Ana Amorim Dias

Ana Amorim Dias

Escritora, advogada, empresária e motociclista

OPINIÃO

Na cabeça de um homem...

- Então? Já te passou a neura?
Pousei o capacete sobre o sofá da sala e sorri-lhe, desafiante: "Completamente! Agora anda daí: pago-te o pequeno-almoço..."

andardemoto.pt @ 3-7-2017 19:30:00 - Ana Amorim Dias

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Uma hora antes, pouco depois das nove, saí para aproveitar o tempo ainda relativamente fresco de mais uma manhã de verão. Tentei não fazer barulho com as pesadas botas e esforcei-me por sair tão silenciosamente quanto numa Harley é possível... claro está que falhei por completo. E enquanto passava da segunda para a terceira, ocorreu-me imaginar o que pensará um homem ao acordar, ao domingo de manhã, ao som da partida motorizada da sua rebelde esposa.
Entre uma e outra curva, que isto de viver entre o litoral e a serra tem vantagens que se farta, pensei muito seriamente sobre o tema: a ser eu um homem, gostaria ou não de ter uma mulher que se furtasse ao meu leito para umas voltas de mota logo pela fresquinha? Ou, colocando a coisa em todo o seu simplificado esplendor: que sentimentos nascerão afinal nos homens ao perceberem que a mulher que amam (também) é motociclista?

O vento na cara e o bailado das curvas activaram-me as memórias. Eu devia ter uns quinze ou dezasseis anos quando o Capitão me emprestou a sua Zundapp para que eu experimentasse. Era inverno. Estávamos num parque de terra e lembro-me de ter conseguido atravessar todas as poças de lama ao meu alcance. Detestei a experiência ao ponto de nunca mais ter tomado o comando de algo só com duas rodas. O Capitão, esse, que sempre conduziu como um Deus, foi subindo em cilindrada até que a vida familiar o chamou para mais rodas...

- Tu? A carta de mota? - comentou há uns anos sobre a minha decisão. - Claro, parece-me muito bem! - sei que só não se riu por tão bem me conhecer o explosivo temperamento.
- Compraste uma Harley? Tu és mesmo de ideias fixas! - elogiou-me meses depois.
Mas o certo é que já anos se passaram e nunca cheguei a perguntar-lhe o que sente ao ver-me selar a minha montada e partir, toda feliz, rumo aos meus afazeres. Sentirá orgulho? Preocupação? Insegurança? Ou um amor ainda maior?
O que sente um homem ao perceber que a sua amada já não quer ir atrás dele e prefere conduzir ela mesma pelas estradas do seu prazer? 
Fosse eu homem e sentiria uma enorme alegria por saber que o meu amor se havia tornado mais propensa a um prazer tão maior e se estava a tornar tão mais merecedora de mim quanto eu dela.

Passava pouco das dez quando voltei a sair, rumo ao pequeno-almoço, desta vez atrás dele, como sempre feliz, segura e completa.

andardemoto.pt @ 3-7-2017 19:30:00 - Ana Amorim Dias


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