, no lado norte da muralha e também de arco gótico, protege-se por um cubelo. As restantes, d’Alcoba e do Buraco, são portas de arco pleno.

A nossa visita decorreu no pré-Natal. As ruas de Monsaraz estavam transformadas num presépio em tamanho natural com as figuras representativas espalhadas pelas suas ruas.

Entretanto, não é que a hora fosse muito adiantada. Mas nesta altura do ano, com o anoitecer por volta das 5 horas, concluímos que era altura de preparar o regresso. Afinal já tínhamos atingido o objectivo final.

Se fosse noutra época do ano, com dias mais compridos facilmente estenderíamos o passeio e iríamos contornar a albufeira do Alqueva com passagens por Mourão e Moura. Nomes que sugerem bem a presença do Al-Andalus já lá vão 9 séculos mas que ainda permanece indelével.


O regresso

No início falei sobre as duas portas de entrada no Alentejo - Alcácer do Sal e Couço. Agora, tínhamos como rumo a porta de saída: refiro-me obviamente a Vendas Novas e às suas famosas bifanas.

Mas para lá chegar era fundamental “alimentar” as nossas preciosas companheiras de viagem. E logo ali ao lado estava Espanha...Villanueva del Fresno...com gasolina a preço que já não é de saldo mas ainda assim a compensar o salto! Foi o que fizémos.

Finalmente apontámos ao por-do-sol. Que sobre as águas do Alqueva é magnífico!

O resto da viagem seria feita de noite, algo que é pouco interessante e que, pessoalmente, não gosto.

Dois dos companheiros de viagem tinham compromissos em breve e seguiram a caminho da A6 em Évora que tomaram para um regresso mais rápido.

Mais uma vez, prevaleceu o espírito de grupo e o companheirismo: a separação fazia todo o sentido nesta altura e ninguém levou a mal. Pelo contrário: logo combinámos troca de mensagens para sabermos se os regressos de uns e outros tinham corrido bem.

Os três restantes continuámos, sempre por estrada: Évora, Montemor-o-Novo e finalmente Vendas Novas: as bifanas estavam óptimas, como sempre.

Depois...Pegões, Montijo, Ponte Vasco da Gama e...casa! O dia estava feito. E muito bem feito com cerca de 450 quilómetros de diversão e muita camaradagem...ali, a ANDAR DE MOTO ao Virar da Esquina!

Por do sol sobre o Alqueva

Por do sol sobre o Alqueva

Janeiro 2022

andardemoto.pt @ 24-4-2022 09:30:00 - Henrique Saraiva


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